Permacultura e Bem Viver: um diálogo possível

  • 14 de Março de 2017

Por César Borges*

1- A modernidade insustentável e o capitalismo predatório

Vivemos em tempos de crises. Tempos de concretude cruel e desesperança, no qual os laços comunitários que durante milênios garantiram a coesão, unidade e permanência de diversos grupos espalhados pelo planeta, deram lugar ao individualismo, a fragmentação social e ao consumismo. As relações entre seres humanos e o meio ambiente foram reduzidas ao cálculo utilitário, tendo em vistas ganhos materiais imediatos. O antropocentrismo, a razão instrumental, a técnica e a ciência, ampliaram de modo nunca antes visto a capacidade de os seres humanos intervirem na natureza e serviram como suprimento à crença moderna de que seria possível sua dominação completa.

Muitos estudiosos têm denominado como “antropoceno” o período atual, no qual as atividades humanas tomaram o caráter de uma força geológica significativa, alterando sobremaneira os sistemas que até então deram suporte às mais diversas comunidades humanas e não humanas, causando danos irreparáveis ao meio ambiente e impondo dificuldades intransponíveis aos grupos mais vulneráveis no que diz respeito à manutenção das condições mínimas de existência, acarretando diminuição em sua capacidade de dar sustentabilidade a seus modos de vida.

O sistema capitalista, a partir de sua devastadora expansão para os quatro cantos do mundo, tem contribuído para a retirada da autonomia de grupos que antes foram capazes de arcar com a satisfação de suas necessidades por meio de culturas de permanência, focadas na reprodução das relações sócio-ecológicas em conjunto com práticas, ritos e mitos que, de alguma forma, ressaltavam a interdependência entre todos os seres. A mercantilização da vida social e da natureza, ademais de seus efeitos no mundo da produção, passa a operar também no nível das subjetividades, colonizando as relações econômicas antes marcadas pela solidariedade ao ponto de retirar-lhes seu conteúdo ético. Ao mesmo tempo, este processo contribui para a instrumentalização das relações entre humanos e não-humanos, resultando na impossibilidade em atribuir aos últimos, valor intrínseco, negando-lhes consideração moral, restando apenas sua utilidade para servir às necessidades e desejos humanos.

Como conseqüência, o predomínio da racionalidade moderna impôs, dentre outras coisas, a perda da capacidade de ação e autodeterminação, individual e coletiva, e a condenação de pessoas e grupos sociais a viverem vidas pouco criativas, carentes de significado.

Nesse contexto a humanidade se defronta com uma difícil tarefa: a de criar um nicho que seja viável no longo prazo para si, que simultaneamente leve em consideração a prosperidade dos demais seres que juntos conformam a teia da vida na Terra. 

2- Permacultura: autonomia e interdependência

Contudo, desde os anos de 1960 começam a surgir movimentos de contestação à ordem que se consolidava e novos personagens entram em cena. Dos movimentos de mulheres aos ecologistas, passando pela postura pós-colonial que se fez presente nos países periféricos, o combativo movimento indígena, o movimento negro, os que lutavam pela efetivação dos direitos civis. Em meio a essa efervescência, a cena política se diversifica e a esfera pública passa a ser disputada por uma pluralidade de vozes que começam a questionar não só as estruturas da civilização moderna, suas instituições políticas, sociais e econômicas, mas o estilo de vida excludente, predatório e uniformizador, imposto de forma autoritária e intransigente.

Acompanhando a onda de contestação e o espírito libertário que deu a tônica destes novos movimentos, já no inicio dos anos 1970, a partir de experimentação e reflexão crítica, surge, das penas dos australianos Bill Mollison e David Holmgreen, o conceito de “permacultura” como uma resposta ao sistema industrial e agrícola convencional, poluidor das águas, dos solos e do ar. 

Derivado da contração das palavras cultura e permanente, inicialmente entendido como um modelo de agricultura ecológica, o conceito evolui para se transformar em um método concebido para subsidiar a construção e manutenção de assentamentos humanos sustentáveis, constituindo um caminho alternativo à extinção em massa das espécies animais e vegetais, à redução dos recursos não renováveis e ao sistema econômico predominante, tido como altamente destrutivo.

Um projeto permacultural tem como principal objetivo o planejamento, a implantação, execução e manutenção consciente de ecossistemas produtivos, altamente diversos e por isso estáveis e resilientes. Grosso modo, podemos dizer que a permacultura se divide em dois conjuntos de princípios, são eles: os princípios éticos e os princípios que regem o planejamento permacultural, ou design. 

A ética da permacultura é composta por três pilares que, de acordo com seus criadores, foram destilados a partir de conhecimentos e costumes ancestrais. 

1-Cuidado com a Terra

2-Cuidado com as pessoas

3-Distribuição dos excedentes 

Ancorada também nos fundamentos da ecologia moderna a permacultura privilegia a observação e a experimentação envolvendo as inter-relações entre organismos e sistemas de organismos em um determinado local, de modo a identificar suas dinâmicas e padrões de interdependência, com o objetivo de potencializar a vida e ao mesmo tempo minimizar a degradação social e ambiental. É comum entre permacultores ouvir que se trabalha com e não contra a natureza. Esse talvez seja o princípio que mais reflete a essência do planejamento permacultural.

