Raiz em movimento – princípios para um Brasil mais igual

  • 12 de Fevereiro de 2016

Por Liliana Peixinho*

Publicado em bahia.ba

Num mundo onde a vida é descaso, aqui, ali, acolá, bom seria para o Brasil adotar ideais como os defendidos em princípios como o da Raiz – Movimento Cidadanista, através de filosofias e práticas como Ubuntu (“eu sou porque nós somos”), Teko Porã (viver em aprendizado e convivência com a natureza) e Ecossocialismo, onde o capitalismo é criticado “como insustentável por sua lógica de reprodução e lucro sem limites, extraindo tudo e todos à sua frente, incluindo sonhos.” Importante comungar com a ética Ubuntu, inserindo na roda de debates para romper com o comportamento individualista, egoísta, que não coloca o outro, no eu cotidiano. Na filosofia, Ubuntu é pertencimento à unidade, interdependência e colaboração. Diálogo, consenso, inclusão, compreensão, compaixão, cuidado, partilha, solidariedade. “Eu sou porque você é” – “nós somos porque você é e eu sou”.


Como filosofia raiz de nossas origens, via Mãe África, o Ubuntu defende a dignidade como uma prática que alcance a todos. O Movimento Raiz, que se lançou no dia 22 de janeiro, em Porto Alegre-RS, também como opção de representação partidária, incorpora valores, em sua Carta Cidadanista, onde a emancipação e cidadania estão linkados às grandes pautas da Mãe Terra, e cujas demandas reprimidas históricas desafiam brasileiros na garantia de direitos negados. Desta cultura de filosofia de vida, extraio um trecho da carta que diz: “A minha humanidade está presa e está indissoluvelmente ligada à sua. Eu sou humano porque eu pertenço.. Uma pessoa com Ubuntu é acolhedora, hospitaleira, generosa, disposta a compartilhar. A qualidade dá às pessoas a resiliência. Está aberta e disponível aos outros, assegurada pelos outros, não se sente intimidada pelos outros. Mandela ensinou ao mundo que não vale vencer a qualquer custo, por isso ele conduziu a superação do apartheid com reconciliação, mantendo a paz e a unidade entre os povos da África do Sul. Para a pessoa com Ubuntu, jamais é possível estar bem se nosso entorno não estiver bem. Ubuntu é a cultura milenar da paz.” É aquela história: enquanto tivermos uma só pessoa na dor, no sofrimento, na injustiça, por que fazermos festas, em falsa alegria, contentamento?


Outro princípio Raiz que compartilho é o Teko Porã: o Bem Viver. Conceito transversal, que coloca política, economia e sociedade em visão horizontal, para resgatar valores dos povos originários da América: Sumak Kawsai em quéchua; Suma Qamaña em aymara; Tekó Porã, em guarani. Nesse olhar, a carta diz que “terra que nos acolhe tem que ser protegida, conforme nos ensinam os povos tradicionais,, pois o mundo é povoado de muitas espécies de seres, também dotados de consciência, em que cada espécie vê a si mesma e às outras espécies a partir de sua perspectiva”. Sabedoria reconhecida nos povos do Xingu, e como vi e convivi de perto com povos como os Tupinambás, Kiriris, Pataxós. E que se amplia em todas as culturas ameríndias. No Brasil, por exemplo, onde se mata criança indígena enquanto é amamentada no peito da mãe, numa rodoviária, estamos mesmo a precisar compreender que a relação social entre sujeitos,
envolve cultura e natureza como simbiose humanitária.
Agricultura familiar: exemplo de sustentabilidade (Foto: Liliana Peixinho)

O Teko Porã é a oposição ao ‘viver melhor’ ocidental
A Raiz resgata a cultura Teko Porã como afirmação no equilíbrio com o planeta e no conhecimento ancestral dos povos originários. Como conhecimento de profunda conexão e interdependência com a natureza. Relação onde a vida em pequena escala, sustentável e equilibrada, é necessária para garantir uma vida digna para todos e a sobrevivência do planeta. Nessa lógica, o fundamento são as relações de produção autônomas e autossuficientes. O Teko Porã também se expressa, conforme a carta cidadanista da Raiz, “na articulação política da vida, através de práticas como assembleias locais, espaços comuns de socialização, parques, jardins e hortas urbanas, cooperativas de produção e consumo, e das diversas formas do viver coletivo e harmonioso. Também guarda correspondência ao histórico desejo de emancipação e unidade dos povos latino americanos, expressos na utopia da Pátria Grande (Abya-Yala).


O Teko Porã é a oposição ao “viver melhor” ocidental, que explora o máximo dos recursos disponíveis até exaurir as fontes básicas da vida. O Modo de viver Teko Porã combate o consumismo raso, que alimenta matrizes em exploração predatória dos recursos naturais e só servem à ganância de poucos. Modelo cuja ânsia de produzir a qualquer custo alimenta a perversa propaganda do crescimento, do progresso, da enganosa mensagem de “geração de emprego e renda”.


O terceiro ponto da carta que nos chama atenção é a defesa de valores baseados no Ecossocialismo como reflexão crítica convergente para ecologia, socialismo e marxismo. Para a Raiz – Movimento Cidadanista, o capitalismo é insustentável. Munidos de informações científicas compartilhadas em exaustão em grupos de estudos, e cientes de que o “planeta estará definitivamente exaurido em poucas gerações, e de que não temos o direito de seguir roubando o futuro dos que estão por vir”, os enraizados desafiam cenários da economia tradicional e perversa, via consumo raso, e consideram que para a reversão deste processo, o único caminho é a revolução ecológica. Nesse ambiente, observam premissas básicas: a) estamos em meio a uma crise ambiental global e de tal enormidade que a teia da vida de todo o planeta está ameaçada e com isto o futuro da civilização; b) a crítica ao modelo capitalista vigente e ao consumismo predatório e desenfreado; c) a crítica às revoluções sociais do século XX que tiveram por matriz ideológica o socialismo real, mas que apenas reproduziram o produtivismo predatório do modo capitalista de produção.”


Os valores éticos defendidos pela Raiz priorizam o comum, através da construção de uma cidadania ativa e solidária. Em crítica radical “o atual sistema capitalista é incapaz de regular, muito menos superar, as crises que deflagra; isso porque fazê-lo implicaria pôr limites ao processo de acumulação do capital, uma opção inaceitável para um sistema baseado na regra “cresça ou morra!”. É da lógica do sistema preferir “crescer e matar!” Essa nova forma de pensar e agir passa pela formação de cadeias produtivas locais, aproximando produção e consumo e, sobretudo, aproximando gente e distribuindo renda. Uma nova e importante forma de produzir e consumir onde decrescemos na concentração, na ostentação, no supérfluo e crescemos apenas onde é necessário. Tudo isso gera riqueza, cria empregos,tecnologia, conhecimentos e solidariedade. direito comum a todos os seres”, defende a Raiz.

 

*Liliana Peixinho – Jornalista, ativista socioambiental. Fundadora dos Movimentos Reaja – Rede de Jornalismo Ativista, Movimento AMA, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental. Especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico.

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Mais informações:

-Leia a Carta Cidadanista

Vídeo: Teaser com trechos da Carta Cidadanista

 


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