O que fazer: reflexões para composições cidadanistas

  • 25 de Junho de 2016

Por Guilherme Preger para a Raiz Movimento Cidadanista

Ecoou alto o puxão de orelhas de Marilena Chauí no seu companheiro filósofo Vladimir Safatle no recente evento “Caminhos da Esquerda diante do Golpe”1, realizado em São Paulo. Marilena reclamou do uso reiterado pelo filósofo do termo “autocrítica” em sua fala anterior no mesmo seminário. Observou que “autocrítica” é um termo que nasceu com os infames julgamentos estalinistas, onde os acusados deviam não apenas confessar seus crimes de conspiração, mas também fazer sua “autocrítica”, reconhecendo-se equivocados subjetiva e objetivamente. Depois eram mandados para gulags ou fuzilados, mesmo depois da autocrítica realizada.

E, de fato, há algo completamente paradoxal na demanda por “autocrítica dos outros”. Por definição, a autocrítica só pode ser realizada cada um por si mesmo. Demandar autocrítica dos outros é uma forma viciosa de autoritarismo.

O tema obsedante dos “erros do PT”, apontados por grande parte “das esquerdas” vem no bojo desse mesmo autoritarismo e moralismo. Se nesse momento de “derrota das esquerdas”, como afirmou Safatle, o PT não fizer sua “autocrítica”, pior para o PT, que com isso perde seu lugar hegemônico histórico das esquerdas. Mas a decisão só pode partir do próprio Partido e de seus membros, como fez a própria Marilena no mesmo seminário em sua fala, assumindo-se como participante de uma das correntes mais radicais do Partido dos Trabalhadores.

Cabe a cada um, sujeito singular ou coletivo, fazer sua própria autocrítica, pois o golpe de direita, oligárquico, plutocrático e burguês, é uma amarga derrota e também um índice da falência de certo ciclo de política de esquerda no Brasil. Como diria ainda Safatle, essa autocrítica é essencial para se superar a condição de “melancolia” que leva à incapacidade de agir. Sem moralismo, devemos pensar esse ciclo de vitórias e derrotas, analisar o que se ganhou e o que se perdeu, para poder seguir em frente, na persistência obstinada que é a principal característica de toda luta emancipatória.

Outro momento tenso do mesmo debate entre esses grandes filósofos uspianos, foi quando Marilena observou que o discurso de Safatle (na verdade uma narrativa não confessa) via como “esquizofrenia” o que era um processo de contradições. Marilena não observou, aliás, a ausência completa do termo “luta” no discurso de Vladimir. Será que as esquerdas perderam a capacidade de enxergar nas contradições o momento dialético da superação, como aquilo que empurra o movimento emancipatório à frente?

Fugir das contradições e querer evitar a luta é uma das maneiras de se colocar de fora do pensamento da derrota e do fracasso. Assim, a demanda por autocrítica não é correlata à infame crítica do “binarismo”, ou do “fla x flu” político que grassou em círculos de pseudoesquerda, em particular naqueles que se filiam à “nova política” marinista? Talvez, por isso, não mencionem qualquer “luta”, seja de classes, seja a luta popular. Luta não é binarismo, pois não há simetria nenhuma entre as partes. Luta significa que o campo social está num racha e numa polarização que o tensiona inteiramente. Pode-se discutir se o campo social está dividido em duas partes ou fracionado em muitas perspectivas, a questão é que não há ponto do social e do político que possam estar intangíveis a essa polarização. Não há posto “superior” de observatório que possa analisar em sobrevoo o embate político disputado em uma suposta planície distante. Enfim: não há espaço de isenção, o “isentão” está com seus pés plantados em algum ponto sofrendo em seu corpo a torção espaço-temporal própria de todo o universo político.

Por isso, é preciso sempre lembrar que esquerda e direita não são conceitos essencialistas, mas “posicionais”. Não há pessoas, ou grupos de pessoas, que sejam direitistas ou esquerdistas. Como sugerem os próprios termos, esquerda e direita são conceitos de posições políticas surgidas a partir da Revolução Francesa na luta contra ou a favor dos “privilégios”. Privilégio significava então um termo bem específico: “Privatum Legis”, o regime jurídico diferenciado que separava nobreza e clero da “plebe”. Ou seja, os privilégios representam o poder das oligarquias contra os direitos universais do social, isto é, do Povo.

