Um planeta, dois campos sociais – Entendendo a conjuntura internacional com um novo olhar

  • 22 de Julho de 2016

Texto original por Otto Sharmer. Tradução Larissa Carneiro

Dallas, Ferguson, Nice. Turquia, Trump & Brexit.

O aumento simultâneo do terrorismo global, de homens fortes autoritários e de extrema direita são faces da mesma moeda. Mesmo que os políticos como Trump e o terrorismo finjam lutar entre si, num nível mais profundo eles se alimentam mutuamente. Quanto mais ataques terroristas ocorrem nos EUA, Turquia e França, maiores são as chances de que Trump, Le Pen, e seus aliados sejam eleitos. Mas o que é mais interessante é a interconexão dos valores, a um nível espiritual mais profundo: ambos os movimentos, em graus diferentes, prosperam na ativação de um campo sócio-emocional que se caracteriza pelo preconceito, raiva e medo.

Os campos sócio-emocionais

Geopolítica e relações internacionais têm sido estudadas em diferentes níveis: surgem questões políticas; elas são analisadas à luz de suas estruturas sistêmicas subjacentes que, por sua vez, são formadas pelos interesses egocêntricos dos Estados-nação (níveis 1, 2 e 3 na Figura 1).

Desenho de Kelvy Bird
FIGURA 1
DESENHO: KELVY BIRD

Quatro níveis: sintomas, estruturas, interesses, campos sociais

Esse modelo parece perfeitamente lógico, não é? Mas lá vai um pequeno segredo: ele não consegue mais realmente explicar o que está acontecendo. Não pode mais ser totalmente aplicado em um mundo de interdependência global sem precedentes, em que ataques locais são realizados de forma aleatória por "lobos solitários" em alvos fáceis, como os ataques em Nice, Paris, ou Dallas. É (e continuará sendo) impossível preveni-los, a menos que comecemos a focar nas raízes mais profundas que levam as pessoas a cometer tais atos de terror. A raízes socioeconômicas desses problemas são surpreendentemente similares às questões que levaram, por exemplo, as pessoas na Grã-Bretanha a votarem pelo Brexit e nos EUA a votarem para Donald Trump. Deixe-me explicar.

A classe política ficou aturdida pelo resultado Brexit e continua perplexa com a rápida ascensão da extrema direita. Da mesma forma, os maiores especialistas econômicos foram surpreendidos quando o mercado financeiro global entrou em colapso em 2008. Nada nos antigos modelos de política e economia preparou as lideranças para lidar com o tsunami que estava (e está) vindo em sua direção.

Esses paradigmas ultrapassados de pensamento econômico e político foram atualizados depois desses eventos? Claro que não. Certamente não de uma forma estrutural. É por isso que vou propor uma quarto nível, mais profundo, para o quadro acima. Vamos incluir a perspectiva de campos sociais nessa conversa, para lançar alguma luz sobre o que está realmente acontecendo. Campo social é a estrutura de relações entre indivíduos, grupos, organizações e sistemas que dá origem a comportamentos e resultados coletivos.

Questões e eventos (nível 1) resultam não só de estruturas sistêmicas (nível 2) e dos interesses dos Estados-nação (nível 3), mas também das estruturas profundas dos campos sociais (nível 4).

O Campo Social do Absencing

Existem dois estados fundamentalmente diferentes de consciência em que os campos sociais podem operar. O primeiro é o que vemos estampado no crescimento do terrorismo e da extrema direita. É uma lógica social-emocional que opera através de:

  1. preconceito (fechando a mente)
  2. raiva, culpa (fechando o coração) e
  3. medo (fechando a vontade)

Isso resulta em um ciclo de auto-reforço de polarização e violência que começa com a negação (desconexão da realidade exterior), se aprofunda através dessensibilização e absensing (desconexão da realidade interior) e, finalmente, resulta em vários padrões de destruição (das coisas, dos outros e de si mesmo).

Eu chamo a ativação desse ciclo do campo social de absencing porque torna a nossa essência humana menos presente para o mundo, para os outros, e para nós mesmos. Podemos reconhecer sua linguagem padrão na forma como o ISIS faz uma lavagem cerebral nos jovens usados para ataques suicidas. É um padrão que se esconde em torno de nós, incluindo na política (o aumento da polarização e o extremismo), economia (violência estrutural de exclusão), e cultura (a ascensão de ideologias fundamentalistas). Absencing é ativado por hábitos e tecnologias que nos mantêm dentro de nossa própria bolha, e é super-potencializada por um cenário global de trauma histórico que, uma vez reativado, amplifica mais uma rodada de violência em todas as suas formas (direta, estrutural, cultural).

