Hora da Verdade

  • 15 de Dezembro de 2015

por Rubens Sallespor Rubens Salles - 

Segundo o Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica, atualmente, 147 grupos controlam 40% do capital corporativo mundial, sendo três quartos deles bancos, intermediários financeiros e não produtores, e que continuam em uma espiral desenfreada de acumulação de capital. Além disso, nos paraísos fiscais estão guardados mais de 20 trilhões de dólares de recursos não declarados, um terço do PIB mundial, sem gerar impostos, e, consequentemente, benefícios sociais. Hoje estamos vivendo o efeito da extrema concentração de riqueza, que, segundo o economista Ladislau Dowbor, já atingiu níveis obscenos. “Quando uma centena de pessoas são donas de mais riqueza do que a metade da população mundial, enquanto um bilhão de pessoas passa fome, francamente, achar que o sistema está dando certo é prova de cegueira mental avançada. Um sistema que sabe produzir, mas não sabe distribuir, é tão funcional quanto a metade de uma roda”(1).

No Brasil, este capital predatório tem um campo fértil para continuar se acumulando. Aqui, os bancos cobram de juros por mês mais do que o cobrado por ano na Europa, e nossos vários governos, há décadas, aceitam esta situação. Porque será? Pequenas e médias empresas vão sendo engolidas, “internacionalizadas”, grandes redes multinacionais sufocam os empresários locais, bancos locais desaparecem, e o capital vai se concentrando cada vez mais nas mãos de cada vez menos pessoas (de janeiro a novembro de 2015 houve 675 fusões e aquisições no Brasil, e foi considerado um ano “fraco” pela consultoria PwC)(2). E quem acumula muito poder, o que mais pode desejar? Mais poder, é claro!

Mas, como tudo isso começou? Começou com uma mentira! Certamente algumas pessoas, que queriam aumentar a fortuna e o poder que já tinham, decidiram inventar que, para sermos felizes, precisávamos Ter coisas, precisávamos ter sempre novas e modernas escovas de dentes, roupas da moda, carros do ano, brinquedos falantes, produtos milagrosos que fizessem nos sentirmos lindos, maravilhosos, inteligentes e bem-sucedidos na vida. Mas veja, Ter não seria o suficiente, você precisaria também ter Mais do que o seu vizinho, tudo de seu teria que ser o melhor. Para ter sucesso você precisaria ter cada vez mais coisas sempre, e uma vida simples tinha que se tornar sinônimo de fracasso. Assim, os mentirosos poderiam usar seu dinheiro para produzir essas coisas, e ainda nos emprestar seu dinheiro a juros, para que pudéssemos comprá-las.

Mas, para que a mentira pegasse, era preciso divulgá-la. Então entraram em cena a mídia e a propaganda, com a tarefa de divulgar a mentira, em troca de uma gorda fatia dos lucros. O austro-americano Edward Bernays (1891-1995), um dos pioneiros da propaganda, se baseava no princípio de que as pessoas são irracionais, suas decisões e ações são manipuladas facilmente, e aplicava isso na construção da propaganda. Bernays combinou ideias de Gustave Le Bon e Wilfred Trotter com as ideias psicológicas de Sigmund Freud, seu tio, e foi citado pela revista Times como um dos 100 americanos mais influentes do século XX (3). Recentemente o Papa Francisco denunciou “a concentração monopólica dos meios de comunicação social, que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural, num colonialismo ideológico”(4).

E, com a ajuda de um sistema educacional que massifica, em vez de emancipar, os mentirosos tiveram muito sucesso, pois passamos a competir uns com os outros por um status supérfluo e insano, sem imaginar onde isso iria nos levar. A Black Friday deste ano foi um bom exemplo disso, com vendas bilionárias e cenas de pessoas disputando produtos a socos e pontapés. Hoje, já sabemos que estamos caminhando rapidamente rumo a um desastre.

Nossas cidades tornaram-se a Meca do consumo, para onde migraram os camponeses, expulsos pelas adversidades climáticas, pela falta de apoio do governo à sua fixação no campo, pela ação capitalista para concentração da propriedade da terra, e atraídos pela perspectiva de uma vida melhor. Em 1940 viviam no campo 68,76% dos brasileiros, e em 2010 só restavam lá 15,64%, segundo o IBGE. Aí se formaram as favelas na periferia das grandes cidades. Como quem plantava veio para a cidade, foi preciso plantar em escala industrial para alimentar a todos, com o agronegócio substituindo grande parte da agricultura familiar. Como as grandes monoculturas enfraquecem a terra e são mais suscetíveis às pragas, então foi preciso usar os adubos químicos e os agrotóxicos, que poluem o meio ambiente e prejudicam nossa saúde. Assim, passamos a consumir mais alimentos industrializados, cheios de produtos químicos, do que alimentos naturais.

