PEPE MUJICA – discurso na UERJ em agosto de 2015

  • 06 de Março de 2016

Transcrito por Rubens Salles

Ninguém é mais que ninguém. As repúblicas nasceram com o sonho de que as maiorias mandem. No entanto, vivemos no continente mais inculto e mais rico em recursos naturais que há no mundo. Vocês precisam continuar a levantar a bandeira da igualdade, e decidir se vão criar seu próprio rumo, ou se seu rumo vai ser decidido pelo mercado. Porque a vida é bonita, nada é mais bonito que a vida, mas na vida temos que defender a liberdade. Não te deixem roubar a liberdade. A liberdade não se vende. A liberdade se ganha, e se ganha fazendo algo pelos demais sem mandar a conta. Isso se chama solidariedade, e é uma luta entre o egoismo natural, que a natureza nos impõe, para que cada um lute pela sua vida e a de seus entes queridos, e a solidariedade, o seu interesse pela espécie, pela marcha do homem. Sem solidariedade não há civilização. Nos cabe viver uma fenomenal contradição. Nunca o homem teve tanto! É possível mudar a natureza, é possível salvar o planeta, é possível habitar o deserto, é possível cultivar o mar, é possível esparramar a vida pelo Universo, a vida humana, mas, para isso temos que começar a pensar como espécie, não apenas como país. Os pobres da África não são da África, são nossos. Os que morrem tentando cruzar o mediterrâneo são nossos, são nossos compatriotas todos os abandonados e esquecidos que há no mundo, porque pertencem à nossa espécie.

Nós somos um continente distinto, e não precisamos imitar a Europa ou o Japão. Não podemos querer o desenvolvimento na base da dor e da angústia, mas desenvolvimento com felicidade para todos. A generosidade é o melhor negócio para a humanidade, e o pior negócio são os bancos. Por isso, eu lhes tenho que agradecer o carinho, mas tenho que dizer que às vezes a dor nos ensina mais que o triunfo. Se pode viver com o justo, se pode viver com sobriedade, e se pode viver com solidariedade para viver em liberdade. Vocês não podem gastar sua vida trabalhando, trabalhando para pagar contas e assim seguir. Tens que trabalhar, porque senão trabalha estarás vivendo as custas de outro que trabalha. A solidariedade tem uma companheira que se chama responsabilidade. Há um tempo para trabalhar. Como diz a bíblia, viverás com o suor de seu rosto, mas não nascestes só para suar, nascestes para viver, portanto tem que haver um tempo para o amor, para seus filhos, para seus amigos, para alguém que você goste. Se a sua vida se resume a trabalhar horas e horas e horas, chegarás ao fim de sua vida sendo um objeto de mercado. Terão comprado toda sua liberdade.

Queridos, essa etapa da sociedade capitalista necessita uma cultura funcional aos seus interesses, e nessa cultura cada um tem que ser um comprador escravizado eternamente, que viva sonhando em comprar, e que confunda isso com felicidade. Nenhum governo vai regular isso. Isso quem vai regular é a sua consciência. Ou deixem que te dirijam, ou aprendes a dirigir-te. Isso é como uma criança que precisa aprender a atravessar a rua. Vocês precisam aprender a atravessar a economia de mercado sem que lhes roubem a liberdade. E isso se chama vontade. A cada manhã que se levantem pensem nisso 10 minutos, se o que você está fazendo te faz bem ou faz mal. Nunca haverá um mundo melhor se não melhorarmos nós mesmos. Minha geração achou que era mais fácil, e confundiu muitas coisas com felicidade humana. Que isso não aconteça com a de vocês. Aprendam com os nossos erros. Vocês têm que cometer os seus, e não os nossos erros, porque senão terá sido um desperdício o que vivemos. Tens que lutar no campo da cultura, porque não haverá mudança no mundo material se não mudar a cultura. A cultura ocupa a nossa mente, assim como a liberdade, e isso me ensinou a solidão do calabouço, e lhes quero transmitir, para que ajude sua vida.

Nossa América pode ser um continente formoso, de paz e solidariedade, e carinho. Hoje há ciência e tecnologia como nunca, e isso é positivo, se houver alma, houver consciência, mas esta civilização não tem consciência, tem caixas-fortes para guardar o dinheiro. E vocês universitários, têm que se dar conta que não é só mudança de sistema ou mudança de cultura. É preciso uma mudança civilizatória, é uma batalha muito mais profunda do que se pensou no meu tempo. E isso necessita de gente que dedique sua vida a essa aventura, e não só para sonhar com um mundo melhor, mas lutar por ele, gastar a vida lutando por ele. Os únicos derrotados são os que deixam de lutar.

