Dois anos sem Eduardo Galeano: "RECORDAR: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração..."

  • 13 de Abril de 2017

Em tempos de intolerância e injustiças recordar e voltar a ler Galeano é sempre um sopro de esperança.

*Por Vitor Taveira

 

“Somos um mar de foguinhos”, escreveu Eduardo Galeano, reproduzindo a sabedoria que escutara de um indígena colombiano. Dizia que cada fogo é diferente, mas todos brilham com luz própria. Alguns ardem, outros são serenos, outros não iluminam nem queimam. O escritor uruguaio, falecido em 13 de abril de 2015, foi um daqueles que “ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia”.

Sua obra mais conhecida, As Veias Abertas da América Latina, é uma referência para pensar a história política do continente, que ele publicou com apenas 30 anos de idade. "Eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera”, disse sobre sua grande obra em visita ao Brasil, mais de quarenta anos depois de seu lançamento.

De infância cristã e juventude marxista, Galeano brilha justamente quando se afasta um pouco da ortodoxia destas vertentes, embora carregando clara herança de ambas, com um olhar solidário aos oprimidos e uma profunda crítica às injustiças da história e da contemporaneidade. Versátil, transita facilmente por vários gêneros, do jornalismo à ficção, análise política, história, e principalmente, seus contos, pequenos em tamanho e gigantes na profundidade e mensagem.

Constrói uma linguagem simples, gostosa de ler, mostrando a dignidade dos “ninguéns”, dos esquecidos, dos invisibilizados, além de expor ao ridículo o sistema capitalista, o imperialismo, o colonialismo, desnudando sua trama cruel que é maquiada pela mídia e pela propaganda.

Como bem escreveu o intelectual argentino Atílio Boron, Galeano foi “um pensador ao mesmo tempo original e profundo”. A linguagem acessível o distancia do preciosismo e academicismo de muitos intelectuais e escritores que dialogam entre seus círculos e acabam “excluindo os excluídos”, de quem falam e a quem deveriam chegar.

“Os cientistas dizem que estamos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que estamos feitos de histórias”. E como poucos, ele contou histórias, especialmente dos que vêm de baixo e que não costumam ter suas vozes escutadas.

No mundo de Galeano, o dinheiro não poderia jamais valer mais que o ser humano e a natureza. No mundo cão em que seguimos vivendo, parece que ficamos mais pobres com sua partida. Mas lembrando de seu otimismo incansável, diria que a verdade é que ficamos mais ricos com sua existência, com seu “sentipensamento”, que continua vivo em suas obras, para quando quisermos lembrar que podemos e devemos abraçar o mundo.

Como disse o próprio em sua sempre profunda síntese: "RECORDAR: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração...".

Hoje, mais uma vez, te recordamos com carinho:

Companheiro Eduardo Galeano PRESENTE!

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Algumas obras de Eduardo Galeano:

- O Livro dos Abraços: Como indica o nome, é uma leitura para sentir-se abraçado várias vezes. São histórias curtas, mas com grande sensibilidade.

- Filhos dos Dias: Um bom livro para doses homeopáticas de Galeano. São 365 pequenos contos, um para cada dia do ano, associados a fatos ocorridos nas datas.

- As Veias Abertas da América Latina: Denso e intenso, o livro narra a exploração do povo latino-americano ao longo da história e mostra as cicatrizes vigentes desse processo.

-Futebol ao Sol e à Sombra: Apaixonado por futebol desde criança, o escritor conta histórias desse esporte, sem deixar de lado sua posição crítica contra sua mercantilização.

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*Vitor Taveira é jornalista, mestre em Estudos Latino-Americanos e integrante do programa de rádio Soy Loco Por Ti

 


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