IMPEACHMENT – entre a Euforia e a Lucidez

  • 18 de Abril de 2016

Por Walter Tabacniks*

Um pensamento eufórico nos faz crer que um jogador espetacular além de um histórico de uma nação com 5 títulos mundiais é o suficiente para considerar o futebol brasileiro o melhor do mundo. Da mesma forma que a euforia nos fez acreditar que o hexa campeonato já estava garantido. Euforia (do grego euphoros, "eu" = bem e phoros = o que carrega) é um sentimento de alegria e bem-estar experimentado em circunstâncias que envolvem diretamente o indivíduo ou que ocorrem no ambiente. Significa a capacidade de aguentar facilmente. Utilizado pela primeira vez em 1875 para referir-se ao contentamento experimentado pelos viciados em morfina, deixa claro sua leviandade.

O que vimos acontecer na eleição do Impeachment pelo Congresso Nacional foi em geral um momento de euforia. Em alguns talvez devido a substâncias semelhantes à morfina (bastante queridas no mundo da política), noutros pela própria significação histórica de seus atos. Não importa, não deixa de ser euforia.

Se euforia fosse medida para se escrever a história, a Independência com Tiradentes teria ocorrido. Hitler teria sido um herói nacional. O Estado Islâmico teria sido a benção que faltava ao mundo para resolver os conflitos do Oriente Médio. A euforia é o cachimbo de crack que nos tira a percepção da fome. O sentimento de fome é pleno, duradouro, fisiológico e dura horas, dias, meses. Basta 3 ou 4 tragadas em uma pedra milagrosa que em segundos o longevo estado de fome desaparece. Esta é a euforia que nos faz crer que um impeachment salvaria o Brasil da inépcia, “em nome dos x desempregados, em nome da economia estagnada, em nome da Bíblia ou de Deus, do Coronel Ustra e de minha família, meus filhos, minha cidade, meu estado e meu neto que vai nascer” e outras invocações estapafúrdias que serviram como justificativas eufóricas de seus atos.

A lucidez (do latim Lux – luz) demora mais para acontecer. Os 10 segundos de euforia desaparecem. Uma lucidez se constrói devagar, leva horas, dias ou até meses para se formar e acaba nos provando que uma preparação por anos de um time unido, coeso, com práticas não só futebolísticas, mas também sociais, de boa conduta, de empatia geram um futebol melhor e a lucidez nos colocou de volta em nosso lugar ao perceber que a derrota de 7 x 1 foi muito mais que uma derrota. Foi dizer que o futebol brasileiro perdeu seu comando, seu foco, sua unidade e sua vibração. A lucidez tira a fumaça do cachimbinho eufórico e permite a visão mais profunda.

Hitler não é um salvador; o E.I. é um grupo de pessoas alucinadas que tem atitudes inenarráveis perante o ser humano ou mesmo seus lares. Não poupa crianças, mulheres, nada. Para eles, a vida é tão efêmera quanto a morte. A história nada significa. O espaço é nulo. Vale a euforia diária de estar na mídia e ter uma reivindicação inexplicável para atos sanguinários. Esta definição é resultado de um pensamento lúcido.

É necessário refletir além de diversos vetores para perceber a força do todo, a força da essência e da consistência de uma força política. A lucidez nos provou que a Inconfidência Mineira fracassou, feliz ou infelizmente (isto já é outra história). A lucidez apaga o excesso, tira as plaquinhas, as bandeiras, os discursos irrelevantes, a poeira cósmica e deixa apenas o essencial: o foco, a razão e a lógica. Quando a lucidez ocorre, poucos querem sair de seu estado letárgico eufórico, pois ela nos lembra que temos fome. A lucidez acaba com a zona de conforto virtual e obriga a pessoa a repensar seus atos. Precisa jogar fora a droga que o sedou. A TV que lhe contou lorotas e mostrou imagens paradisíacas. A droga que veio embalada dentro de revistas com frases e super-messias espetaculosos. Tudo isto é confete e serpentina. Quando cessa esse festival de luzinhas e paetês a lucidez nos faz ver rostos manchados de tristeza e solidão. Pessoas que não querem crer que a festa acaba e que todo barato tem fim.

O impeachment é eufórico hoje. No dia que for refletido com lucidez será mais uma mancha que nossa nação irá carregar junto com outros erros e poucos acertos. Mas só assim se faz história. Igual a um bebê que teima em querer andar e fica eufórico ao dar um passo, cai e percebe que ainda não está pronto. A lucidez existe para isso: aprender a andar. E só se aprende levando tombos. O que vimos acontecer no congresso com mais de 40% de parlamentares respondendo a processos de crimes cometidos é um tombo de uma parcela de sociedade que em sua euforia não percebe o tombo que levou. Quando começar a doer, a lucidez aparece para lembrar necessidades mais profundas e prioritárias.

Mas não tem como voltar atrás. O tombo já aconteceu. Se... tivesse prestado mais atenção, se... tivesse pensado antes, se... tivesse se informado melhor, enfim, esta conjunção subordinativa condicional tenta redimir atitudes que deveriam ter sido evitadas. Serve para o aprendizado da nação. Mas será que este período escolar nunca acaba? O brasileiro nunca será adulto para exercer plenamente a lucidez de seus atos? Vai viver até quando neste estado vazio de euforia?

*Walter Tabacniks é jardineiro da RAiZ - Movimento Cidadanista e integrante do GT de Polinização do partido-movimento

 

mais informações sobre Euforia e Lucidez:

  • Euforia, em sua origem grega pode ser lida como o estado daquele que é portador de um bem ou do Bem. Nos tempos antigos nos cultos à Dioniso especialmente, havia êxtase e euforia nos ritos de integração do homem com a natureza, simbolizado pela narcose proporcionada pelo vinho. Dioniso é o deus do patológico (pathus, paixão), da embriaguez, da euforia, da desmedida, da ilusão e das epifanias. Ele tem tanto um lado destrutivo quanto criativo. É um deus ou uma pulsão (ou como Nietzche o via em seus primeiros escritos) que da mesma forma que nos desvia daquilo que achamos que sabemos, também destrói, seja pela violência ou pela alegria inebriante. É um princípio que nos faz perder a individualidade e nos dilui no coletivo.
     
  • Lucidez, como portadora da luz, por sua vez, nos remete ao oposto complementar grego de Dioniso que é Apolo. É o Deus do sonho, da harmonia, da ordem, da beleza e da individualidade. Assim como o lado dionisíaco ao mesmo tempo que destrói também proporciona a revisão de toda ordem para se criar o novo, o apolíneo possui dois lado. A pretensão da verdade, muitas vezes, nos faz crermos deter a luz sobre algo quando, na verdade, é a própria luz que cria um contraste que distorce a realidade. Vale lembrar o ensaio de José Saramago sobre a cegueira. Luz demais também cega. Ela cria a ilusão de uma única realidade quando esconde boa parte dela a partir dos contrastes que cria. O outro lado que não está banhado pela Luz parece-nos não existir, e nos confortamos com a ordem aparente daquilo que a luz atinge. Por isso Apolo é o deus da aparência, da beleza, da estética que acaba se confundindo com a ética.

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