Sociocracia: como tomar boas decisões coletivas?

  • 27 de Março de 2017

Uma ferramenta contemporânea, a sociocracia vem sendo utilizada em diversos processos de autogestão em organizações sociais, comunidades e redes. Busca construir processos realmente participativos, com decisões eficientes e baseadas no consentimento. 

Recentemente foi lançado um manual em espanhol elaborado pela brasileira Henny Freitas, que é jornalista, fotógrafa, permacultora e educadora ambiental. O livro é resultado de uma parceria do projeto Mucho Con Poco e da ADS - Asuntos del Sur. Para acessar o manual clique aqui. "No momento estou buscando instituições parceiras que compartilham essa mesma visão para publicar o Manual da Sociocracia em português", diz Henny.

Confira a íntegra da entrevista concedida por Henny à revista CIDADANISTA.

Mestra em Empreendedorismo, ela é coordenadora no Brasil do Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina (CASA), articuladora da Rede Novos Parques e co-fundadora do Earth Code Project.

CIDADANISTA - Oi Henny, poderia nos explicar de forma resumida o que é a Sociocracia e quais os seus princípios?

HENNY FREITAS - Sociocracia é uma ferramenta de governança da engenharia social contemporânea. É peça fundamental da engrenagem para a autogestão de organizações sociais, comunidades intencionais, redes e instituições afins. Se encontra em ambientes onde as iniciativas desejam manter-se vivas e saudáveis, salvaguardando com elas três pontos essenciais: a transparência, a equidade e a eficácia das suas decisões, ações e intenções. Se aplica nos espaços que anseiam por aumentar a capacidade de alcançar acordos e resultados ágeis, eficientes, resistentes, participativos e abertos através de mecanismos como: o consentimento, a equivalência, a responsabilidade, o empirismo e a busca por um melhoramento constante.

- Vivemos uma crise muito grande de representação atualmente em muitos dos espaços de organização coletiva: empresas, política institucional, sindicatos, entidades estudantis, etc. Que respostas a proposta da Sociocracia pode dar a essa situação?

Distintas formas de governança foram propostas por pensadores ao longo do tempo, cada qual com seus acordos, regras, intenções e as mais variadas tipologias. E cada vez mais novas formas de governo emergem com princípios e perspectivas ideológicas peculiares. Mas a forma de lutar pelo poder e os modos de se chegar até ele assim como a maneira que o poder é conduzido, desenvolvido e apresentado aos demais não varia tanto assim. A Sociocracia vê as instituições políticas como organismos vivos e tal qual seus governantes também nascem, amadurecem e se transformam. Trata-se, portanto, de uma governança dinâmica que vai se adaptando e se moldando de acordo à sua utilização, permitindo que tanto um grupo de pessoas como instituições maiores e até mesmo multinacionais e organizações governamentais se auto-organizem e se auto-regulem em base à inteligência coletiva para tomar decisões e serem retroalimentadas a partir da coparticipação e corresponsabilidade dos seus membros.

- Algumas propostas chamam a atenção como organização circular, eleições sem candidato, tomada de decisões por consentimento. Poderia explicar a razão e vantagens de adotar esses métodos?

Organizações circulares são mais antigas do que parecem. Comunidades tradicionais, a exemplo de algumas etnias indígenas, ainda se reunem e tomam decisões sentadas em círculos. Para elas não existe hierarquia. Já para nós, ocidentais, essa é uma forma de inclusão social no que se refere à distribuição equitativa do poder, à transparência na forma com que as decisões são tomadas e à consequente eficácia dessas decisões. Decisões por consentimento, por sua vez, são aquelas onde já não existem mais objeções. Elas não precisam ser perfeitas, basta que sejam boas o suficiente para o momento e seguras o suficiente para serem implementadas. A vantagem dessa metodologia é que todo o processo se faz conjunta e colaborativamente e todos e todas têm voz ativa.

Antes de escolher uma pessoa à outra, as eleições sociocráticas propõem esclarecer a necessidade e a motivação por trás da criação do perfil ideal para assumir uma determinada função (ou cumprir um determinado papel) dentro de um determinado círculo, seja ele esporádico ou permanente. Isso se dá através de um processo facilitado em que os membros do círculo decidem sobre o perfil ideal a quem atribuir esse papel e não diretamente sobre a escolha desta ou daquela pessoa. Portanto, compreender a necessidade e a motivação geradas para se criar uma determinada função ajuda os membros a tomar uma melhor decisão de maneira aberta no círculo através do consentimento, sem que seja pela decisão da maioria e sem lista pré-estabelecida de candidatos. Além disso, a eleição está limitada no tempo e deve ser constantemente revista e avaliada.

- Teria exemplos de usos práticos de uso da Sociocracia? Que entidades, organizações ou coletivos que conhece que se articulam por meio dela e tenham experiências legais?