Assim, se houve derrota, não foi apenas do “governismo” ou do PT. Se há algo claro a todos é que o golpe representa um movimento de articulação de várias oligarquias: elites tradicionais, empresariado industrial, elite financeira neoliberal e grupelhos reacionários de todos os matizes - religiosos, militares, agrários, monarquistas, fascistas, misóginos, patriarcais, racistas etc. - reunidos num violento ataque à universalização progressiva dos direitos sociais e trabalhistas. Como não observar a óbvia configuração de luta de classes envolvida? Mesmo com todas as críticas ao movimento trabalhista, liderado pelo PT, não pode ser mais eloquente o fato que de um lado do golpe esteja a Fiesp e do lado golpeado a CUT. Quem é afinal o pato nessa história?

Com qual direito alguém que se assuma como de “esquerda” pode ficar ausente dessa luta? Como se pode deixar o campo político ser simplesmente entregue às forças mais reacionárias do país? Sob que pretexto um esquerdista pode recusar a luta contra fascistas e reaças?

É por esse motivo que aqueles que estiveram nas ruas durante o “acontecimento junho 2013” e que autenticamente se acham como “esquerdopatas”, isto é, apaixonados pela esquerda, deveriam deixar de lado todo o ceticismo, melancolia, ou pior, ressentimento contra o assim chamado “governismo” que não perdeu chance de detratar o movimento três anos atrás. Pois se 2013 é realmente um “acontecimento”, então ele ainda é e será por muito tempo um evento aberto, sujeito a disputas, lutas ou mesmo guerras pelo seu significado histórico. Será razoável confirmar os mais infames detratores e deixar as lutas pela mobilidade, em prol da educação e dos professores, contra o monopólio de mídia, pela desmilitarização da polícia, por cadê o Amarildo, pela liberdade da Aldeia Maracanã, contra o genocídio dos Kaiowá, pelo não vai ter Copa, e contra os megaeventos, todas essas lutas se resumirem numa ridícula e trivial mobilização verde-amarela “contra a corrupção”?

Portanto, é o próprio legado de 2013 que está em jogo. Se, como disse André Singer, “2013 não é de ninguém”, quem vai deixar que o acontecimento seja definitivamente cooptado ideologicamente pela direita moralista “anticorrupção”? Será que vale ausentar-se da política para ver o circo pegar fogo, como se o espaço da institucionalidade fosse a priori sempre corrupto? Não será essa a última versão do mito hegeliano do “Bela Alma”, aquele militante idealista que para preservar seus belos princípios recusa-se a imiscuir com a realidade, pois esta é sempre suja pelas contradições e pelos compromissos? Naquele fatídico 17 de abril, data de votação do impeachment na Câmara dos Deputados, vimos que a ala à esquerda do PT resumia-se a seis aguerridos deputados do PSOL que votaram com mais firmeza contra o golpe do que muitos aliados do governo. A questão então é a seguinte: se os “erros do PT” justificam cada vez mais jogá-lo para a direita ou para o centro, para abrir um espaço “moral” da esquerda mais “pura”, se o jogo então será esse, estamos preparados a viver num país com a esquerda reduzida à representação de seis deputados contra outros 500 deputados de direita num momento crucial da crise histórica capitalista na qual o sistema se reorganiza em novas bases? Será esse mesmo o caminho a seguir?

