Em busca do Teko Porã: RAiZ encontra-se com os Guarani.

  • 16 de Abril de 2016

Manhã do dia 10 de abril de 2016, um domingo ensolarado. Integrantes da RAiZ - Movimento Cidadanista encontraram-se com lideranças da Aldeia Indígena Guarani do Rio Silveira, localizada entre Bertioga e São Sebastião, no litoral paulista. O objetivo: aprender sobre o conceito de Teko Porã, um dos princípios norteadores da RAiZ.

A roda de conversa aconteceu na Opy Guaxu (Casa de Oração), em grande harmonia, e contou com a presença e sabedoria dos líderes espirituais Chapei e Caraí Tatainde, do vice-cacique Mauro, de Carlos Papá e Cristine Takuá.

Para Papá, “Teko Porã é bem grande. É uma palavra pequena, mas de significado muito grande. Envolve todas as coisas que são comuns: respeito, percepção, educação, saúde. É uma palavra que cria um mundo imaginário, um mundo que você cria, que é um paraíso, onde não há maldade, não há fome, não há malícia. É um mundo que você cria em si. Você cria o Teko Porã dentro de si para viver bem. É um modo de viver tranquilo. O Teko Porã é o bem viver. É uma palavra curta, porém é muita coisa.”

Em tempos de ódio, desesperança e falência de velhas verdades, este conceito tradicional, de origem ameríndia, parece iluminar caminhos. O Teko Porã seria algo que nasce dentro de cada um, mas que se expande para as relações entre as pessoas, de cada um consigo mesmo, mas também com o outro, com cada planta e animal, cada habitante da floresta e do planeta.

O vice-cacique Mauro lembrou que: “Entre os guarani - ao contrário do que acontece entre os brancos, que buscam o bem viver apenas para si -, quando uma família alcança seu Teko Porã, ela o compartilha com as outras famílias. O Teko Porã depende, nesse sentido, de união e só pode ser construído coletivamente.”

Para Cristine Takuá, professora da aldeia e integrante da RAiZ, trata-se de um conceito político, social, filosófico, espiritual. “É uma grande teia onde tudo está em conexão. Só que com o passar do tempo, com a modernidade, com o distanciamento da natureza, com a perda da sensibilidade humana, essa teia foi ficando machucada e o Teko Porã desequilibrado. E esse desequilíbrio incide diretamente sobre a vida e a saúde dos sujeitos e suas relações.”

Takuá também ressaltou a necessidade de uma transformação nas práticas educativas e alimentares. “De uns tempos pra cá, o povo brasileiro parou de plantar. E pra gente ter equilíbrio com o Teko Porã, a gente precisa comer o que a gente planta.”

As lideranças enfatizaram a importância da demarcação de terras indígenas na busca de um Teko Porã que beneficie os indígenas, mas também a todxs. E veem com esperança a expansão do conceito para uma abrangência nacional, como norteador de um movimento político. Para isso, no entanto, os humanos, e especialmente os representantes, precisam reaprender a pisar na terra.

No atual contexto de crise ecológica, econômica, social, política e espiritual que se vive no Brasil e no mundo moderno, apontado por vários participantes, a busca do Teko Porã parece ser urgente e potente. Mas tal busca exige consciência, respeito e responsabilidade. Como lembrou o vice-cacique Mauro: “Nós guarani, não brincamos com essa palavra. Porque o Teko Porã é uma palavra simples, mas com muito poder. Ela envolve muita coisa, principalmente o respeito, a dignidade e a sinceridade. E é por isso que essa palavra é bem forte.”

Papá acredita que o Teko Porã vai ser um núcleo de pensamento, que será criado no sentido de uma nova política. E essa nova política deve ser colocada no papel, jurada por aqueles que a defendem, com respeito às culturas e suas diferenças, respeitando o conceito como ele é montado para, a partir daí, encontrar um caminho em que se trabalhe juntos.

O encontro foi encerrado com emoção pelas rezas dos líderes espirituais Chapei e Caraí Tatainde e foi seguido de uma vivência prática do Teko Porã: banhar-se na cachoeira com as crianças da aldeia e compartilhar uma farta refeição preparada com todo amor.

Como se sabe, serão muitos os desafios dessa caminhada, mas se depender da força e dos laços gerados nesse encontro, a RAiZ estará sempre muito bem acompanhada. Honraremos a confiança e que o Teko Porã seja realizado em sua integralidade e que a RAIZ nunca se esqueça de seu verdadeiro significado.


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