A Revolução dos 10%

  • 27 de Setembro de 2016

Por Bruna de Oliveira*

Tivemos uma grande perda no mês de Setembro. Bill Mollison, o pai da permacultura, nos deixou, contudo, seu legado permanece e cresce através do movimento de permacultura ao redor do mundo. Apesar da sua morte, lembrar desse senhor é refletir sobre a vida, já que ele ao longo da sua história, trabalhou para defender toda a expressão de vida no planeta. Meu desejo, é que este texto seja uma prosa amigável, uma partilha que fortaleça, encoraje e impulsione cada pessoa a conhecer e/ou seguir esperançando e construindo um mundo mais vivo, mais verde, mais solidário para esta e as próximas gerações.

Para quem nunca ouviu falar em permacultura, segue uma breve “colinha”: trata-se de uma palavra cunhada pelo homenageado deste texto, que se refere a um sistema de design (projeto, planejamento e execução) para a criação de ambientes humanos sustentáveis. Um conceito que iniciou com a prerrogativa de uma associação benéfica entre animais e vegetais para autossuficiência doméstica e comunitária dos humanos que com o tempo ampliou-se para uma proposição mais holística da cultura permanente da humanidade na terra. É uma proposta sistêmica de convivência, nas palavras de Bill no prefácio do livro “Introdução à Permacultura: “Autossuficiência alimentar não tem sentido sem que as pessoas tenham acesso à terra, informação e recursos financeiros”.

A permacultura possui uma ética explicitada em três grandes áreas: cuidado com o planeta; cuidado com as pessoas e cuidado com a partilha do excedente, seja ele tempo, dinheiros ou materiais. Também, esse conceito possui princípios e abarca técnicas que materializam um ambiente onde um sistema vivo se mantém e conserva com os diversos elementos que o compõem e suas relações uns com os outros.

Confesso, que esses parágrafos ficariam muito mais claros e marcantes, se estivéssemos num sistema permacultural vendo e sentindo a sinergia dessas relações ao vivo. Quando eu fiz meu curso de permacultura, matérias como física e geografia, que não faziam o maior sentido para mim no ensino médio, ganharam uma relevância ímpar. A compreensão dos tempos e “padrões” da natureza nos permitem entender que conservar, preservar e conviver com a natureza é muito mais simples que parece ser.

Pessoalmente, eu considero a permacultura uma revolução! E o melhor de tudo (resgatando velhos jargões de propagandas antigas), ela não está sozinha! (risos). É muito possível associar a permacultura a outro conceito bem importante chamado ecossocialismo.

Para dar conta dessa relação que inventei de fazer, trago para nossa conversa  Michael Löwy, sociólogo e escritor no site Outras Palavras. Achei muito conveniente, o trecho introdutório do seu texto:

“O famoso marxista italiano Antonio Gramsci dizia que o revolucionário socialista deve combinar o pessimismo da razão com o otimismo da vontade. (...) Em primeiro lugar, tratarei do pessimismo da razão: as coisas vão mal. E, em seguida, do otimismo da vontade: quem sabe, elas podem mudar, e um caminho para isso é o do ecossocialismo.

Sabemos que estamos em crise, uma crise econômica, social, ética, espiritual e ambiental. Sabemos que a forma como produzimos e nos relacionamos com as coisas e entre nós não iniciaram da melhor forma, assim como não estão trilhando itinerários com fins agradáveis. O ecossocialismo ecoa as lutas comunistas contra a priorização da propriedade privada em detrimento das relações humanas e da concentração dos meios de produção para poucos; as lutas socialistas contra as opressões e discriminações frente a pluralidade e diversidade humana e o acesso de poucos a oportunidades de uma vida digna; e, as lutas ambientalistas contra os modos de produção que devastam os recursos naturais para alimentar um consumismo exacerbado e inconsequente (não seria melhor dizer egoísta?) que retroalimenta esse ciclo de assimetrias, marginalidades e distanciamentos das pessoas com a vida, da vida entre as pessoas, da natureza como um todo.

O ecossocialismo reconhece que o desenvolvimento capitalista industrial moderno, embasado no produtivismo e no consumismo está levando a humanidade à catástrofe e não o planeta. A humanidade bem como algumas espécies vivas que estão mais próximas desse modo de vida que levamos. O planeta, seguirá girando, e a natureza, encontrará seus caminhos para se recompor, sem a nossa presença. Neste ponto, percebo uma grande convergência entre o ecossocialismo e a permacultura, já que em ambas matrizes teóricas reconhecem que são as práticas dos humanos que potencializam ou não a degradação do ambiente. Temos a capacidade de desestabilizar profundamente o equilíbrio do planeta, mas também, temos a capacidade de reinventar nossas práticas e desenvolver ambientes harmônicos e solidários, entre nós, o ambiente e as próximas gerações.