Aqueles que deixam o barco naufragar, seja na base do “quanto pior melhor” ou do “Que se vayan todos”, entregam complacentemente a própria arena de luta ao poder neoliberal mundial que nesse momento de crise generalizada pós-2008 reorganiza o sistema de produção capitalista em busca de mais-valia irrestrita. Segundo algumas fontes, o total especulado em bolsas e dívidas supera em mais de dez vezes o PIB mundial reunido de todos os países. Lastrear dinheiro podre (“capital fictício”) é urgente para as elites econômicas mundiais e isso só pode ser realizado reduzindo-se globalmente o custo do trabalho e acentuando a exploração de recursos, naturais e humanos, a níveis extremos. Trata-se de um fenômeno de guerra internacional que encurrala países como a Grécia na Europa e incentiva revoltas direitistas em dezenas de países das periferias, além de guerras civis por todo lado. Muitos acreditam que já estamos num ambiente de Terceira Guerra Mundial, sendo a Primeira Guerra a da fase nacionalista do capitalismo, a Segunda Guerra da fase imperialista e esta agora a fase “globalizada” do capitalismo, onde as guerras são realizadas por guerreiros “proxies”, mercenários e grupos fascistas, no que é de fato uma terceirização da guerra mundial. Em sua fase “branca” ou “fria” essa guerra conta com a cooptação do aparelho judiciário e financeiro de economias nacionais. É o caso indubitável do Brasil.

Diante de um quadro desfavorável desses, temos que retornar mais uma vez à célebre pergunta de Lênin em 1905, o que fazer? Lembrando, no entanto, que esta pergunta é um passo elementar da própria marcha das esquerdas. Pois é preciso pensar que a transformação histórica avança na ação de luta das esquerdas, já que o papel da direita está definido de antemão como sendo sustentar o status quo e cuidar que tudo mude para que nada mude. O caminho da esquerda é sempre aberto, um caminho de ampliação dos horizontes, enquanto a direita se incumbe de seu estreitamento. Por isso, a esquerda está sempre diante de encruzilhadas históricas e na angústia frente a um campo múltiplo de alternativas. E, por essa razão, divide-se, fraciona-se, em miríades de tendências conflitantes e mutuamente polêmicas.

Para responder seriamente a pergunta de Lênin na conjuntura atual é necessário primeiramente abandonar totalmente o moralismo culpabilizante e ahistórico. Se é certo que o pacto de conciliação de classes proposto pelo PT em 2002 pela Carta ao Povo Brasileiro ruiu inexoravelmente depois de 14 anos de governo, até que ponto podemos colocar toda responsabilidade única e exclusivamente no Partido dos Trabalhadores? Há duas considerações aqui que devem ser evitadas: a primeira, formulada mais uma vez por Vladimir Safatle, é supor que a política de conciliações e coalizões realizada pelo PT é rigorosamente igual à de seus adversários históricos tucanos, uma conciliação pelo “andar de cima”, entre elites e oligarquias. Aqui, a honestidade precisa pesar: a política de coalizações é um problema do Estado Brasileiro pós-ditadura que de fato precisa ser revista por uma ampla reforma política, mas a estratégia de enfrentar esse problema pelo PT foi completamente diferente dos governos anteriores: para a política de coalizações de Estado o Partido dos Trabalhadores trouxe a novidade da negociação baseada nos pactos sindicais. Com certeza, Lula teve mais facilidade para lidar com essa lógica do que Dilma dada sua origem sindical. Essa experiência funcionou bem por pelo menos uns 10 anos, permitindo o aumento significativo do salário mínimo e os maiores acordos trabalhistas por parte dos funcionários públicos e trabalhadores estatais, ambos setores com movimentos sindicais fortes. E o aumento salarial dessas categorias trouxe para cima os pisos de todas as outras, como também o piso previdenciário. Foi afinal ação de Dilma transformar o ganho real do salário mínimo em lei de Estado.

Devemos lembrar inclusive que o PT foi a segunda experiência a nível mundial de um partido de viés sindical chegar ao poder (a outra foi a experiência do Solidariedade Polonês de Lech Walesa nos anos 80-90). Curiosamente, foi o próprio Lênin em seu livro de 1905 que já criticava essa estratégia, chamada por ele de “unionismo”, como sendo de fôlego curto. Para ele, quando os sindicatos chegassem ao poder, se interessariam por pactos imediatos com os setores patronais e abandonariam toda a luta por transformações sociais mais profundas. Com isso ele justificava a liderança do Partido Vanguardista, que encabeçando a luta de classes guiaria a classe operária para a revolução. Voltaremos a esse ponto adiante.

