"Estamos no fim de um ciclo da esquerda no país", diz Boulos

  • 02 de Julho de 2016
Guilerme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) esteve em Vitória (ES) participando do lançamento da Frente Povo Sem Medo no Espírito Santo, onde nos concedeu a seguinte entrevista falando do atual momento da política brasileira.

Depois de um mês e meio, como avalia o governo Temer?

Há uma questão em que a ficha não caiu para alguns de que o governo Temer talvez seja o governo mais perigoso no período recente para os trabalhadores do nosso país. Porque o fato de ser um governo que não foi eleito por ninguém e, mais do que isso, um governo que não pretende se reeleger, faz com que ele não precise prestar contas para ninguém na sociedade.
O cara que é eleito de alguma forma ele tem que dialogar com quem o elegeu, tem que pensar dali a quatro anos, o Temer não. Simplesmente não precisa prestar conta para ninguém. Ele pode fazer o programa de devassa mais profunda nos direitos sociais, o programa de terra arrasada mais antipopular que ele não paga o preço por isso. Acho que esse é o grande risco que está posto no governo Temer, o programa que eles querem aplicar. Não é à toa que chegaram a ir por um golpe, porque é um programa que jamais chegaria pela via das urnas.

Se alguém chegar numa eleição e dizer: “O meu programa é fazer reforma da previdência, acabar com a CLT, generalizar a terceirização, privatizar o SUS”, um programa desse não passa em lugar nenhum. Só chega aí por um golpe. Essa é uma situação privilegiada para a burguesia brasileira. É o sonho de consumo da burguesia brasileira. Ter um governo que possa aplicar a política deles puro sangue sem precisar se preocupar com popularidade.

Se tratando de um governo provisório, que ainda depende de uma votação no Senado para continuar, ele ainda não deve estar jogando todas as fichas agora. Será que efetivado o impeachment o cenário poderia ser ainda mais complicado?

Isso é o mais sinistro. O que estamos vendo agora é só o aperitivo. O prato principal vem depois. Os caras vêm com tudo quando tiverem mais condições, se é que vão ter. Cabe a nós fortalecer a resistência nas ruas porque não dá para acreditar que o Senado vai reverter isso por si só. A possibilidade de barrar o duplo golpe que está ocorrendo no país, ter um presidente ilegítimo aplicando um programa que também não foi eleito por ninguém, essa possibilidade vai vir de mobilização de rua.

Você acha que há possibilidade real de barrar o impeachment?

O cenário é muito difícil. Nosso papel é fortalecer a mobilização social no país. A situação para eles também não é totalmente tranquila para aplicar esse programa. Eles também estão na mira de escândalos de corrupção, não tem popularidade e apoio social algum, o Brasil está numa recessão brutal, o desemprego cresce. Há também condições para que haja reação popular.

E qual o papel da Frente Povo Sem Medo nesse contexto? Qual o objetivo dessa articulação?

A Frente Povo Sem Medo surge em 2015 com três objetivos fundamentais: enfrentar o avanço conservador da direita no país, fazer uma defesa intransigente dos direitos sociais e propor saídas populares para a crise, saídas à esquerda. A partir desses três objetivos ela tem construído mobilizações no país todo, tem se firmado organizativamente e nós achamos que é fundamental avançar na construção dessa frente. Porque vai depender da nossa capacidade de estimular e impulsionar um novo ciclo de mobilizações no país, é disso que vai depender tanto a resistência ao projeto regressivo do Michel Temer, como o apontamento de novos caminhos para a esquerda brasileira.

Nós estamos no fim de um ciclo da esquerda no país. É necessário construir novos caminhos. O que foi feito nos últimos trinta anos nos trouxe até aqui. Agora é preciso retomar algumas bandeiras históricas fundamentais do campo popular e de esquerda como as reformas populares, reformas urbana, agrária, tributária, o tema da dívida pública, temas que não foram tratados nos últimos 13 anos no país. Não há mais espaço para um pacto social de ter alguns avanços sem mexer nos temas estruturais. A burguesia não quer mais esse pacto inclusive. O único pacto possível agora é um pacto com o povo, um pacto com os de baixo. Então, impulsionar esse programa depende desse ciclo de mobilização e é o desafio que Frente Povo Sem Medo tem se colocado.

A crise institucional é tão profunda que fica difícil imaginar uma saída seja com a volta de Dilma ou com a permanência de Temer. Que caminhos ver para sair dessa crise a curto e a médio prazo?

Há desafios a se enfrentar. O primeiro é derrubar o governo Temer. Nós temos que ter bandeiras aglutinadoras que sejam capazes de atrair os mais amplos setores para enfrentar esse governo. Na medida em que nós temos um governo que é produto de uma eleição indireta do parlamento, porque foi uma eleição indireta, posto que se não havia crime de responsabilidade o que estava em jogo era quem queria a Dilma e quem queria o Temer, desconsiderando que houve uma eleição prévia. Na medida que se consolidou um governo biônico no país é preciso que o povo decida. Para construir mecanismos e criar bandeiras em que o povo seja chamado a decidir.

Mas isso não é o suficiente. Porque o que está em jogo não é só discutir o plebiscito, a antecipação das eleições. Nós temos um sistema político carcomido, em falência, desmoronando. Não tem como hoje não colocar na discussão de saídas, com urgência, o tema da reforma política. Uma reforma política profunda, que amplie os mecanismos de participação popular, que de uma vez por todas acabe com qualquer tipo de financiamento privado para campanhas eleitorais. Hoje o nosso modelo de financiamento eleitoral, que é o que fez o sistema político perder totalmente a capacidade de representar os anseios populares é um modelo escancarado, refém dos interesses econômicos e fechado aos interesses populares. Então o debate tem que avançar por aí. Na construção de saídas não só imediatas, para retirada do governo ilegítimo do Temer, mas saídas para a falência da Nova República no Brasil.

Como analisa os novos movimentos que vêm emergindo com força nos últimos tempos, como o caso dos estudantes secundaristas?

Uma coisa muito interessante em algumas das novas mobilizações que tem surgido é a retomada da ocupação como forma de luta. Se você observar o método de luta dos secundaristas foi ocupação das escolas, o método de luta dos artistas e do povo da cultura foi também ocupação. Cada vez mais há uma retomada dessa forma que historicamente os sem-teto, os sem-terra, utilizam para colocar suas pautas e acho que apontam para novas possibilidades para nossa esquerda. Porque talvez a nossa esquerda chegou onde chegou do ponto de vista de sua incapacidade de resistir de maneira vitoriosa ao golpe porque deixou de ocupar. Deixou de ocupar as ruas, deixou de fazer a luta direta, o enfrentamento direto, o trabalho de base como o seu vetor principal e se concentrou em canalizar tudo para dentro da institucionalidade. Então acho que esses movimentos de algum modo apontam um caminho, ajudam a oxigenar novas alternativas. É difícil dizer onde isso vai dar. As alternativas surgem sempre à quente, nunca à frio. O que está posto para nós nesse momento, mais e mais, é construir um processo de ascensão de lutas sociais e de massa no Brasil. Para isso precisamos retomar o trabalho de base, construir jornadas intensas de mobilização de rua. Ser capazes de dialogar também através das redes com setores que a esquerda tem muita dificuldade em dialogar e incorporar outras pautas. Acho que os desafios estão postos e a conjuntura está aberta.
 

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