Educação para o Desenvolvimento Humano

  • 06 de Abril de 2016

Toda criança precisa sentir que é importante para o seu professor.

por Rubens Salles

 

Sabemos que o Brasil precisa de importantes reformas, como a política, a tributária e a previdenciária entre outras. Estas são reformas difíceis, que dependem de vontade política para alterar a legislação que rege cada um destes setores. Mas, com isso feito, poderia ser resolvido cada um destes problemas. No caso da educação, a situação é muito mais complexa e difícil.

 

Enquanto os esforços para melhorar a educação têm sido concentrados na ampliação dos insumos, reconhecidos estudiosos da educação, como Edgar Morin, Francisco Imbernón, Saturnino De La Torre, Isabel Alarcão, e tantos outros, já nos alertam há anos que o grande obstáculo para oferecermos uma educação adequada às demandas de nosso tempo se encontra no âmbito das relações humanas, na qualidade das relações humanas na escola, em especial durante o ensino infantil e fundamental, um período crítico para o desenvolvimento humano.

 

Ou seja, com base no conhecimento disponível, para uma efetiva reforma da educação, será preciso mudar a forma de atuar dos educadores. E, convenhamos, é muito mais fácil comprar computadores para “melhorar a educação”, do que enfrentar a necessidade de dar uma nova formação a centenas de milhares de professores, modificar radicalmente seus planos de carreira, e promover uma profunda mudança dos currículos das universidades que os formam. Enquanto isso, os gestores da educação pública acham que tudo se resolve adquirindo “sistemas de ensino” produzidos pelas grandes editoras. Em vez de formadores das futuras gerações, os professores do ensino básico passaram a ser instrutores de matérias, tendo de seguir sempre um manual, como se fossem incapazes de protagonizar a educação.

 

Nossas políticas públicas não estimulam o comprometimento do professor com o desenvolvimento individual dos alunos por longo prazo, nem uma aproximação efetiva do professor com as famílias, e, no fim, ninguém é responsabilizado pelo fracasso de um aluno. Por este caminho não há solução. No Brasil, o paradigma que precisa ser quebrado é o fato de que o principal foco da educação fundamental não está nos alunos, mas no conteúdo. Embora a formação em Pedagogia, teoricamente, prepare o professor para lecionar em qualquer ano do ensino infantil ou fundamental de 1º ao 5º ano, na maioria das vezes ele se especializa no conteúdo relativo a um determinado ano escolar, e a cada ano pega uma nova turma de alunos para ensinar o mesmo conteúdo. Desta forma, ele não se compromete com o desenvolvimento e o sucesso futuro dos alunos. Se a criança tem dificuldades, ela será problema da família e do próximo professor. O fato é que, para se manter com um baixo salário, o professor precisa assumir uma carga horária muito alta, trabalhando em vários períodos, o que inviabiliza um envolvimento mais profundo com seus alunos.

 

A falta desse comprometimento do sistema com o sucesso do aluno é um motivo pelo qual a prática da progressão continuada dá resultados controversos, e é tão criticada por alguns educadores e gestores públicos. Mas a verdade é que, se muitos alunos chegam ao fim do ano sem aprender o que deveriam, não é o aluno que deve ser reprovado, mas todo o sistema educacional. A progressão continuada prescinde de uma dedicação ao aluno. Ela foi criada para substituir uma concepção de avaliação escolar punitiva, discriminatória e excludente, onde o aluno retido sente-se rejeitado, estigmatizado, com sérias consequências para sua autoestima e seu futuro.

 

A possibilidade de reprovação incute nos alunos o medo de errar, como se errar fosse a pior coisa que pudesse acontecer. Este medo, com o tempo, mata a criatividade e o protagonismo destas crianças, que chegarão à idade adulta sem a capacidade de ter ideias originais. Nós não sabemos como será o mundo onde nossas crianças vão viver, e quais os desafios que terão de enfrentar, mas tudo indica que a sustentabilidade planetária vai depender da instituição de uma economia muito mais criativa. A criatividade precisa ser tratada com a mesma importância que a alfabetização, pois foi ela que gerou todas as grandes descobertas da humanidade, e os grandes cientistas e inventores nunca tiveram medo de errar.

 

Nossa educação básica, na verdade, se perdeu do fator humano. As crianças não precisam da escola apenas para ser instruídas, elas precisam também para desenvolver suas competências como seres humanos. A escola pode e deve ser um ambiente privilegiado para o desenvolvimento da criatividade, do senso estético, e de valores como responsabilidade, solidariedade, sociabilidade, tolerância, inclusão, justiça, democracia, diversidade, cidadania e sustentabilidade, entre outros. Muitas vezes, o aluno passa mais tempo com seus professores do que com seus pais. Mas uma influência positiva não acontecerá por acaso, e sim por uma ação consciente do formador. Toda criança precisa sentir que é importante para o seu professor. Um professor só ensina justiça se for justo com seus alunos, só ensina solidariedade se for solidário, só ensina responsabilidade se for responsável, só entusiasma seus alunos a aprender se ensinar com entusiasmo, e assim por diante. Mas é evidente que, para isso, precisaremos de educadores aptos, interessados, comprometidos com o sucesso de seus alunos no longo prazo, e conscientes de que a educação começa a partir de seu exemplo como ser humano. Quer queira ou não, o professor faz parte do meio ambiente formador da criança, para o bem ou para o mal.

 

Para começar a mudar o quadro da educação básica brasileira, precisamos criar um novo nível profissional: o de Professor Formador. O professor formador assumiria seus alunos no início de cada etapa, infantil ou fundamental - 1º ciclo, e os conduziria por toda a etapa (3 anos no ensino infantil ou 5 anos no fundamental), ministrando as atividades e as matérias básicas do currículo. Assim, poderia conhecer a fundo cada aluno, seu temperamento, suas qualidades e dificuldades, e sua família, para poder atuar da melhor forma com cada um, assumindo perante os pais o compromisso de conduzi-lo por um período muito importante de sua formação. E, quando um aluno tiver dificuldades, seu professor deverá auxiliá-lo e, se necessário, buscar ajuda com os pais, com a equipe da escola, com especialistas, conselho tutelar etc. Este educador deveria ter formação continuada especial, tutoria individual, profundo conhecimento de antropologia, saber usar atividades artísticas como instrumento pedagógico, ter condições de trabalho adequadas, um plano de carreira que estimule seu comprometimento com o sucesso dos alunos e da escola, e salário que lhe permita dedicar-se a apenas uma turma de alunos. Este modelo de relação entre professor e aluno dá ao professor outro status social.

 

Uma escola focada apenas em ensinar os conteúdos da Prova Brasil e, mais tarde, os conteúdos para passar num vestibular, não forma cidadãos e nem prepara para o futuro. A qualidade a desejar para a educação deve ser o desenvolvimento do aluno como ser humano completo, que pensa, que se sensibiliza, se relaciona, atua no mundo e decide seu próprio caminho, e ela só se sustenta através da competência, autonomia e dedicação de seus professores. Nenhum livro didático, computador ou recurso técnico substitui a qualidade da relação humana entre um professor preparado, motivado e entusiasmado com seu trabalho, e seus alunos. Nenhum método educativo supera ou substitui a palavra falada que vai de um ser humano a outro.

 

Foto: Professora Juliana Retz recebendo e cumprimentando seus alunos individualmente na porta da classe, uma prática cotidiana na Escola Aitiara, em Botucatu SP. Toda criança precisa sentir que é importante para o seu professor.

 

Rubens Salles é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, empreendedor social e pesquisador do Instituto ArteSocial. www.artesocial.org.br rubens@artesocial.org.br


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