É correto dizer, pois, que a permacultura sintetiza práticas e conceitos tradicionais com idéias inovadoras, unindo antigos conhecimentos tribais com algumas das mais importantes descobertas da ciência moderna de modo a dar viabilidade aos assentamentos humanos, independente do clima e ecologia local (1). 

No Brasil a comunidade de permacultores tem crescido a passos largos nos últimos vinte anos, com a proliferação de centros de pesquisa, ensino e experimentação. Em consonância com esse processo, houve também considerável aumento no número de pessoas que decidem abandonar seus estilos de vida tóxicos nas cidades médias e nos grandes centros urbanos em busca de comportamentos menos destrutivos. Há também grande interesse por parte de movimentos sociais que reivindicam a posse e uso da terra, no Brasil e América Latina, pela incorporação dos conhecimentos da permacultura, como é o caso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e Via Campesina.  O aumento no número de comunidades intencionais que em sua maioria se utilizam da permacultura para manejar seus espaços é outro indicativo da expansão deste movimento na região.

Empoderamento, autonomia e trabalho criativo, são aspectos comumente relacionados à prática da permacultura. Isso ocorre na medida em que seus conhecimentos são acessíveis a qualquer um, não existindo barreiras quanto ao sexo, idade, religião, educação ou cultura. Além do mais, o que se privilegia na construção de espaços guiados pelos princípios éticos e de design é a capacidade de observação, entendimento e conexão entre padrões naturais de modo a satisfazer as necessidades locais, priorizando o uso dos recursos que se encontram disponíveis no próprio lugar. 

Para muitos permacultores e estudiosos do meio ambiente, a divulgação e apropriação das tecnologias e conhecimentos permaculturais, podem ter a capacidade de mobilizar comunidades em movimentos auto-gestionários, contribuindo para a recuperação da auto-estima do grupo, reconstruindo laços comunitários e ativando o potencial para a articulação de projetos políticos viáveis (2).

Entretanto, há que se levar em conta a imensa capacidade da qual dispõe atualmente o sistema capitalista, seus principais atores e burocracias; seus meios de dominação material e cultural que, por sua vez, operam na legitimação da barbárie ecológica e social. Não é raro nos depararmos com cursos e projetos permaculturais que não guardam relação alguma com os princípios éticos enunciados por seus criadores, ou que são deliberadamente arquitetados para servir às classes mais favorecidas tendo como principal objetivo o lucro.

3- Bem Viver e a crítica ao desenvolvimento capitalista

Paralelamente ao surgimento da Permacultura, os debates em torno do conceito de Bem Viver aparecem com força no cenário político latino-americano a partir da década de 1970. Fruto de intensa mobilização por parte dos movimentos indígenas que passam a ganhar protagonismo em meio ao impulso decolonial, em intenso diálogo e aprendizado mútuo junto a movimentos ecologistas e ONGs comprometidas.

O Bem Viver, ou Teko Porã em tupi-guarani, Sumak Kawsay em quéchua, Suma Qamaña em aimará, é um conceito ancestral, compartilhado por povos ameríndios que significa: viver bem, viver em plenitude. Como categoria central que compõe a cosmovisão de incontáveis comunidades tradicionais espalhadas pelas Américas, remete holisticamente aos diversos âmbitos da vida, perpassando assim sua dimensão política, econômica, social, cultural e espiritual. De modo sintético é possível relacionar elementos comuns às visões de Bem Viver, como o apreço pela vida comunitária e o respeito pela mãe terra e demais seres não humanos, ambos entrecortados por um forte sentido de interdependência e reciprocidade. Tais elementos, além de integrar a visão de mundo destes povos, implicam em práticas concretas engendrando modos de vida autênticos em relacionamento íntimo com a ecologia local. (3)

Grande parte das concepções atuais de Bem Viver, tomam o conceito de “desenvolvimento”, e aqui implícito o sistema capitalista, como alvo de críticas. Diversos grupos têm apresentado a idéia de Bem Viver não como mais uma alternativa de desenvolvimento, mas como alternativa ao próprio desenvolvimento. Nesse sentido, o desenvolvimento é visto como uma idéia neocolonialista que privilegia a acumulação material, o tecnicismo, a competição e a separação entre natureza e sociedade. A crítica discorre também sobre a concepção de progresso linear, como se todas as civilizações estivessem “atrasadas” em relação àquelas de matriz européia.   