O Campo Social do Presencing

Entretanto, a real e melhor história do nosso momento presente não é essa. A verdadeira história de nosso momento encontra-se na ativação de um segundo estado do campo social, que está cada vez mais disponível para grupos e comunidades em todas as culturas. Eu chamo isso de campo social do Presencing porque torna a nossa essência humana mais presente para o mundo, para o outro, e para nós mesmos. É um campo social criador, que acontece sempre que grupos se movem para fora de sua habitual bolha ou filtro e envolvem-se em processos com a mente (curiosidade), o coração (compaixão), e a vontade (coragem) abertas. O resultado é um ciclo de ação co-criativa:

  1. vendo com novos olhos (mente aberta)
  2. sentindo outras perspectivas (coração aberto)
  3. presenciando nossas maiores possibilidades futuras (vontade aberta)
  4. co-criando essas possibilidades através da aprendizagem pela prática

A Figura 2 mostra os dois campos sociais. Eles funcionam como espelho. A política global e os assuntos econômicos mundiais atuais emergem da interação entre eles, que se desenrola em sistemas ao nosso redor e dentro de nós.

Figura 2
FIGURA 2
DESENHO: KELVY BIRD

Uma Terra, dois campos sociais

É evidente que quase toda a cobertura da mídia e atenção são dedicados à metade superior da figura 2: ou seja, o ciclo destrutivo do absencing. A metade inferior da figura 2 (ciclo criativo do presencing), mesmo que seja uma experiência profunda na vida de inúmeros agentes de mudança a nível mundial, continua a ser um ponto cego em nossos meios de comunicação e em nossas conversas públicas.

Questões RAiZ: três desafios

O concomitante crescimento de políticos como Trump por um lado e do novo terrorismo global (que é impossível combater com os mecanismos tradicionais, tais como detectores de metal) por outro lado, deixou uma coisa clara: você não pode lutar contra esses campos de negatividade (Trump) ou destruição (terrorismo) diretamente, escolhendo as velhas armas. Você só pode lutar contra eles abordando-os na sua raiz. E na raiz de ambos os fenômenos encontram-se as questões centrais de um fracasso econômico, político e espiritual que alimentam a lógica de funcionamento das sociedades de hoje.

O fracasso económico: criação de bem-estar para todos

A primeira falha, a falta de uma evolução da economia, remonta à revolução Thatcher / Reagan há quase 40 anos. Desde então, o mundo tem visto uma explosão de riqueza econômica que beneficiou principalmente os 1% mais ricos, deixando para fora quase toda a sociedade, especialmente a metade inferior, que ainda está esperando ser contemplada (efeito trickle-down). Aqueles que votam para Brexit e para Donald Trump tendem a ter muito em comum. Eles são predominantemente brancos, homens, idosos, da área rural e menos instruídos — em suma, os "perdedores" da globalização. A decisão por Brexit e Trump é uma forma de expressar suas frustrações com um sistema que falhou com eles por quatro décadas seguidas.

O fracasso político: criar formas de participação direta, distribuída e dialógica para todos

A segunda falha é a falta de uma evolução da democracia. Em todo o mundo, o futuro da democracia e da governança está sendo questionado. A paralisia de Washington - DC na política nacional na última década; o referendo Brexit, que gerou um resultado que parece que a maioria das pessoas realmente não querem; e o impacto tóxico dos grupos de interesses específicos que sequestraram o processo político em muitos países, são todos sintomas de um sistema que precisa desesperadamente ser atualizado: uma atualização para um sistema de governança mais direto, distribuído e dialógico.

O referendo Brexit não prova que os referendos não funcionam. Ele mostra que nós provavelmente precisamos de mais, e não menos, elementos de democracia direta, mas também precisamos alinhá-los com um diálogo real e informações fatuais, ao contrário do monte de mentiras e falsas alegações em que o debate para o Brexit foi baseado.

O próprio fato de as pessoas mais afetadas pelo Brexit, os jovens na Grã-Bretanha,serem o grupo demográfico que menos participou no processo de tomada de decisão, oferece uma outra lição para atualizar a democracia. Precisamos de elementos mais diretos e distribuídos (baseados em tecnologia), com mais diálogo verdadeiro, levando os cidadãos a novos espaços de escuta profunda e diálogo entre as comunidades. Estas são as chaves para a regeneração de uma cultura de discurso cívico e civil.

O fracasso espiritual: ativar as fontes de criatividade humana

Mas talvez o maior fracasso das elites na Europa e em outros lugares do mundo diz respeito ao vazio espiritual. O terrorismo é o lado negativo da expressão da criatividade humana (ou a falta dela). Cada ato de terrorismo é uma expressão de um potencial criativo que foi extraviado, que era incapaz de se manifestar no contexto da verdadeira criatividade que gera impacto positivo. Onde é que o problema começou? Começa em escolas que falha com nossos filhos, ensinando-os a passar em provas ao invés de nutrir suas fontes mais profundas de criatividade e aprendizagem.

