Ubuntu - A chave para a transformação do sistema

  • 12 de Maio de 2016

Por Larissa Carneiro*

Ódio. Polarização. Conflito. Competição. Individualismo. Escassez. Medo. Palavras que definem nossa sociedade nos dias atuais. Reação aos tempos de crise, gerada pela insegurança política e econômica que estamos vivendo. Insegurança que ativa o medo do desconhecido que está por vir, medo que ativa a raiva de quem pensa diferente de mim. Raiva que alimenta o conflito, a competição, a polarização, ódio. E nesse ciclo, vamos nos fechando cada vez mais no nosso individualismo.

Mas surgem por todo lugar pessoas quebrando com esse ciclo. Gente que percebe que, para alcançar as mudanças que queremos, temos que transmutar o medo e a raiva e perceber a realidade de outra forma, de outro lugar. Que temos que expandir nosso foco, da cabeça para o coração, fazendo a transição de uma consciência egoísta, que só se importa com o próprio bem-estar, para uma consciência ecossistêmica, que leva em consideração o bem-estar de todos, inclusive o próprio bem estar. Essa é a condição natural do ser humano, de conexão consigo, com os outros, com a totalidade. "Eu sou porque nós somos". Ubuntu.

Ao estabelecermos conexão real com o outro, reconhecemos sua humanidade, sua essência. Ao estabelecermos conexão real com o outro, os julgamentos caem por terra, e as diferenças deixam de ser barreiras, se tornando riqueza, pluralidade de ideias e pontos de visa que, ao invés de se anularem, se somam, para co-criarem novas soluções para os velhos problemas. A conexão real entre pessoas as empodera como indivíduos e como coletivo, como comunidade, pois o sentimento de pertencimento é altamente empoderador. O poder da comunidade é a fonte de sustentação de ações realmente transformadoras. É neste ponto que se encontra o potencial da filosofia Ubuntu na política.

Quando a filosofia encontra a prática

Há um abismo entre a estrutura da realidade social (realidade ecossistêmica) e a estrutura do pensamento econômico (conscientização egossistêmica), que dirige a grande maioria das decisões políticas. Criamos assim, coletivamente, resultados que não interessam à maioria. Fechar essa lacuna é o maior desafio dos líderes da atualidade. Esse tema é alvo dos estudos de Otto Scharmer e Peter Senge, do MIT, que se debruçaram por 18 anos na pesquisa sobre a forma de operar de grandes líderes da atualidade. Eles descobriram um ponto cego. Ao pensarmos em empreender uma ação transformadora, focamos no processo e nos resultados, mas há um fator anterior fundamental para o sucesso da ação: a condição interior do interventor. Em outras palavras, o sucesso das nossas ações como agentes de mudança não depende tanto do que fazemos ou como fazemos, mas principalmente do lugar interior a partir do qual operamos. Eles desenvolveram então a Teoria U.

De acordo com Scharmer, "os tomadores de decisão de todas as instituições de um sistema devem dar início a uma jornada em conjunto, partindo de uma visão estreita, que inclui apenas o próprio ponto de vista (a conscientização centrada no ego), até chegar a vivência do sistema na perspectiva dos outros players, especialmente os mais marginalizados. A meta deve ser cossentir, coinspirar e cocriar o futuro que emerge para o sistema, que promova o bem-estar de todos e não apenas de alguns poucos." A jornada U, como é chamada, se trata de um caminho que os líderes do sistema, ou da comunidade, devem trilhar juntos, que os levará a abrir a mente, coração e braços para, em conexão consigo, com o grupo e com o todo, cocriarem uma nova realidade, agindo desse lugar de conexão. Ação coletiva com Ubuntu!

Quando enfrentamos momentos desruptivos como o que estamos passando atualmente, temos dois caminhos possíveis: se fechar (caminho de regressão através do preconceito, reclamação e medo) ou se abrir (caminho de evolução pela curiosidade, compaixão e coragem). Qual é a capacidade que nos permite perceber nosso padrão de reação e então escolher ter outra atitude? Essa capacidade interna é chamada de consciência, ou autoconhecimento. Esse é o mais importante ponto para alavancar as mudanças transformadoras que almejamos.

É a qualidade da nossa consciência que co-cria o que acontece ao nosso redor. O que vai emergir depende da forma como prestamos atenção, da qualidade da nossa presença. E como cultivar esse estado de presença, de conexão, de Ubuntu? Para isso, é necessário uma jornada. Uma jornada onde se experimenta uma situação sem a habitual armadura de julgamentos, com mente, coração e braços abertos. Uma viagem para praticar a escuta profunda dos outros, do todo, e do que está emergindo do seu EU. São essas práticas de escuta profunda e silêncio interno que normalmente têm o maior impacto transformador, ao mudar completamente a qualidade da nossa atenção.

Essa conscientização é passo fundamental para encontrarmos nosso poder como cidadãos. Para deixarmos de nos enxergar como vítimas da realidade, do sistema, e nos reconhecer como protagonistas da nossa história, como co-criadores da realidade em que vivemos. Somos agentes transformadores de nossa realidade e de nosso entorno. Cada uma de nossas ações importam, cada ato nosso faz diferença para o todo. O empoderamento é a base da cidadania. E a conexão é fonte de empoderamento. Um empoderamento sólido, em que a força para alcançar um propósito é potencializada pela força da união com a totalidade. É poder com amor. Poder com Ubuntu.


* Larissa Carneiro é mãe, dançarina, bióloga, analista ambiental, interessada em tudo que nos leva para a conexão e presença, para uma vida com menos TER e mais SER, com menos EU e mais NÓS!


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