Semana decisiva para além do Impeachment

  • 16 de Abril de 2016

Por Gilberto Miranda Junior*

Essa semana, em terras tupiniquins, viveremos algo histórico, talvez um divisor de águas que mereça a máxima atenção de todos; tanto daqueles já embrenhados no próprio movimento das coisas e que, envolvidos, apenas se deixam levar pelo lugar comum de suas convicções prévias, quanto daqueles que conseguem promover um afastamento racional e tentam entender melhor o que move esses fluxos entrecortados, convergentes e divergentes que fazem da realidade do país algo situado entre o surreal e um amálgama de interesses ideológicos privados e públicos em disputa.

Para os primeiros, já estão programados eventos espetaculares pró ou contra governo por ocasião da votação do impeachment da presidente Dilma, curiosamente marcado para o domingo dia 17/4 e com transmissão ao vivo pela TV aberta em uma estratégia intencional de espetacularização promovida pelo presidente da Câmara dos Deputados: sim, esse mesmo acusado de corrupção em várias delações e com provas cabais contra ele, Eduardo Cunha. Para muitos, trata-se apenas de um jogo de cartas marcadas para se abafar as investigações em curso na Lava-Jato e continuar o trabalho político que o judiciário se prestou ao se investigar apenas um dos partidos envolvidos nos escândalos. O áudio vazado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, nos mostra que ele já se coloca certo no futuro ocupando o cargo que está ajudando a destituir. Para esses, o resultado da votação contará como uma vitória, com direito a pilhéria e chacota dos derrotados, o que poderá antes, durante e depois das votações causar conflitos e confrontos físicos, o que é preocupante ao extremo para a democracia do país.

Para o restante de nós, aqueles que tentam preservar um distanciamento racional dos fatos e tentam mapear os contextos e as hermenêuticas envolvidas, mesmo de maneira amadora ou mesmo participando das manifestações, algo de muito sério está acontecendo que ultrapassa vitórias, derrotas, partidarismos e preferências. Para nós, a disputa envolve visões de mundo. Não está em jogo apenas o impeachment de um mau governo, que fez escolhas ruins e/ou que se entregou ao jogo sujo e histórico da política brasileira quando antes denunciava e prometia fazer diferente no poder. Estão em jogo muito mais todas as coisas que o atual governo deixou de fazer do que as coisas que ele fez, e, muito mais ainda, a possibilidade de ser levada a cabo uma mudança de eixo que desloque as prioridades atuais da sociedade da manutenção dos privilégios históricos para a inclusão de mais e mais pessoas dentro de um sistema a ser superado não só economicamente como política e ideologicamente.

O Brasil, apesar de todo retrocesso que tem experimentado por conta da guerra que se travou contra as ideias progressistas e de bem estar social que foram temporariamente capitaneadas pelo PT, pode dar continuidade a elas apesar do próprio PT e avançá-las em direção a questões até agora relegadas, como meio ambiente, educação básica, minorias étnicas, sustentabilidade etc. Mas não irá conseguir isso se permitir que o fosso entre aqueles que querem comandar o país a partir de seus interesses privados e aqueles que são compulsoriamente excluídos do sistema aumente como a mentalidade média da população tem dado sinais de abraçar. A classe média aterrorizada pela propaganda maciça anos a fio, seja da imprensa corporativa tradicional (concentrada em não mais do que seis famílias abastadas), seja pela infinidade de blogs e sites anônimos de oposição ou pelo aporte financeiro de interesse econômico externo (veja documentário dos irmãos Koch e a investigação do jornalista Michael Fox), acredita realmente nas malignas intenções do Foro de São Paulo, no golpe comunista em curso e em um plano maligno de implantarem uma ‘ditadura comunista’ no Brasil em um futuro próximo através do que se acostumou chamar, caricaturalmente, de marxismo cultural, apesar de o atual governo estar 12 anos no poder e nunca bancos e grandes empresários terem lucrado tanto. O terror promovido é tanto que não só arregimenta aqueles que já rejeitavam o pensamento à esquerda antes mesmo do PT subir ao poder, mas também novos atores sociais numa paranoia esquizofrênica sem limites, protagonizando discursos difusos de neutralidade político-ideológica e notadamente protofascistas na medida em que há uma negação sistemática do outro e daqueles que eles não se identificam.

