Não é a Lava-Jato: é a Polícia Federal

  • 30 de Maio de 2016

Por Wilson Azevedo*

Quem vai controlar e subordinar a PF? Esta é a real preocupação dos que se sentem por ela ameaçados e buscam tirar o PT do governo.

A Lava-Jato já foi irremediavelmente melada pelo Ministério Público Federal do Paraná. Em no máximo 4 anos as principais condenações, sobretudo de riquíssimos sócios, donos e dirigentes de empreiteiras, estarão anuladas, todos eles recorrendo nas instâncias superiores em liberdade.

Foi melada quando a primeira delação foi vazada para a imprensa. Bastava um vazamento pra melar a operação. Foi o que aconteceu antes com a Operação Sathiagraha. Procure no Google. Nela foram presos o mega-especulador Nagi Nahas, o ex-prefeito de S. Paulo Celso Pita, e o banqueiro bandido Daniel Dantas. Pouco antes de sair para prendê-los, o delegado que chefiava a operação ligou para um jornalista e avisou. As câmeras da Globo com exclusividade registraram e exibiram depois em horário nobre as cenas das prisões.

Poucos anos depois toda a operação foi anulada. Todas as provas colhidas foram declaradas nulas por ter sido quebrado o sigilo das investigações. As condenações obtidas na primeira instância foram anuladas. E o delegado responsável foi expulso da PF. Como fora antes responsável pela prisão de traficantes, contrabandistas e corruptos, e vivia sob constante ameaça de morte, mês passado obteve asilo político na Suíça. Sem a proteção do cargo e sem o porte de arma, comprovou que corria risco de vida no Brasil e os suíços o acolheram.

Então bastava um vazamento para melar a Lava-Jato do mesmo jeito. Mas o que tivemos ao longo destes 2 anos foi uma peneira de vazamentos contínuos. Para assegurar a anulação futura das condenações de primeira instância o Ministério Público Federal do Paraná caprichou.

Pouco depois da votação na Câmara que aprovou a abertura do processo de impeachment circulou a noticia de que o marido de uma deputada que havia votado a favor do impeachment na noite anterior fora preso poucas horas depois, pela manhã, pela Polícia Federal, na operação Máscara da Sanidade II.

Nunca tinha ouvido falar desta operação? Muito menos da Máscara da Sanidade I? Pois é: a posse de Lula em 2003 marcou um antes e um depois na história da Polícia Federal. Nos governos Lula e Dilma, a PF passou pela maior transformação de toda sua história, com a contratação de mais de 5 mil novos agentes, investigadores, delegados e técnicos, também a maior de sua história.

Resultado: o volume de operações da PF especificamente de combate à corrupção foi batendo record ano após ano. Em 2002, relatório da PF apresentava um total de 37, sendo 11 especificamente de combate à corrupção. Se você quiser conferir, este relatório está publicado no site da PF: http://www.pf.gov.br/institucional/relatorio-anual-pf/RA%202002.ppt/view

Hoje o número anual gira na casa dos 300. Pode conferir as estatisticas no site da PF: ano passado foram 331, em 2014 foram 336. Mais de 200 por ano especificamente de combate à corrupção.

Ou seja, durante os mais de 2 anos da Lava-Jato a PF realizou quase 700 outras operações das quais nem você nem eu ouvimos falar. Quase 500 outros esquemas de corrupção foram alvo da PF neste tempo e você nem ficou sabendo que eles existiam.

O motivo é claro: a censura à informação praticada pela grande imprensa. O site da PF não esconde nada, está tudo lá: http://www.pf.gov.br/agencia/estatisticas/operações

Mas na imprensa elas não ganham destaque. Por isto você fica com a impressão de que só tem a Lava-Jato e mais uma ou outra operação.

Mas são mais de 200 por ano. Praticamente uma operação de combate à corrupção a cada dia útil! Compare com 2002: pouco mais de 10 naquele contra mais de 200 no ano passado. Cresceu 20 vezes em 13 anos!

E você achando que o grande medo dos políticos que votaram a favor do impeachment seria a Lava-Jato e o juiz Moro...

Em nenhum outro governo a Polícia Federal cresceu tanto, quer em tamanho, quer em volume e eficácia de operações. Em nenhum outro governo a PF teve tanta autonomia para investigar quem quer que seja.

Não era assim antes da posse de Lula em 2003. O diretor geral da PF no governo da alianca PSDB+PMDB+DEM, que agora voltou a ser governo sem ganhar eleição, invadindo o Planalto pela janela impeachment, foi Agílio Monteiro Filho, filiado ao PSDB de MG até hoje. Concorreu a deputado estadual agora em 2014 mas não foi eleito. Inacreditável, não? Pois pode conferir: http://www.eleições2014.com.br/delegado-agilio-monteiro/

Dá pra imaginar a autonomia que a PF tinha naquele período para investigar corrupção no governo? Chefiada por um homem do partido do presidente, devidamente aparelhada e controlada pelo partido.

É deste tempo que este pessoal tem saudade: do tempo em que a PF simplesmente não operava, não combatia a corrupção porque não tinha pessoal suficiente para operar e era aparelhada pelo partido do presidente.

É o controle da PF que no fundo está em jogo.

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* Wilson Azevedo é diretor da Aquifolium Educacional. Possui formação em Filosofia e Antropologia Social e atualmente cursa o doutorado em Educação a Distância e eLearning na Universidade Aberta (Portugal).


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