Por uma permacultura indígena

  • 22 de Julho de 2016

Por Cristine Takuá*

Durante muitos séculos, os povos nativos se mantiveram com suas práticas milenares para se curar, se alimentar, construir suas casas e se manter sobre essa Terra, sempre com cuidado e respeito à Mãe Natureza. De geração a geração, todos os ensinamentos necessários à sobrevivência eram transmitidos e todos viviam em harmonia, em equilíbrio com os outros seres e com o ambiente que os rodeavam de forma organizada politicamente, socialmente e culturalmente.

No entanto, atualmente, com o avanço tecnológico, o consumismo desenfreado e todo processo de urbanização fizeram com que muitas comunidades fossem engolidas pela vida moderna, pelos maus hábitos alimentares, pelo sedentarismo, pela ilusão do conforto e pelo esquecimento dos valores tradicionais, desestruturando e modificando uma complexa rede de sustentabilidade que há séculos existia.

Mesmo assim, ainda há muita resistência e tentativas de fortalecimento cultural, por parte das lideranças, dos professores indígenas e dos grandes mestres, os pajés, que são o sustento, o alicerce da transmissão dos conhecimentos verdadeiros para saber Ser e saber Estar no mundo se relacionando com a grande teia que nos envolve.

Os Povos Indígenas sempre foram permacultores por natureza, pois conseguiram permanecer por séculos sem destruir seu meio e sempre souberam olhar para a floresta e descobrir os recursos que a natureza pode oferecer para planejarem e organizarem seu uso coletivo, estruturando as interações e os processos auto-organizacionais para manterem a comunidade de forma equilibrada. Essa harmonia com a natureza se dava pelo fato de se viver na natureza, com a natureza e da natureza, sendo profundamente uma visão filosófica na qual o convívio com os seres naturais e vegetais era o valor maior.

Saber nascer e saber morrer, eis um princípio de sabedoria de equilíbrio com a Mãe Terra! Mas esse saber está cada dia está mais distante, pois os fios da Grande Teia estão se desconectando, e as pessoas adoecendo. Desaprender a arte de parir e chegar à morte demasiado adoentado é reflexo do desiquilíbrio gerado por essa vida insana para a qual cegamente estamos caminhando.

Como hoje, as formas de vida mudaram, muitos foram forçadamente impulsionados a se desinserir do meio natural, nos vemos na urgente necessidade de fortalecer, recriar formas de se manter. E assim, trazer para a memória os princípios permaculturais de nossos antepassados. Porém, isso somente será possível se formarmos PermaAtivistas e lideranças jovens engajadas politicamente com os princípios da economia solidária, da cooperação em rede, da desobediência civil não-armada e da urgente necessidade de intercâmbios com outros permacultores dos quilombos, das comunidades tradicionais e alternativas. E também se fortalecermos os intercâmbios de troca de sementes, incentivando nas crianças e jovens a arte do plantio.

Dessa forma, transformaremos nosso meio, nos fortaleceremos e criaremos redes sustentáveis para nos mantermos nesses tempos sombrios !!!!

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*Cristine Takuá é filósofa, educadora indígena e integrante da RAiZ - Movimento Cidadanista.

 

**Imagens de Vherá Poty

*** Artigo publicado originalmente na Revista Língua de Trapo


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