Encontramos a mesma falha espiritual no debate Brexit. Todo o argumento pró-UE pode ser resumido em uma péssima tentativa de assustar as pessoas, levando-as a acreditar que deixar a UE teria profundas repercussões econômicas negativas. Assustar as pessoas como uma estratégia de persuasão é uma estratégia perdedora (pergunte ao movimento ambientalista!) Este vazio interior foi ainda mais visível pelos líderes dos dois campos principais, David Cameron e Boris Johnson. Cameron atuou na votação puramente para ganho de pessoal — garantir sua própria reeleição, transferindo o risco para o país como um todo. Boris Johnson fez o mesmo: posicionou-se de uma forma que ajudou a sua futura carreira à custa do país. A diferença entre as prioridades — ego pessoal versus o bem-estar do país — foi sempre cristalina. Basta olhar para o Partido Republicano no Congresso dos EUA, que prefere atacar o Obama ao invés de ajudar o país a ter sucesso. A consciência centrada no ego sempre venceu. Esse vazio espiritual, a falta de consciência focada no bem-estar do todo, é o terreno fértil para um fenômeno pré-fascista como a candidatura Trump.

O vazio espiritual não pode ser preenchido apenas com uma outra ideologia ou outra camisa de força de normas éticas tradicionais. Isso seria se mover para trás. Avançar significa atualizar o sistema educacional de uma forma que permita a cada ser humano se conectar verdadeiramente com as suas próprias fontes de humanidade e criatividade — essa será a fonte de toda a renovação social.

Atualizando o código de funcionamento de nossos sistemas sociais

Resumindo: Ao olhar para os desafios atuais com uma visão sistêmica (figura 1), percebemos que é preciso atualizar o código operacional em nossos sistemas econômicos, políticos e educacionais. Precisamos abandonar nosso modo atual (consciência do sistema centrada no ego) e abraçar uma outra maneira de operar que funciona ativando os campos sociais criativos (figura 2).

Apesar desses tipos de mudanças positivas estarem acontecendo no ponto cego da mídia, há inúmeros ativistas e comunidades em todo o mundo que estão usando o poder do campo social criativo. Durante os últimos meses eu conheci exemplos incríveis na Costa Rica, África do Sul, Brasil, China, Europa e Estados Unidos.

Vivendo na hora moldável da História

Ao longo do século 20 vimos ambos os campos sociais surgirem: absencing e presencing. O campo de absencing apareceu pela primeira vez durante a I Guerra Mundial, finalizando um período de florescimento de movimentos sociais globais tranquilos. Então o absencing voltou ainda mais violentamente com a ascensão do fascismo na década de 1930, incorporada principalmente por Hitler na Alemanha e levando à Segunda Guerra Mundial.

Mas então, no último terço do século 20, vimos uma lógica diferente da mudança social tomar forma, resultando em milhões de ONG locais e organizações da sociedade civil que geram impacto ambiental, social ou cultural positivo em suas comunidades.

Hoje sentimos como se nós — todos nós que estamos vivos agora — estamos vivendo em um tempo maleável da história, o que significa que pequenas atitudes hoje pode ter grandes impactos amanhã. Ambas as forças que moldaram o século passado — presencing e absencing — estão neste momento com sua presença global intensificada.

A história emerge da interação entre estes dois campos. É um processo que se desenrola em cada país, cultura e comunidade. É um confronto de forças que nós vemos não apenas no nível dos sistemas externos, mas também no nível do eu. A mudança do sistema é pessoal; como meu colega Peter Senge diz, é um "trabalho interno".

Se você se sente movido para fazer a diferença ajudando a mudar o campo social global do absencing para o presencing, junte-se a nós através do U.Lab, uma plataforma mundial on-line e off-line para prototipar a mudança ego-to-eco no mundo dos negócios, governo e educação. O u.lab atraiu 75.000 participantes em seu primeiro ano (2015), que é uma amostra inspiradora de quantas pessoas hoje estão apenas esperando pela oportunidade de redirecionar sua atenção, saindo do padrão de reação contra o campo de absencing (o ciclo de destruição), passando para a ação a favor do campo de presencing (o ciclo de co-criação).

Um curso introdutório (90 minutos, em ritmo individual) começa no dia 15 de agosto, seguido por uma versão facilitada globalmente, que irá reunir dezenas de milhares de agentes de mudança em todo o mundo,
começando no dia 08 de setembro de 2016.

Nós estamos vivendo em um momento moldável, e agora é a nossa vez de nos conectar intencionalmente a serviço de um futuro que traz mais conectividade e bem-estar para todos.


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