Historicamente o fascismo nasce exatamente do medo das camadas médias da população de que as promessas burguesas não se concretizem e, assim, recrudesce contra todo pensamento que acreditam contribuir para sua revogação ou atraso. Não se dão conta, porém, que essa promessa não foi feita para se concretizar, mas apenas para manter o cativeiro atraente para que as elites continuem ad eternum a lucrar com os movimentos circulares e artificiais que o sistema cria e dos quais se alimenta. Por outro lado, o mundo dá plenos sinais do esgotamento dessa renovação periódica do capitalismo e se avizinha, sem precedentes, a um colapso do sistema. O raciocínio é simples: se o sistema depende do consumo e quem consome é quem trabalha, a redução sistemática de salários e de empregos na busca constante da eficiência em produzir mais com cada vez menos, faz o sistema se auto-sabotar. Nunca haverá emprego para todos e os que ainda têm empregabilidade estão cada vez mais precarizados. Nunca nossa capacidade de consumo fará com que a produção seja desovada na expectativa de aferição de lucro do produtor, portanto o Estado precisa sempre antecipar o consumo a partir da expansão de crédito. Criam-se bolhas e elas estouram. Não estão apenas estourando de formas cada vez mais frequentes, mas cada vez mais fortes e mais profundas, minando cada vez mais sua capacidade de se formar novamente.

O cenário do sistema em nível mundial é calamitoso e o Brasil poderia estar, desde já, construindo condições de se inserir no cenário mundial trazendo alternativas que se distanciam dessa lógica concentradora de renda, excludente, predatória e auto-sabotadora, não fosse o terror promovido por quem ainda pensa ter o que perder. No entanto, para além daqueles que são convencidos terem o que perder nesse cenário mundial de colapso do sistema, há grupos muito poderosos articulando muito bem e com eficiência visível a atribuição de culpa da situação atual à esquerda mundial como um todo e não à própria lógica do sistema como nos mostra todos os estudos a respeito. Uma indústria de desinformação sistemática que vincula direitos humanos, respeito às minorias, equidade racial, ecumenismo, amparo social, feminismo, reforma agrária, direitos homoafetivos, pensamento libertário e as funções do Estado de Bem Estar Social numa panaceia sórdida de um plano maligno para submeter os “humanos verdadeiros” (leia-se: trabalhadores que pensam pagar sozinhos os impostos e sustentam um Estado gigante e ineficiente - classe média) a uma escravidão compulsória para financiar a vida de quem não merece, não quer trabalhar, é incompetente ou corrupto. Eis a gênese do protofascismo, das patrulhas ideológicas e milícias informais que já presenciamos nas ruas e nas instituições de nossa república.

Para a maioria das pessoas, infelizmente, é muito mais fácil acreditar que o mal que os assola é externo ao seu estilo de vida do que admitir e assumir que seu estilo de vida causa esse mal. Uma educação que, quando boa, privilegia a formação de tecnocratas ideológicos e não de seres pensantes, funciona como a ‘cereja no bolo’ desse cenário dantesco.

Pois bem, caro leitor, essa semana é decisiva, não só como definidora dos rumos de um governo que deixou, inclusive, de representar o pensamento que o alçou ao poder, mas de uma mudança de eixo definitivo no Brasil. A luta é mais ampla e abrangente do que ir contra o impeachment. Trata-se de uma luta cosmovisionária.

________________

*Gilberto Miranda Junior é licenciado em filosofia pelo Centro Universitário Claretiano, estudou ciências econômicas na Universidade Guarulhos (UnG) e é membro pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia (CEFIL), ligado à Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Participa do Grupo de Trabalho de Polinização da RAiZ Movimento Cidadanista.


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