O segundo ponto a se evitar é o julgamento de que outra esquerda mais radical, caso chegasse ao poder, faria diferente e seria capaz de governar o país sem o pacto de conciliação. Em primeiro lugar, claro, esse é o tipo de julgamento que é impossível de ser demonstrado. Só num experimento mental, poderíamos pensar o que seria um governo de Luciana Genro, caso ela tivesse sido eleita em 2014. Se um governo muito mais moderado e considerado por seus críticos de esquerda como “neoliberal” como o de Dilma Rousseff está sendo impedido, o que aconteceria num governo mais radical com muito menos apoio popular e com muito menos presença parlamentar? Lembrando inclusive que a única prefeitura do PSOL, em Itaocara, também recebeu um processo de impedimento, tendo sido afastado o Prefeito, mas que depois retornou. Isso nos leva a uma segunda reflexão crucial: como uma esquerda de perfil mais radical pode chegar ao poder sem um apoio popular massivo, isto é, sem uma política de massas? Esta é a questão mais fundamental a ser enfrentada pelas esquerdas, no momento: a crítica à política de conciliação não pode ser realizada sem antes uma reflexão severa de como a esquerda irá ganhar corações e mentes populares para se manter no poder e resistir a ataques orquestrados e violentos das elites nacionais e internacionais.

Por isso, a reflexão deve iniciar rememorando a travessia histórica que fez do PT um partido popular de massas e o fez sair vitorioso em quatro pleitos presidenciais. Podemos começar retornando a meados dos anos 80, na luta pela redemocratização, um período que guarda semelhanças com o momento atual. A tal ponto são semelhantes que não é impróprio imaginar que o ciclo que ora termina tenha começado naquele momento, em particular na campanha das Diretas Já.

O que mais aproxima aquela época desta, no campo das esquerdas, é justamente a ausência naquele momento de um discurso hegemônico em seu interior. Após o retorno à legalidade de muitos partidos, bem como o surgimento de muitos outros novos, inclusive o próprio PT, não estava clara ainda a liderança de nenhum movimento de esquerda. O Partido dos Trabalhadores naquele momento surgira há três anos e era ainda um agrupamento de diversas tendências. Havia também outros partidos que disputavam o campo, desde o Partido Comunista (PCB), o Partido Socialista (PSB), ambos anteriores à Ditadura e o PTB (trabalhismo varguista sem Brizola). Entre os novos, havia além do PT, o PDT (trabalhismo varguista com Brizola), o movimento social-democrata representado pelo PSDB, que naquele tempo também reivindicava uma participação de esquerda, e o movimento ambientalista, representado pelo nascente Partido Verde. Era, portanto, um momento de pluralidade dos movimentos de esquerda, um período rico de tendências e de lutas, onde a principal era o retorno à democracia eleitoral (para o Executivo Federal) e por uma nova Constituição. Sabemos que o movimento Diretas Já foi derrotado (a eleição só aconteceria cinco anos depois), mas a Carta Cidadã de 88 foi uma grande vitória dos movimentos políticos pela redemocratização.

A horizontalidade e a pluralidade dos movimentos de esquerda, com ampla participação popular e cultural, se devia sobretudo porque justamente não estava ainda claramente definida uma aposta de hegemonia. Ao recapitular a história, concluímos que o primeiro turno da eleição presidencial de 1989, cuja passagem ao segundo turno foi disputada voto a voto por Brizola e por Lula, era justamente uma disputa por hegemonia de esquerda, ganha pelo segundo. O Partido dos Trabalhadores foi o vencedor talvez porque naquele momento era ainda um partido mais horizontal e diversificado do que o PDT, fortemente radicado na figura personalista do Engenheiro.