Por favor, aos 80 anos, eu não venho buscar um aplauso, venho ascender uma chama pela militância por uma causa nobre. Não há homem insubstituível, há causas insubstituíveis, e estas precisam de ter sua defesa coletiva organizada por homens. Nós somos seres gregários, e necessitamos de ferramentas coletivas para tratar de modificar a realidade. Homens sozinhos, por mais geniais que sejam, não são mais que franco-atiradores, e nunca ganham as batalhas. Quem as ganham são as massas, os serem coletivos. Isso vocês tem que entender. Há que se criar ferramentas políticas de compromisso coletivo, e aprender a dor de andar coletivamente, que muitas vezes significa aprender a perdoar, porque ninguém é perfeito. Mas os indivíduos falando sozinhos caem falando, e para que existam mudanças é preciso que hajam gigantescos seres coletivos. Há que se superar o individualismo e se criar uma consciência coletiva, se querem ter força para influenciar na sociedade. E temos que saber bem claro quem é o adversário principal, e quais são nossas diferenças pequenas, com nossos parentes e amigos. Não podemos transformar as diferenças pequenas em causa principal, porque divididos ficamos fracos. Precisamos construir confiança. Eu acho que está afetada a confiança neste continente.

E tens que viver como pensas, porque senão acabarás pensando como vives. Mas claro, se a sua vida é vivida com a forma e valores da minoria privilegiada, acabarás pensando como a minoria privilegiada. A disciplina do cérebro e a disciplina da liberdade também se ganha com os valores com que se vive. Não podes lutar pela justiça ou pela igualdade, ou combater a pobreza, se olhas a pobreza de longe. Temos que aprender a conviver com a sociedade assim como ela é. Isto significa que tem que ser de corpo e alma, que tens que servir e viver de acordo com os valores da maioria, e quando a maioria melhorar, você melhorará também, mas não antes.

Então, a ideia de riqueza e de pobreza muda. Pobres são os que precisam de muito, são pobres poque não alcançam nada. Ricos são os que têm o nosso carinho. São valores distintos de êxito. Os homens e as mulheres precisam de gratificação na vida, mas não podemos confundir essa gratificação com uma conta-corrente. A alma e o carinho não cabem em uma conta-corrente. Este é um caminho da felicidade humana, ser útil aos seres necessitados, aos que têm dificuldades, à falta de justiça. Não cansar de lutar ao longo da vida, e não esperar um prêmio ao chegar ao final, mas ter um caminho formoso, andar e andar e andar, e, no final, entregar o estandarte a outro que o carregue. Isso é uma vida com conteúdo, pois só depende da sua decisão, e não que te imponham de fora.

Não peço que concordem comigo, mas que pensem, quando puserem a cabeça no travesseiro. Há dois caminhos, e você pode decidir qual seguir. Um que te impõe a realidade do mercado, que você terá que trabalhar muito, e, no final, daqui há quarenta anos, poderá ser diretor poderoso de uma empresa multinacional, e não deixará faltar nada ao seu filho, mas não terá tempo para dar um beijo no seu filho, e de caminhar ao lado dele pela praia, como caminha um homem mais velho com um homem que está crescendo. Esta é a diferença, terá provavelmente todos os bem materiais desejados, mas serás um estranho para seus filhos e para seus amigos, e seu filho terá boas roupas e comida, mas terá sido criando em solidão. Tudo isso depende dessa etapa jovem da vida, quando vocês precisam tomar uma decisão. E não espere que te orientem um governo ou um partido. Depende da sua consciência e da sua capacidade de discernir, e ser independente, ou não.

A hora da solidariedade é também a hora da responsabilidade com o compromisso social. A juventude passa mas as causas nobres não passam. Estão em crise os valores da nossa civilização. Vejam, esta etapa do capitalismo não gera puritanos, gera corrupção, não é uma época de aventura, é uma época de sepultura. Nossa democracia não é perfeita porque não somos perfeitos, mas temos que defendê-la para melhorá-la, e não para sepultá-la.

A forma como vivemos e os nossos valores são a expressão da sociedade em que vivemos, e a gente se agarra a isso. Não digo isso por ter sido presidente do Uruguai. Eu pensei muito, passei mais de dez anos numa prisão, passei 7 anos sem ter um livro para ler, e tive muito tempo para pensar. E descobri isso: Ou aprendemos a sermos felizes com pouco, com pouca bagagem, porque a felicidade está dentro de você, ou não temos nada. Isso não é uma apologia à pobreza, mas é uma apologia à sobriedade. Só que nós inventamos uma sociedade de consumo, e que a economia tem que crescer, porque se não cresce é uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumo supérfluo, que vivemos comprando e gastando, mas o que estamos gastando é tempo de vida, porque não compramos com dinheiro, compramos com tempo de vida que tivemos que gastar para ganhar esse dinheiro. Mas tem uma diferença: a única coisa que não se pode comprar é vida, e é lamentável gastar a vida para perder a liberdade.


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