Como grandes metrópoles demandam grandes obras, fomos construindo superavenidas, shopping centers, viadutos, túneis, pontes, grandes represas para abastecer tanta gente junta, grandes usinas para gerar a energia para produzir tudo que consumimos, e hoje, sabemos que boa parte dessas obras foi planejada de acordo com os interesses das empreiteiras, bancos e montadoras de veículos que financiaram as campanhas eleitorais.

E tudo isso apoiado em outra mentira, a do crescimento infinito, como se pudéssemos aumentar a produção de tudo para sempre, aumentar nossa área plantada para sempre, construir mais para sempre, consumir o petróleo para sempre, extrair minério de ferro para sempre. O recente desastre ambiental em Mariana é um dos resultados da ganância do capital, e do controle que este tem sobre as políticas públicas. Já existe tecnologia para que esta extração de minério produza apenas rejeitos secos invés de lama, mas não é usada no Brasil porque é mais cara, diminuiria o lucro das empresas, e nosso governo deixa por isso mesmo. Assim, os recursos do planeta vêm sendo exauridos em benefício de uma minoria irresponsável, até quando houver uma insurreição social e/ou um cataclisma ambiental, que, ao que tudo indica, já está próximo.

O fato é que caímos numa armadilha, e precisamos escapar dela. E a única maneira de combater uma mentira é com a verdade, a nossa verdade esquecida. Nós nascemos inocentes, carinhosos, felizes, criativos, cheios de iniciativa, sem preconceitos, sem inveja, deslumbrados pela natureza à nossa volta, com o coração cheio de amor e afeto por todos! Nascemos 100% humanos, mas, depois, vamos perdendo nossa humanidade pelo caminho, e, nesse grave momento em que vivemos, é a ela que devemos voltar. Sermos Humanos é a nossa verdade! Só a consciência da importância dos valores humanos e nossa determinação de lutar por eles em todas as frentes, é que nos permitirá quebrar o jugo dessa ditadura imposta pelo capital predatório, pelo consumismo e pela financeirização da economia, que destrói nossa essência fundamental.

Temos que agir agora, tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo. Precisamos redescobrir o prazer em levar uma vida mais simples, consumindo menos, e com mais consciência. Nosso poder de compra é uma das armas que temos para essa batalha. Podemos dar preferência para comprar serviços e produtos de empreendedores locais, de pequenos comerciantes, artesãos, e usar bancos públicos e cooperativas de crédito invés de grandes bancos privados. Podemos compartilhar mais, apoiar a agricultura familiar e orgânica, plantar hortas comunitárias e consumir mais alimentos e menos produtos. Se não queremos poluição ambiental, temos que produzir menos lixo, e se não queremos mais hidroelétricas destruindo a Amazônia e termoelétricas poluindo a atmosfera, temos que consumir menos energia. O único caminho viável hoje é uma vida com baixa emissão de carbono. Ou nós temos a iniciativa e a coragem de mudar nosso estilo de vida de forma consciente e planejada, ou o planeta vai nos obrigar a mudá-lo de forma traumática.

Por isso, é hora de darmos mais valor às relações humanas do que aos bens materiais, sermos mais generosos, éticos, e nos despirmos de todos os tipos de preconceito. E não é mais tempo de focarmos naquilo em que divergimos, mas no que nos aproxima e nos une, pois a luta será longa e árdua. Nossa grande vantagem é que somos muitos, e estamos em todos os recantos desse país, e precisamos e queremos a mesma coisa: uma sociedade mais humanizada, solidária, inclusiva, justa, democrática e sustentável. Queremos um país do qual tenhamos orgulho, que cuide bem do seu povo e do seu meio ambiente, onde cada criança possa ter uma infância feliz e saudável, cada jovem tenha a oportunidade de ir em busca de seus sonhos, cada idoso tenha acesso ao conforto e aos cuidados que merece, cada empreendedor possa produzir em um ambiente saudável, cooperativo e próspero.

Para isso, precisamos também nos organizar politicamente, e buscar nossos iguais, todos que sentem a mesma indignação e a vontade de mudar. Não simplesmente para mudar quem está no poder, porque já sabemos que isso não adianta nada, mas mudar a cultura política e a própria estrutura do poder. Temos que nos unir a todas as pessoas e organizações que acreditem na mesma utopia, no mesmo sonho. Juntos, com muito trabalho e determinação, temos que levar nossa verdade a derrotar as mentiras.

Rubens Salles é empreendedor social, mestre em Educação, Arte e História da Cultura, e diretor do Instituto Artesocial - www.artesocial.org.br e coordenador do portal Revela Sampa www.revelasampa.com.br

1 Ladislau Dowbor – Thomas Piketty e o Segredo dos Ricos – Ed. Veneta – pg. 11

2 Consultoria PwC – Jornal O Estado de São Paulo – por Fernanda Guimarães e Cynthia Decloet – 06/01/2016

3 Wikipédia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Bernays

4 Papa Francisco - 2° Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de La Sierra – Bolívia – 9/7/2015

 


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