Foi aproveitando a brecha aberta pelo impedimento de Collor e a oportunidade do Plano Real que o PSDB atravessou pela margem a disputa entre os demais e chegou ao poder. O governo de FHC foi o que todos conhecemos, uma capitulação completa à ideologia neoliberal, então dominante nos anos 90, pós-Muro de Berlim, alavancando um projeto de redução do Estado através de privatizações, imposição da lógica do rentismo, alienação do patrimônio público, aumento de desemprego, avanço sobre direitos trabalhistas, etc. No poder, o PSDB simplesmente abandonou qualquer estratégia de disputa de hegemonia de esquerda, tornando-se inapelavelmente até os dias de hoje um partido da ordem com uma agenda fortemente direitista.

Por sua vez, o PT teve que perder mais duas eleições, até vencer em 2002, logo após a Carta ao Povo Brasileiro, para conquistar a hegemonia das esquerdas brasileiras. Não iremos repetir aqui mais uma vez a ladainha das “conquistas petistas”, nem relembrar o malfadado mensalão. O que importa observar é que a partir de 2002, o PT consolidou sua hegemonia no campo das esquerdas o que o levou a quatro vitórias em pleitos presidenciais e o apoio de milhões de brasileiros. De um partido sindicalista passou a um partido de massas popular. Essa transformação está clara na mudança de figura de seu próprio líder: em 1989 considerado um sindicalista semialfabetizado de fala grossa, não amistosa, capaz de meter medo nas elites e desconfiança no povo (o que pesou em sua derrota para Collor), para o líder popular e um dos maiores oradores de nossa história. A figura de Luiz Inácio tornou-se mais forte do que a do seu partido e houve mesmo um deslocamento entre ambos a partir do fenômeno do Lulismo.

Os críticos do PT quase sempre se esquecem de que o Lulismo é um fenômeno diferente do petismo e que houve um distanciamento entre ambos sobretudo com o fenômeno do mensalão. Isso certamente pesou na escolha de Lula por Dilma como sua sucessora, pois a Presidenta sempre foi uma persona estranha dentro do partido, sendo aliás oriunda do PDT e do grupo de Brizola. No seu governo, Dilma nunca chegou a criar um movimento populista com sua cara (que, no entanto, parece surgir após seu afastamento) e ficou sempre à sombra do Lulismo. Claramente, tentou tanto se desvencilhar de seu mentor, como do partido. Em 2014, durante a campanha da reeleição, companheiros de governo e de partido iniciaram um movimento denominado Volta, Lula, claramente destinado a ser um “golpe branco” dentro do governismo, clamando pela indicação de Luiz Inácio em vez do cumprimento do segundo mandato de Dilma. Não se sabe até hoje porque o movimento não foi para frente, talvez porque o próprio ex-Presidente o tenha desestimulado, a verdade é que esse movimento ajudou a distanciar ainda mais a Presidenta de seu partido, situação que se agravou com a proposta do ajuste fiscal. O isolamento de Dilma em seu próprio partido é com certeza um dos elementos de sua fragilidade institucional e do golpe em curso.

Após as manifestações direitistas verde-amarelas de 2015, que ajudaram a criar o caldo ideológico para o golpe, o movimento popular de 2016 parece caminhar por outra via. Iniciando pelas ocupações secundaristas de escolas públicas em São Paulo, ainda em 2015, e no Rio de Janeiro em 2016, e depois com manifestações políticas de nítido caráter esquerdista em 2016, o ano corrente parece recuperar a energia política de esquerda esquecida desde 2013. Para isso colaborou a formação de duas grandes frentes políticas ainda no final de 2015: a Brasil Popular, englobando organizações com forte presença de “governistas”, tais como CUT, UNE e MST, e outras mais inusitadas como o Partido da Causa Operária que sempre fez oposição ao PT, e a CTB, Central Sindical opositora da CUT; e a Frente Povo Sem Medo, liderada sobretudo pelo PSOL e pelo MTST, mais próxima dos diversos movimentos sociais à margem do governismo. Ambas as frentes assumiram o mote do “Não vai ter golpe”, mas a segunda frente adicionou o mote interessante de “Saída pela esquerda”. O mais importante desse movimento de dupla frente é que embora com perspectivas diversas do cenário, ambas fizeram várias manifestações em conjunto, e conversam entre si sem atritos realmente relevantes. Com o recente afastamento da Presidenta, a partir da votação da admissibilidade no Senado, somaram-se ao movimento as diversas ocupações de prédios públicos, sendo a mais visível, as ocupações dos prédios do extinto e depois renascido Ministério da Cultura.

