Manifesto dos Atingidos

  • 05 de Junho de 2016

Hoje, dia 5 de junho, Dia Mundial do Ambiente, completam-se sete meses do crime que destruiu distritos de Mariana e assassinou o rio Doce em toda a sua extensão. Além disso, a lama de rejeito de minério invadiu o mar de Regência, um criadouro especial de tartarugas marinhas, e atacou Abrolhos, um dos principais locais de preservação marítima do nosso país.

Segundo parecer do Ministério Público de Minas Gerais, a lama ainda desce e a Samarco, Vale e BHP Billiton nada fazem para parar essa poluição recorrente e duradoura. No que tange à punição penal, absolutamente nada foi feito. Ninguém foi preso e o povo de Bento Rodrigues e Paracatu vivem à margem na espera da solução dos seus problemas.

A atuação de movimentos sociais como as do Movimento Jornal A Sirene e o trabalho do MAB que reivindicam de maneira forte e contundente a recuperação de Bento e da autoestima dos moradores de lá, que, segundo informações de informações de jornalistas que vivem em Mariana que a própria população do local age com discriminação com os habitantes das vilas extintas. Dizem que o povo de Bento nunca teve nada e agora quer tudo. Que eles estão ‘abusando’ da ‘boa vontade’ da Samarco de ‘dar’ um terreno novo para eles. A situação é drástica, de extremo ódio e preconceitos.

Como diz a nossa Carta Cidadanista, “a lógica de reprodução e lucro não prevê limites, extraindo tudo e todos à sua frente, incluindo sonhos”, foi isso que a Samarco fez e faz, a sua sede por capital, para o agrado de acionistas, de debenturistas e por grandes bônus a diretoria, faz passar qualquer limite de humanidade, o seu minério, que hoje se transforma que veículos, casas, eletrodomésticos e/ou qualquer coisa que use desse metal, é um minério de ferro-sangue. É um minério de morte, de devastação.

A ridicularizarão da Vale e a Samarco sobre a atual situação é insustentável. Em suas redes sociais publicam diariamente enquetes e textos irônicos que tentam promover a empresa em detrimento de todo o mal que elas fizeram com o crime consumado e não criminalizado. Querem inverter a situação, de vilão, querem virar mocinhos. Os diretores, engenheiros e presidentes dessas empresas deveriam estar na cadeia e não brincando com uma realidade trágica que eles mesmos promoveram.

Em Governador Valadares, município de Minas Gerais, os problemas também são enormes. Ninguém confia em tomar a água tratada pela autarquia que cuida disso no município. A maioria da população só bebe água mineral, o que encarece e muito a vida de todos. Os pescadores não podem mais exercer o seu ofício e diversas espécies sazonais que só existem no Rio Doce foram completamente extintas. Lembrando que o crime ocorreu na época da piracema. Se um pescador pesca um peixe durante esse período, ele vai preso. A Samarco, Vale e BHP mataram espécies completas e nada ainda aconteceu.

Os indígenas que rodeiam toda a extensão do Rio Doce também passam por profundas dificuldades, considerando que o dano ao meio ambiente limita a subsistência das tribos. E água eles não têm mais. Nem para tomar banho, para pescar, para se divertir e para se higienizar. Ainda em Valadares, todos os órgãos públicos, incluindo hospitais e escolas, só oferecem a água tratada pela autarquia municipal. Alguns pais de estudantes das escolas municipais passaram a levar água mineral para que os seus filhos não tomassem dessa água. Além disso, o valor nas contas de água aumentou consideravelmente, comprometando ainda mais a subsistência da população de baixa renda.

Foram mais de uma tonelada de peixes mortos e os governos federal e estadual ainda tiveram a coragem de fechar um acordo completamente questionável para favorecer essas empresas criminosas em detrimento do povo, demonstrando com clareza que ficamos em segundo plano perante o grande capital. De acordo com o Ministério Público, são precisos mais de 155 bilhões de reais para recuperar tudo que foi afetado e assassinado. Mas o governo pediu menos de 20 bilhões.

Nesta conjuntura, a PEC 65/2012, proposta por um Legislativo conservador e corrupto, que é a extinção do licenciamento ambiental é mais um soco na cara da sociedade brasileira. O que prova a defesa dos nossos governantes pelos interesses da burguesia e não da sociedade em si. Lembrando que o rompimento da barragem ocorreu também por falta de análise e fiscalização por parte dos órgãos públicos responsáveis por isso.

Em Regência, litoral do Espírito Santo, onde o Rio Doce encontra com o mar, a lama afeta diretamente a reprodução e vida das tartarugas marinhas, espécies que estão perto da extinção em nosso país. Além disso, a cidade vive do turismo e do surf. Agora ambos não existem mais e a população inteira da vila não tem como mais conseguir dinheiro para garantir a sua sobrevivência. Tudo isso com a Samarco, Vale e BHP dando mais socos na nossa face. A Vale foi a empresa brasileira que mais lucrou no primeiro trimestre de 2016. 3,3 bilhões de reais. Porém, é mais viável a seus interesses mercadológicos o investimento em propaganda do que sanar as feridas que ela abriu em nossa terra.

É preciso sair da zona de conforto e partir para a luta. Tudo caminha para que as coisas se mantenham como estão. Nada de concreto foi feito até agora e provavelmente não vai ser. Precisamos tomar atitudes fortes e radicais para podermos ao menos incomodar essas empresas. Em Valadares, por exemplo, milhares de pessoas entraram com processos pessoais de danos morais contra a Samarco. Todos foram deferidos pela justiça. Também foi realizada a Caravana Territorial Rio Doce que rodou todas as cidades afetadas pelo crime sócio-ambiental e terminou com uma manifestação aqui em Valadares. Muito bem aceita pela população que pedia junto com os movimentos sociais que o problema fosse resolvido e os bandidos responsabilizados.

O nosso Rio Doce está assoreado, Valadares corre risco de entrar numa seca nunca antes ocorrida na cidade por conta disso, a população de Bento e Paracatu sofre diariamente com violências e sem a certeza de que vão ter a vida normal de volta, o povo de Regência não tem como sobreviver mais sem o dinheiro do turismo, os pescadores e índios estão sem saber o que fazer, a nossa natureza foi assassinada. E, enquanto isso, a Vale, Samarco e BHP continuam lucrando bilhões por ano, sem ninguém pagar nada, sem ninguém ir para a cadeia e sem resolver nada. Do alto de seus escritórios, do conforto de suas poltronas, de seus finos ternos, nada vêem, ouvem ou sentem o que sentimos. A água que bebem não tem gosto de lama para lembrá-los do crime que cometeram.

Se nós brasileiros não fizermos nada, ninguém vai fazer. Precisamos agir em várias frentes. Manifestações, parar o trem de minério, entrar com milhões de processos contra as empresas, exigir por meio de ações populares a atuação mais forte do Ministério Público para que a lei valha de fato. Se a gente continuar na nossa zona de conforto, sem nada fazer, tudo vai continuar do mesmo jeito e o maior crime sócio-ambiental da história do Brasil vai acabar em pizza, como em todos os crimes do colarinho branco que ocorrem por aqui.


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