TEKO PORÃ

  • 05 de Agosto de 2015

BEM VIVER, conceito político, econômico e social que tem por referência a visão dos povos originários da América: Sumak Kawsai em quéchua; Suma Qamaña em aymara; Tekó Porã, em guarani. É uma filosofia que também está na nossa alma original e significa viver em aprendizado e convivência com a natureza. Somos “parte” da natureza e, para nossa própria sobrevivência como espécie, há que romper de uma vez por todas com a ideia de que podemos continuar vivendo “à parte” da natureza. A terra que nos acolhe tem que ser protegida, conforme nos ensinam os povos tradicionais, pois o mundo é povoado de muitas espécies de seres, também dotados de consciência, em que cada espécie vê a si mesma e às outras espécies a partir de sua perspectiva. Esta sabedoria, reconhecida nos povos do Xingu e presente em todas as culturas ameríndias, nos leva a compreender que a relação entre todos os seres do planeta tem que ser encarada como uma relação social, entre sujeitos, em que cultura e natureza se fundem em humanidade.

O TEKO PORÃ se afirma no equilíbrio com o Planeta e no conhecimento ancestral dos povos originários. Conhecimento nascido da profunda conexão e interdependência com a natureza. A vida em pequena escala, sustentável e equilibrada, é necessária para garantir uma vida digna para todos e a sobrevivência do planeta. O fundamento são as relações de produção autônomas e autossuficientes. Ele também se expressa na articulação política da vida, através de práticas como assembleias locais, espaços comuns de socialização, parques, jardins e hortas urbanas, cooperativas de produção e consumo, e das diversas formas do viver coletivo e harmonioso. Também guarda correspondência ao histórico desejo de emancipação e unidade dos povos latino mericanos, expressas na utopia da Pátria Grande (Abya-Yala).

Somente podemos entender TEKO PORÃ em oposição ao “viver melhor” ocidental, que explora o máximo dos recursos disponíveis até exaurir as fontes básicas da vida. Assumir esta cosmovisão é se contrapor à iniquidade própria do capitalismo, onde poucos vivem bem em detrimento da grande maioria. O planeta não pode mais seguir em desequilíbrio. O produtivismo e consumismo, desenfreados e fúteis, somente se mantêm devido à exploração predatória dos recursos naturais e só servem à ganância de poucos. Este modelo não é sustentável e, inevitavelmente, levará a humanidade ao colapso civilizatório.

Por isso afirmamos um modelo de vida mais justa, ambientalmente sustentável, economicamente solidário, que deve ser buscado simultaneamente pelo Estado e pela sociedade. Queremos uma vida digna, em plenitude, cheia de sentidos, em que o SER seja mais importante que o TER. Em que ESTAR no Planeta seja muito mais que um contínuo sugar da vida alheia. Há que assegurar os direitos da Mãe Terra (Pachamama, Tekobá) em nossa Constituição, como outros países já fizeram, garantindo a todos os viventes a satisfação de suas necessidades básicas, com qualidade de vida, o direito de amar e ser amado, o florescimento saudável de todos e em harmonia com a natureza, o prolongamento indefinido das culturas, o tempo livre para a contemplação, a ampliação das liberdades, capacidade e potencialidades de todos e de cada um. 

Sonhamos com mais equidade. Em vez de defender o crescimento contínuo e a qualquer custo, buscamos alcançar uma sociedade mais equilibrada; em vez de focar quase exclusivamente em dados relativos ao PIB ou outros frios indicadores econômicos, nos guiamos para alcançar e assegurar o mínimo vital, o suficiente para que todas as pessoas possam levar uma vida digna e feliz. Queremos medir o bem estar de nosso povo muito mais pela FELICIDADE INTERNA BRUTA que pelo Produto Interno Bruto, afinal, conforme o Manifesto Antropofágico do Modernismo brasileiro: “a alegria é a prova dos nove!”.

Enquanto o capitalismo transforma tudo em coisa, até nossos corpos e desejos mais profundos, romper com esta lógica, com seu individualismo inerente, egoísmo e imediatismo, romper com a monetização da vida em todos os seus campos e com a sua desumanização é, para nós, o ato mais revolucionário.

Artigos interessantes para aprofundar a leitura:

Palavras Ditas e Escutadas. Bartolomeu Meliá

El buen vivir se aprende

Sumak kawsay


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