O cenário de 2016 é de revitalização política dos movimentos de democratização que em sua variedade e horizontalidade lembram o cenário de meados dos anos 80. Mesmo a Presidenta, após seu afastamento, parece ter sido cooptada por essa efervescência, dando início ao seu deslocamento final do Lulismo, provavelmente fazendo nascer um possível “Dilmismo”, que seria um populismo de esquerda feminista. Essa possibilidade está aberta e não parece estranha. Mas o que dá um tom definitivo de fim de ciclo ao momento atual é estarem todos os movimentos e partidos de esquerda de volta a um típico cenário sem hegemonia, sem liderança de nenhuma tendência especial, cenário que podemos denominar de “pós-hegemônico”. Creio que há a certeza de que o período de hegemonia petista terminou definitivamente e mesmo com o retorno de Dilma Rousseff ao governo e a provável formação de um movimento “Dilmista” em torno de sua pessoa pública, este não será mais um retorno à hegemonia petista.

A questão premente que surge então é a seguinte: haverá uma nova hegemonia a ser construída ou disputada, ou entramos num ciclo estruturalmente diferente que se organizaria de outras formas não hegemônicas? Essa é a questão teórico-prática crucial que precisa ser enfrentada. Para respondê-la, no entanto, precisamos entender o que vem a ser o conceito de hegemonia. Aqui não há espaço para uma ampla discussão teórica desse termo caro à teoria histórica marxista, mas tentaremos resumi-lo para chegar à tese final propositiva deste ensaio.

Hegemonia vem do termo grego Hegemon, o líder. Hegemonia quer dizer a disputa pela liderança. Na teoria de Gramsci, o termo significa a forma como uma classe subalterna incorpora os valores da classe dominante. Mas para Gramsci, a luta pela hegemonia cultural era um passo importante para avançar a luta de classes. Embora tenha haurido o conceito de Lênin, Gramsci usa a noção de hegemonia para relativizar a ideia de vanguarda revolucionária do russo. Se para Lênin, o partido de vanguarda guiaria a consciência da classe operária, pelo conceito de hegemonia cultural Gramsci vê esse processo mais matizado através de uma “guerra de posições” no interior do Estado, em busca de uma progressiva hegemonia ideológica. Nos anos 80, o teórico argentino Ernesto Laclau e a belga Chantal Mouffe deram a esse conceito um direcionamento totalmente peculiar. Numa situação de pluralidade de lutas sociais, onde a consciência da classe trabalhadora não se unifica, pois está esgarçada em múltiplos interesses, a hegemonia é o processo contingente onde uma causa é elevada a uma posição hegemônica e passa a unificar a luta contra um sistema dominante. Essa causa contingente é o que os teóricos chamaram de “significante vazio” (por exemplo, “Diretas Já”) que acaba reunindo em si a universalidade de todas as lutas num momento histórico.

No campo das esquerdas, a luta pela hegemonia é a luta por quem irá liderar uma determinada frente. O PT se adaptou perfeitamente a essa lógica, pois a utilizava internamente para decidir os conflitos entre as inúmeras correntes que continha dentro de si e que de fato lhe davam a vitalidade de um partido de esquerda. Ao longo do tempo, a luta pela hegemonia passa a ser dominada por uma corrente majoritária que se torna quantitativamente mais influente do que as demais. Justamente, no PT a corrente que dominou todos os direcionamentos do Partido durante os anos de governo chamava-se com propriedade de “Corrente Majoritária”. O problema é que esse processo causa uma degradação na própria ideia do que é a luta por hegemonia: de uma luta entre ideias ou causas, passa a ser uma luta por maioria.

