Por um futebol rebelde e popular

  • 06 de Abril de 2016

Carta do Círculo Futebol pra Geral da RAiZ - Movimento Cidadanista

 

 

“Muitas vezes me levo a pensar se poderemos

um dia endereçar esse entusiasmo que gastamos

no futebol em algo positivo para a humanidade”

Dr. Sócrates

 

 

 

No princípio era a bola - de pano, de couro, de meia, às vezes nem tão redonda. As traves eram chinelos, pedaços de madeira, latas de tinta. Na terra, no capim ou no asfalto sonhávamos estar no Maracanã. Par ou ímpar. “Eu ganhei, começo escolhendo!” Sem camisa contra com camisa, no caso dos meninos. Cinco minutos ou dois gols. Bola rolando. Se sair acaba...

Foi assim que começamos. Lembra?

Claro, essa não é a história do futebol. Mas é a história do futebol em nossas vidas.

E o título que o time do coração ou a seleção ganhou ou perdeu? No tempo normal ou nos pênaltis. No radinho, na TV ou na arquibancada. Lembra? Talvez seja a primeira memória da criança que ainda joga em você...

Para brasileiros e brasileiras de várias regiões, o futebol é parte importante das memórias e da cultura, das alegrias e tristezas, das paixões e das revoltas. De pequenos e pequenas trazíamos o sonho de ser craques, Pelés ou Martas. O futebol dos grandes holofotes era nosso espelho, ali nossos ídolos mostram sua arte, ao mesmo tempo que dos pequenos campos de terra germinam craques do amanhã.

O interesse do povo brasileiro só cresceu por esse esporte que nasceu na Inglaterra mas foi profundamente adotado pelo Brasil, “a pátria de chuteiras” (valha a metáfora, pois nem todos tem dinheiro para comprar um par delas). E cresceu mundo a fora.

Aos poucos, como tudo que é muito popular, também despertou o interesse do capital, “a pátria do dinheiro”. O futebol, pouco a pouco foi virando um grande negócio, muito lucrativo para uma pequena minoria. E como é a ordem desse sistema capitalista, as pessoas e cidadãos viram apenas “clientes”, valem quanto possam pagar. A forma clássica de exclusão: os preços sobem, quem não pode pagar, está fora.

E o trabalhador que junta uma parte do seu salário para apoiar seu time ainda tem que lidar com situações como os jogos às 10 da noite. Acaba meia-noite, não tem mais transporte, e o morador da periferia, como chega em casa? Ou se chega quase 2 horas da manhã, tendo que acordar no dia seguinte às 4h para ir trabalhar? A quem interessa esses horários? Aos jogadores e torcedores não. Mas a última palavra é da TV Globo. Quem paga o jogo dita as regras? Essa é a democracia do neoliberalismo, da “patria-dinheiro”, não a democracia participativa e popular que defendemos e construímos.

Esse processo do futebol-negócio (ou Futebol Moderno, como dizem muitas pessoas) tem se acentuado de forma bem acelerada nos últimos anos, surgiu o “Padrão FIFA”, para obrigar tudo a estar de acordo com as normas criadas pelos de cima. O mal e velho colonialismo.

Mais de uma década atrás, começaram destruindo a Geral, espaço dos estádios com ingressos baratos, acessíveis a qualquer um, onde se manifestava a grande festa e criatividade do povo brasileiro. Lembra? E em homenagem e memória a isso, decidimos nomear nosso círculo cidadanista como “Futebol para Geral”, uma iniciativa da RAiZ - Movimento Cidadanista que pretende ser um espaço autônomo e horizontal, aberto a toda sociedade que queira discutir e gerar propostas e mobilizações para o futebol democrático que sonhamos. Mais um espaço que junto a outros já existentes fortalecem esta luta.

Recentemente, vimos uma Copa ser organizada no Brasil novamente depois de décadas. O que comemorar? O “Maracanazo”, o “7x1” talvez tenha sido maior fora de campo. Como nos orgulhar se nós, o povo, em sua maioria não podia pagar para estar ali? Como se orgulhar das remoções, da falta de diálogo do poder público com as comunidades? Das obras pensadas mais para os turistas do que para a população?

Os escândalos de corrupção na FIFA, CBF, Federações e clubes só mostram que assim como a maioria desses políticos do Congresso, a “cartolagem” também não nos representa. Essas castas de poder político e futebolístico estão cada vez mais distantes da base, do povo que faz organização política nas comunidades, a defesa dos direitos humanos e da justiça social nos territórios, que constroi a festa dos estádios, e os jogos nos campinhos.

Muitos jogadores, nossos ídolos, também seguem o caminho dos políticos, fechados em interesses próprios, trocando de partido ou de clube apenas por render mais votos ou salários. Enquanto isso, muitos outros trabalhadores da bola seguem jogando em condições difíceis e com pouco apoio. Uma pesquisa encomendada pela própria CBF mostra que 82,4% dos jogadores de futebol em atividade no Brasil recebem até mil reais de salário. Sendo que muitos clubes desfazem o elenco e ficam ociosos por até um semestre do ano.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, também um fanático por futebol, dizia que como militantes de esquerda e amantes do futebol sofremos um duplo preconceito: de uma direita que acreditava no futebol como nacionalismo, das ditaduras que queriam promover o ufanismo de chuteiras para encobrir os crimes e autoritarismos que cometiam- e que agora vê o futebol como lucro; e também de uma esquerda desconectada do popular, que só consegue enxergar o futebol como “ópio do povo”.

Como dizia o mesmo Galeano,  o futebol na verdade reflete o bom e o ruim de nossa sociedade: por um lado, as violências, as opressões, os preconceitos, a competitividade a todo custo; de outro lado, os cantos, a alegria, a cooperação, o companheirismo.

O futebol é isso, amigas e amigos, é parte e reflexo de nossa sociedade. O machismo, o racismo, a homofobia, a violência estão presentes no futebol - e nos incomodam. Assim como estão presentes em toda sociedade - e nos incomodam muito! Por isso os combatemos, em todos espaços, inclusive nos campos e arquibancadas.

Brasil à fora, nos últimos anos vêm crescendo a organização e mobilização de torcedores questionando todas essas questões aqui levantadas, que combatem o Futebol Moderno mas também as opressões e exclusões sociais e futebolísticas, numa lista de grupos que seria muito extensa para citar.

Na sociedade e no futebol, nós cidadãos e torcedores somos 99% contra uma casta de 1% que defende seus interesses por poder e dinheiro!

Nós somos torcedores e não clientes. Amamos o jogo e não o negócio.

Nos posicionamos contra  futebol gourmet/moderno/negócio, por um futebol popular, pra geral!

Vai pra cima deles, POVO!

Futebol e política se discutem, sim!

Vem bater bola com a gente...

 

Círculo do Futebol pra Geral
RAiZ - Movimento Cidadanista

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