A Sociocracia é bastante praticada e difundida na Holanda, local onde primeiro foi trazida para o contexto da organização empresarial. Para se ter uma noção, lá esse método foi capaz de influenciar uma lei onde Organizações Sociocráticas passam a não ser obrigadas a ter um Conselho de Trabalhadores, o equivalente aos Sindicatos brasileiros. No momento, estou como líder operacional (ou coordenadora) do CASA Brasil - Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina, regional Brasil. Assim como nós, toda a rede latino-americana se articula através de círculos e trabalha com aspectos da Sociocracia. Essa é a forma que encontramos para articular, fortalecer, criar e dar visibilidade às ações de redes nacionais e regionais latino-americanas com exemplos vivos que inspiram, promovem, investigam e difundem estilos de vida intencionalmente sustentáveis e regenerativos que resgatam e regeneram sistemas ecológicos, econômicos e sociais, considerados vitais para garantir a sobrevivência humana na Terra.

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Foto: Wilson Lopes


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Comentários

José Ruiz

27 de Março de 2017

a ideia de sociocracia apresentada no texto vai de encontro com uma proposta que venho "divulgando" há tempos, que chamo de "parlamentarismo online", ou "orçamento participativo online".. a principal resistência ao projeto, entretanto, vem das pessoas supostamente democráticas em nossa sociedade atual, inclusive a galera da esquerda: eles não querem perder o "protagonismo político".. e é isso que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.. a sociocracia, que eu chamei de parlamentarismo online, quebra a hegemonia dos políticos.. a minha proposta não é igual a democracia direta, que eu acho que não funciona, mas um compartilhamento do poder político.. o parlamentarismo online é com uma assembleia com acesso público full-time.. .. os políticos-celebridade se arrepiam só de pensar no modelo.. .. mas é uma tendência inexorável.. .. no futuro as pessoas vão discutir e decidir em grupo e usar a internet para facilitar o trabalho.. .. a gente só não começou a fazer isso ainda porque somos uns tontos..

José Ruiz

27 de Março de 2017

a ideia de sociocracia apresentada no texto vai de encontro com uma proposta que venho "divulgando" há tempos, que chamo de "parlamentarismo online", ou "orçamento participativo online".. a principal resistência ao projeto, entretanto, vem das pessoas supostamente democráticas em nossa sociedade atual, inclusive a galera da esquerda: eles não querem perder o "protagonismo político".. e é isso que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.. a sociocracia, que eu chamei de parlamentarismo online, quebra a hegemonia dos políticos.. a minha proposta não é igual a democracia direta, que eu acho que não funciona, mas um compartilhamento do poder político.. o parlamentarismo online é com uma assembleia com acesso público full-time.. .. os políticos-celebridade se arrepiam só de pensar no modelo.. .. mas é uma tendência inexorável.. .. no futuro as pessoas vão discutir e decidir em grupo e usar a internet para facilitar o trabalho.. .. a gente só não começou a fazer isso ainda porque somos uns tontos..

José Ruiz

27 de Março de 2017

a ideia de sociocracia apresentada no texto vai de encontro com uma proposta que venho "divulgando" há tempos, que chamo de "parlamentarismo online", ou "orçamento participativo online".. a principal resistência ao projeto, entretanto, vem das pessoas supostamente democráticas em nossa sociedade atual, inclusive a galera da esquerda: eles não querem perder o "protagonismo político".. e é isso que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.. a sociocracia, que eu chamei de parlamentarismo online, quebra a hegemonia dos políticos.. a minha proposta não é igual a democracia direta, que eu acho que não funciona, mas um compartilhamento do poder político.. o parlamentarismo online é com uma assembleia com acesso público full-time.. .. os políticos-celebridade se arrepiam só de pensar no modelo.. .. mas é uma tendência inexorável.. .. no futuro as pessoas vão discutir e decidir em grupo e usar a internet para facilitar o trabalho.. .. a gente só não começou a fazer isso ainda porque somos uns tontos..

José Ruiz

27 de Março de 2017

a ideia de sociocracia apresentada no texto vai de encontro com uma proposta que venho "divulgando" há tempos, que chamo de "parlamentarismo online", ou "orçamento participativo online".. a principal resistência ao projeto, entretanto, vem das pessoas supostamente democráticas em nossa sociedade atual, inclusive a galera da esquerda: eles não querem perder o "protagonismo político".. e é isso que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.. a sociocracia, que eu chamei de parlamentarismo online, quebra a hegemonia dos políticos.. a minha proposta não é igual a democracia direta, que eu acho que não funciona, mas um compartilhamento do poder político.. o parlamentarismo online é com uma assembleia com acesso público full-time.. .. os políticos-celebridade se arrepiam só de pensar no modelo.. .. mas é uma tendência inexorável.. .. no futuro as pessoas vão discutir e decidir em grupo e usar a internet para facilitar o trabalho.. .. a gente só não começou a fazer isso ainda porque somos uns tontos..

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