O PT também se serviu da luta hegemônica externamente em relação aos movimentos sociais através da estratégia do “agasalhamento”: tratava-se de apoiar movimentos tais como a CUT, o MST e a UNE a partir de sua própria liderança. Fez isso também com os partidos, tais como o PCdoB. O agasalhamento, por um lado fortifica a maioria do Partido tanto interna como externamente, em termos eleitorais e em termos de presença ideológica de representação pelo trabalho de base dos movimentos associados, por outro lado promove uma cobertura política e institucional a tais movimentos sociais que lutam no interior da sociedade civil, mas que só através do partido majoritário de esquerda conseguem penetração nos aparelhos de Estado. No entanto, abdicam da independência ou autonomia de suas propostas sociais pois passam a estar vinculados crescentemente aos direcionamentos do partido majoritário. E assim aquilo que era autonomia vai aos poucos se tornando “reboquismo”.

Voltando então à questão que nos detínhamos: podemos imaginar que após esse golpe, caso se concretize a saída de Dilma, ou caso mesmo ela consiga reverter o processo, o PT será capaz de recuperar a sua hegemonia, claramente perdida no processo? Haverá um sucessor para essa vaga hegemônica? Ou estamos indo para um período pós-hegemônico onde não haverá mais uma liderança numa frente de esquerda?

É certo que a questão está em aberto. Num momento de crise como este são praticamente inúteis as previsões. Gostaríamos, no entanto, para terminar este artigo de aventar uma hipótese: a de que estamos nos dirigindo para um período não mais marcado pela disputa por hegemonia. Há duas razões fortes para acreditar nesta tese. A primeira é a percepção de que os movimentos sociais contemporâneos, que neste ano de 2016 mostram todo seu vigor, não desejam mais ser “agasalhados” por um partido hegemônico. Eles querem manter sua completa autonomia e identidade e lutar por suas causas sem serem acobertados por um partido maior. A segunda razão é que não há nesses movimentos mais a prerrogativa de se tornarem majoritários para conseguirem ser atendidos ou ouvidos. Já não estão mais interessados numa relação de força quantitativa, mas qualitativa. Não precisam ser maioria para que suas causas sejam relevantes ou importantes socialmente.

No entanto, para os partidos que atuam dentro da representação política institucional, a questão quantitativa continua sendo essencial para ganhar uma eleição ou conquistar vagas no Parlamento. Chegamos a um impasse? Como conciliar autonomia das bases e necessidade de ter maiorias representativas? A primeira observação mais imediata é que se tratam de esferas diferentes, já que a representação institucional age sempre como um filtro e os movimentos não precisam passar por esse crivo. Porém, essas esferas, embora distintas, não podem se separar radicalmente. Aliás, é justamente esse afastamento que é um dos maiores problemas de nosso Estado atualmente.

É preciso não apenas construir uma Frente suprapartidária, mas também compor com os movimentos. Este é o desafio que se impõe. E o termo “compor” nos parece apropriado. Pois se a lógica hegemônica vai se tornar inoperante, outras estratégias de alianças se tornarão necessárias. A questão será realizar composições entre movimentos e partidos sem que nenhuma das partes pleiteie liderança e que todos os participantes da Frente se introduzam com a autonomia e integridade de suas causas. Na verdade esta será a questão real que as novas Frentes terão de lidar de um jeito ou de outro. Alianças em vez de coligações, autonomia de lutas em vez de agasalhamento. Uma lógica de composições no lugar de uma lógica de hegemonia. Para os dias, meses e anos à frente, teremos algumas boas e belas experiências de aprendizado por uma política realmente nova e potente.

 

1. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=w5TGH1-JDlo

 


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Comentários

walter tabax

07 de Julho de 2016

Sinto muito, mas não dá. Há crônicas, ensaios, teses e dissertações. Estamos entupidos de leituras e já sabemos que o tamanho de texto é inversamente proporcional ao seu número de leitores. Desde os jornais marxistas de textos incalculáveis até hoje, parece que a síntese não se ajusta. Certamente é um excelente texto, mas pede um tempo que poucos tem. Pena. Talvez na próxima.

Petrus

26 de Julho de 2016

Que lunático, nunca vi tanta bosta junto num texto só.

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