O economista Ricardo Abramovay no primeiro capítulo do seu livro “Muito além da economia verde” afirma que o desafio de consolidar uma nova economia está nas barreiras para reconstruir a relação entre a sociedade e natureza, entre a economia e ética. Que esta reconstrução exige correções nos efeitos negativos sob os âmbitos social e ambiental que até hoje “estamos” provocando. Menciono “estamos” entre aspas porque o ecossocialismo também vai nos dizer que não é TODA a humanidade que está destruindo a sua possibilidade de vida a longo prazo na terra. Como a gente escuta quando debate com o pessoal por aí: “mas o socialismo quer deixar as pessoas mais pobres”. A resposta é NÃO! Vivemos num sistema que padroniza nosso consumo e não garante acesso igual aos recursos disponíveis a todos. Abramovay convida Paul Streeten para compor seus escritos e fala que “o conceito de necessidades básicas serve para lembrar que o objetivo do esforço do desenvolvimento é oferecer a todos os seres humanos a oportunidade de uma vida plena”. Qual seu conceito de pobreza? Qual seu conceito de vida plena? 

Confesso que sou muito mais otimista que pessimista na vida. Tenho meus anseios e temores, claro. Não tenho a pretensão de fechar meu texto com uma lista estratégica do que precisamos fazer para mudar radicalmente nossa forma de ver o mundo, nossos desejos e satisfações pessoais. O que considero que seja um lembrete bacana, é jamais nos esquecermos que, por mais que sejamos um ser único (me pareceu redundante, mas tudo bem), somos fruto de um coletivo. Na minha humilde concepção, jamais devemos colocar o indivíduo na frente de um processo ou fluxo coletivo, porque não haveria um indivíduo, um sujeito pensante e “autônomo” de suas escolhas sem sua prévia (e constante) construção em um contexto social, cultural, espiritual. Nosso pensamento precisa urgente expandir das nossas dimensões confortáveis de bem-estar e alienação aos demais, aos muitos marginalizados e invisibilizados pelo sistema político econômico que conduz e dá o tom dos nossos cotidianos.

“A maior mudança que precisamos fazer é do consumo à produção, mesmo em pequena escala, em nossos quintais. Se apenas 10% de nós fizermos isso, haverá o suficiente para todos. Daí a inutilidade de revolucionários que não têm jardins, que dependem do próprio sistema que eles ataquem, e que produzem palavras e balas, e não comida e abrigo”.

Bill Mollison

A revolução dos 10% iniciou muito antes de eu pensar em escrever essas palavras. Iniciou com todas e todos aqueles que assim como Bill, observaram os tempos da natureza, aprenderam seus padrões e se sentiram pertencentes a eles. A revolução dos 10% ganha força a cada um e uma que se apaixona por possibilidades concretas de mudar a realidade, mesmo que seja em pequena escala. Vamos plantar, vamos plantar, vamos plantar! Vamos reavaliar quais são nossas necessidades básicas de fato, quais são nossas demandas de partilha de excedentes ou nossas fontes de consumo. Vamos plantar, vamos construir com barro, vamos entender a geografia dos ventos, a física dos astros, o magnetismo e os impulsos invisíveis. Vamos calar e observar as paisagens, ouvir os ecos e identificar o que fazer, com quem fazer e como.

Apesar de começar com 10%, essa revolução tem potencial para alcançar a totalidade de sua abrangência, que incluí becos, ruelas, favelas, periferias. A permacultura, assim como o ecossocialismo, assim como a agroecologia e quantas mais sistematizações teóricos práticas quisermos usar não pode estar restrita a dimensão do nosso olhar de rede, é preciso esticar um pouquinho olho, é preciso produzir comida e ser abrigo. É preciso ser 10%.

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*Bruna de Oliveira é nutricionista, gaúcha residente em terras brasilienses, co-fundadora do movimento de combate às fomes do mundo Other Food e membra da RAiZ - Movimento Cidadanista no Distrito Federal.

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Referências de apoio:

ABRAMOVAY, R. Muito além da economia verde. Editora Abril. São Paulo, 2012.

LÖWY, M. Razões e estratégias do Ecossocialismo. Site Outras Palavras. Disponível em: http://outraspalavras.net/posts/razoes-e-estrategias-do-ecossocialismo/. Acesso: 27. set. 2016.

MOLLISON, B. SLAY, R. M. Introdução à Permacultura. Tagari publicações. Tyalgum, 1994.

MOLLISON, B. HOLMGREN, D. Permacultura Um: uma agricultura permanente nas comunidades em geral. Editora GROUND. São Paulo, 1978.

BRASIL, Secretaria Nacional de Movimentos Populares. Manifesto Ecossocialista. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: http://www.mma.gov.br/destaques/item/8075-manifesto-ecossocialista. Acesso: 27. ser. 2016. 


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