Teko Porã: a ancestralidade do Bem Viver e os Direitos Humanos na atualidade

  • 25 de Maio de 2016

Por Juliana Novaes*

“E ocorre que as antigas culturas índias são as mais futuras de todas. Afinal, elas foram capazes, milagrosamente capazes, de perpetuar a identidade do homem com a natureza...” (Eduardo Galeano, Nós dizemos não)

Caminhando há milhares de anos com outra percepção de tempo e visão de mundo que transcende a história dominante, a perspectiva do modo de vida em comunidade, essência de conduta humana e saberes ancestrais dos povos originários se tornam possibilidades para reflexões e retomadas de consciência diante da crise estrutural das sociedades ocidentais, modos de produção, do conceito equivocado de civilização e sua insustentabilidade, relações de poder, degradação dos recursos naturais e desigualdades.

O colonialismo em suas diferentes formas de dominação por quinhentos anos tentou silenciar vozes, resistências e culturas milenares de povos tradicionais na América Latina, impondo credos, conhecimentos, saberes e organizações sociais com padrões eurocêntricos legitimando espoliações, monoculturas, acúmulos de capital e propriedades privadas que destoavam do modo de vida comunitário de produção e de vida dos povos originários em uma terra livre que se tornou colônia.

Contrapondo colonialismos e monoculturas presentes ainda hoje, os povos tradicionais em contexto, os latinoamericanos, caminhando ao lado do tempo e da paciência em suas lutas na busca pelo Bem viver, Teko Porã em guarani, nos ensinam que deve existir um equilíbrio entre os seres e a Terra, pois estamos todos conectados, os seres possuem sentidos e consciência. Somos filhos da Mãe Terra, Pachamama, mãe que nos acolhe que devemos protegê-la.

Enquanto houver separação entre o ser humano e a natureza na concepção do individualismo, o que é considerado um padrão de vida capitalista como o “viver melhor” no sentido de acúmulo de bens, não haverá possibilidade de transformação para o bem viver numa sociedade como um todo. O individualismo na sociedade capitalista sustenta relações de poder e desigualdades sociais, além da ausência de pertencimento e conexão com a terra, tornando seus recursos meios para obter lucros, findando e degradando esses recursos, desconsiderando a interdependência entre os seres. Numa sociedade em que o bem viver se faz presente, não há relações desiguais de poder, somos parte da natureza, todos devem cuidar pelo bem comum, pela terra e pela comunidade.

No contexto dos direitos humanos, sua história se faz presente diante das demandas sociais na modernidade. Embora as questões sobre o ser humano e seus direitos sejam encontradas desde a antiguidade em outras sociedades, a luta por esses direitos em momentos conflituosos, ocorre a partir da busca pela dignidade humana por parte de grupos oprimidos em situações de violência e desigualdades originárias de estruturas sociais ocidentais e modos de produção. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi uma urgência e uma resposta por parte da humanidade com relação às atrocidades ocorridas na Segunda Guerra.

Os direitos humanos buscam princípios éticos para se viver em sociedade, o direito natural, considerados inerentes à dignidade da natureza humana existentes antes de qualquer lei e para serem assegurados não se tornam necessário especificações. Na modernidade, os direitos humanos são pertinentes e enfrentam desafios diante da asseguração dos direitos fundamentais para grupos estigmatizados enquanto minorias (mulheres, negros, populações tradicionais, povos não ocidentais, pessoas com deficiência, LGBT’s entre outros grupos), populações que fogem do padrão heteronormativo, branco e colonizador que ainda persiste na sociedade.

Dialogando com os direitos humanos, que foram uma urgência diante das demandas de princípios éticos e direitos fundamentais, o bem viver dos povos originários é outra forma possível de sociedade a partir de princípios éticos pautados na visão de mundo dos povos da América, fazendo parte do que somos e de como podemos viver em aprendizado com a natureza. Forma de vida esta que antecede demandas da modernidade, modo de vida ancestral que tem por objetivo um bem comum, um bem viver em comunidade.

Diante disso, é preciso compreender o equívoco do sentido de civilização tendo em vista que nos processos de colonização este sentido foi legitimado apenas para o padrão eurocêntrico de organização social, excluindo, marginalizando e deslegitimando sociedades tradicionais milenares com organizações, princípios éticos, econômicos, culturais, científicos e sociais específicos e desenvolvidos, civilizações ancestrais e tradicionais silenciadas na história considerada oficial.

As lutas dos povos originários pela terra podem ser consideradas além de uma reparação e dívida histórica como também asseguração pelo direito fundamental para suas vidas em plenitude. Retornar às terras que injustamente foram invadidas é se reconectar com o seu legítimo porã e com tudo que há na terra, nessa perspectiva, é reforçar também todos os seus ciclos de vida e tradições. Não é apenas terra e exploração de seus recursos como na visão capitalista, somos parte da terra na visão dos povos tradicionais.

Em nossa sociedade, as monoculturas da mente nos ensinaram que outros mundos possíveis são utopias num sentindo de algo inatingível, impossível de se realizar. Utopias na verdade, são sementes que germinam em nossas caminhadas, em nossas lutas, resistências. Para caminharmos em direção ao bem viver é preciso primeiro transcender colonialismos, amarras e monoculturas ainda presentes em nossas vidas, na sociedade em todas as suas contradições que estamos inseridos. Outro mundo é possível, sejamos como a flor que nasce em meio ao concreto, sejamos a resistência, o amor, a empatia. Não somos colônia, somos filhos da Mãe Terra, respiramos luta.


* Juliana Novaes é licenciada em Pedagogia e estudante do Curso de especialização em Educação em Direitos Humanos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Integrante do coletivo feminista interseccional Viva las Fridas


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