Resposta de um jovem

  • 01 de Junho de 2016

Por Vitor Taveira*

Certa vez, um professor de cursinho privado, desses de pensamento crítico e de esquerda, manifestava numa coluna de um jornal sua decepção com a juventude, que via como alienada, diferente de sua época.

Como jovem ativista, entre a compreensão e o incômodo, resolvi cometer a ousadia de contestá-lo.

Tendo em conta que “todo ponto de vista é a vista de um ponto” e que “a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”, fiz um humilde convite - que estendo aos demais leitores- para deixar o pessimismo, pisar um outro território e direcionar um novo olhar, de baixo para cima, desde onde os jovens se movimentam, e assim, como dizia Rosa de Luxemburgo, sentem as cadeias que os oprimem – e lutam para rompê-las.

O texto do professor lembrava das reuniões de grêmio estudantil em sua juventude em que junto a seus colegas queria mudar o mundo. Então lembrei da minha primeira reunião dessas, há muitos anos, e também da última, semana passada, em que seguimos querendo mudar o mundo – não só imaginando-o mas buscando construir por meio de nossas ações e práticas o mundo que sonhamos. “Os sonhos não envelhecem”. E seguimos vivos, pulsantes.

Gramisci falava do “pessimismo da razão e otimismo da vontade”. Diante de tanta barbaridade que vemos e lemos diariamente, a razão para a descrença é plenamente compreensível. Assim como a descrença na razão que hoje manifestamos. A utopia de liberdade da modernidade iluminista por meio da crença cega na racionalidade e na ciência terminou transformando a busca de liberdade em prisão, opressão, massificação.

E aqui estamos os jovens buscando novos sentidos de vida, a construção de um sentipensamento, buscando o resgate de valores como o Ecossocialismo, o Ubuntu africano, o Bem Viver dos povos indígenas, para uma nova relação campo-cidade, humanidade-natureza, para diminuir a “distância entre o que se diz e o que se faz”, para que nossa fala seja nossa prática, como dizia Paulo Freire.

A tecnologia não é mais que uma ferramenta e, assim como os ideais iluministas, carrega em si a contradição de servir como instrumento de aprisionamento mas também de libertação. A subversão da ordem verticalizada do século 20 é a nova realidade em que nos inserimos, o mar em que alguns nadamos, outros navegamos, afogando-nos ou buscando enxergar novos horizontes. Talvez menos do que massa, a juventude seja multidão, redes, rizomas, nós.

Não estamos cabendo mais nos partidos tradicionais, nos sindicatos, nos grêmios, nos formatos clássicos de fazer política de cima para baixo, antes naturais mas que hoje soam autoritários. Não cabemos mais na televisão em que um produz e milhões assistem, quando nos acostumamos com lógicas colaborativas de construção nas novas redes comunicativas. Não cabemos, tampouco, nos espaços que colocam a juventude como eterna esperança de futuro, para que quando tenhamos certa idade possamos gerenciar as mesmas posições de poder com a qual hoje não compactuamos. Queremos o agora. E estamos fazendo agora.

"O bem é maioria mas é silencioso (...) para cada bomba que destrói, há mil carícias que constroem a vida". Antes de cada grito que permite que nos escutem ao menos por um minuto, há muitas horas de trabalho em silêncio. Nos campos e nas cidades, junto com os mais experientes, as juventudes também estão tecendo outros mundos, plantando futuro. A agricultura orgânica, a permacultura, a economia solidária, as hortas comunitárias, as ocupações culturais, pontos de cultura, cicloativismo, teatro do oprimido, software livre, cineclubismo, hip hop, bandas juvenis, entre uma quantidade inumerável de ações.

A pergunta é: algumas vez fomos maioria? Nos tempos atrás, quando o professor, nossos pais, mães, avôs e avós eram jovens, por acaso os que lutavam por um mundo mais justo eram maioria dentro desse sistema brutalmente opressor? Ou eram uma pequena e sonhadora minoria como nós somos hoje? Nossos ancestrais em luta, que tanto contribuíram para avanços e melhorias, eram maioria? Não posso acreditar que em sua juventude o professor não se dava conta da hegemonia da mesma “babaquice diária de ideias” que ele aponta no mundo atual.

A nostalgia é um excelente calmante nossos fracassos coletivos. E a esperança é o alimento da alma. Acho que de fato não fomos os jovens que deixamos de ter ideias ou as ideias que deixaram de ser perigosas. Talvez simplesmente o professor é que deixou de ser jovem e de mirar o mundo a partir da resistência. E ser jovem, todos devem saber, é menos questão de idade e mais de estado de espírito.

“Ou inventamos ou erramos”. Mas não estamos começamos nada do zero. Estamos dando seguimento justamente às lutas que a geração anterior nos entregou, aprimorando o que recebeu de outras.

A juventude não morreu, a idiotização coletiva não venceu. Não abanamos o rabo nem abaixamos a cabeça. Nem todos. E nem quase todos.

“Aqui se respira luta. Aqui estamos de pé!”

---

*Vitor Taveira é comunicador social, mestre em Estudos Latino-Americanos e integrante do programa de rádio Soy Loco Por Ti


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