Por outro lado, os discursos do Bem Viver se colocam enquanto portadores de um potencial emancipatório ao passo que dão considerável importância às relações de equilíbrio e harmonia entre todos os seres, à complementaridade, à interdependência e à cooperação. Além disso, questionam também o produtivismo e o consumismo ocidentais, bem como a fixação moderna pelo crescimento econômico infinito ao apontarem para o fato de que grande parte dos recursos disponíveis no planeta é finita. A colonização de modos de vida e o ataque às subjetividades não ocidentais, ocasionadas, via de regra, pela expansão do mercado e aumento da regulação estatal, também são postos em cheque quando são denunciadas as transformações degradantes no mundo do trabalho, na família e na educação. 

Nas palavras de Eduardo Gudynas:

 El debate sobre el Buen Vivir es mucho más que considerar el bienestar o la felicidad, al obligar a repensar las vivencias y sentires de pueblos indígenas, cuestionar qué se entiende por desarrollo, o llegando a rediscutir cómo organizar la economía y producción nacional. (4)

Desse modo, é importante mencionar que as discussões em torno do Bem Viver têm suscitado importantes debates envolvendo a concepção de novos arranjos econômicos como: economia solidária, cooperativas, mutirões, descentralização da produção e consumo. Juntamente com a transformação dos indicadores sócio-econômicos, dentre eles, o Produto Interno Bruto (PIB) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de modo a refletirem objetivos sócio-ambientais. No campo da política, têm prosperado as discussões sobre novos arranjos participativos no sentido de promover um resgate da democracia direta, a valorização dos espaços públicos, a descentralização dos órgãos de tomada de decisão e o empoderamento comunitário. 

A luta contra a mercantilização do meio ambiente também ganha destaque com a ampliação do debate sobre os direitos da natureza e atribuição de considerabilidade moral a seres não humanos, o que não implica em uma concepção preservacionista de natureza intocada, mas sim que esta tenha seus ciclos vitais respeitados. A conservação dos processos biofísicos é tida como condição para a pluralidade e existência de diferentes modos de vida.

4- Permacultura e Bem Viver: complementaridade e resistência.

Como podemos perceber Permacultura e Bem Viver, além de despertarem a possibilidade para que possamos vislumbrar concepções alternativas de sociedade, através da combinação de conceitos e práticas modernas e pré-modernas, compartilham traços em comum: o resgate do sentido e importância da vida comunitária e dos laços de solidariedade local, a reintrodução da ética na economia e na relação com o meio ambiente e a crítica ao consumismo atrelada à degradação ambiental são pontos de afinidade entre os dois conjuntos de princípios. Outro fator de aproximação, ainda pouco mencionado, é que tanto um quanto outro, têm origem em regiões colonizadas e radicalmente transformadas pela civilização ocidental. Carregam, pois, em sua essência, a crítica à colonização e à imposição dos padrões difundidos pela racionalidade moderna. Aqui, é válido mencionar que nenhum dos dois casos trata de uma rejeição acrítica do projeto civilizacional moderno, mas, ao contrario, procuram promover um resgate de costumes, valores e conhecimentos tradicionais que foram postos de lado durante os processos de colonização.

Pese as similaridades destacadas, a Permacultura, ainda que não se proponha a tanto, carece de aprofundamento crítico e teórico que a permita fazer frente ao sistema capitalista e aos valores destrutivos que o acompanham. Já o Bem Viver, em contrapartida, por ser uma categoria abrangente, ganha lugar de destaque nos fóruns de discussão política como alternativa plausível ao modelo de desenvolvimento hegemônico, alcançando dimensões mais amplas de nossa vida social.

Desse modo, o Bem Viver pode ser um complemento ao conhecimento e práticas permaculturais, na medida em que leva em conta os aspectos estruturais do “desenvolvimento capitalista”, ampliando o escopo dos projetos de transformação territoriais, indo além do local e fornecendo um arsenal teórico que permita superar e se contrapor às subjetivações resultantes das ideologias da modernidade, dentre elas o antropocentrismo, o cientificismo e o capitalismo. Essa forma de conceber a permacultura, atrelada à postura decolonialista do bem viver, fornece as bases teóricas para que se possa formular projetos e políticas que tomem em conta a comunidade e a natureza enquanto categorias relevantes e, ao mesmo tempo, contribuir com a resistência ao sistema sócio-econômico vigente, fornecendo elementos para que possamos vislumbrar um novo horizonte utópico. 

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Notas:

1-Para saber mais sobre permacultura ver: MOLLISON, B; HOLMGREEN, D. - Permaculture One: A Perennial Agriculture for Human Settlements. Diversas edições. 

2-BONZATTO, E. Permacultura e as tecnologias de convivência. São Paulo: Cone, 2010. p.25.

3-Para uma compreensão mais detalhada sobre o Bem Viver, ver: ACOSTA, A, 2010, El Buen Vivir: Sumak kawsay, una oportunidad para pensar otros mundos, Icária, Barcelona. 

4- Plurinacionalidad y Vivir Bien/Buen Vivir. Dos conceptos leídos desde Bolivia y Ecuador, de SALVADOR SCHAVELSON. Quito: Abya Yala-CLACSO, 2015. Introdução por Eduardo Gudynas.

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* Cesar Borges – cientista social, permacultor e militante da RAiZ – Movimento Cidadanista


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