Ecossocialismo na RAiZ, Ecossocialismo no Triskel Giratório

  • 17 de Março de 2017

Por Samuel Cavalcante*

 

[Pequena introdução: Este texto é fruto da minha crise existencial e intelectual quando saí do PT em 1998 e comecei a minha busca por uma outra alternativa. É um texto crítico, mas por trás dele, vem uma profunda autocrítica da minha própria experiência. Um balanço do que experimentei. A proposta que nunca consegui concretizar. O contato com a RAiZ, ou melhor, com o movimento pró-RAiZ, reacendeu à base de pedras um fogo já extinto. Com esse fogo, cozinhei um texto novo, com pedaços de outros antigos.]

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1. Muito já foi dito e escrito acerca do Ecossocialismo no Brasil. A discussão aqui começou cedo e podemos considerar que a temática, em suas linhas gerais, foi absorvida pelos principais partidos de esquerda. O PT, naturalmente pela sua composição, durante o seu momento de vanguarda dos movimentos (que durou até o final dos anos 90), fez o seu próprio manifesto Ecossocialista em 1991. Em 2001, temos uma articulação internacional que deu origem às ideias sintetizadas no Manifesto Internacional, texto assinado por Joel Kovel e Michael Löwy. Em 2011, o PSOL também lança seu próprio manifesto ecossocialista e se organiza internamente em uma estrutura interna com essa temática.

2. Todo esse fenômeno é muito positivo e tem apontado para sínteses muito ricas entre a tradição marxista, o movimento socialista em geral e o movimento ambientalista. No Brasil, Michael Löwy, que mantêm boas relações políticas com o PSOL, tem colaborado ativamente para a difusão da cultura ecossocialista na cultura política de esquerda no Brasil.raiz.png

3. Em linhas gerais, a reflexão ecossocialista no Brasil tem ajudado bastante na crítica ao desenvolvimentismo e ao produtivismo de esquerda, herança ainda do stalinismo e do pensamento de esquerda dos anos 50 e 60 . De certa maneira, o desenvolvimentismo também tem suas raízes em certas leituras dos próprios escritos de Marx, especialmente suas referências à “missão civilizatória do capital” e ao desenvolvimento das forças produtivas como pré-condição para o socialismo.

5. Essa crítica ao desenvolvimentismo colaborou para criação de políticas públicas nas quais o componente ambiental tomou uma grande importância, seja para levar em consideração os impactos ambientais das intervenções, seja pra estimular uma mudança na matriz tecnológica e nos materiais usados e até interferindo nas definições de escopo das ações. E, é óbvio, serviu também como meio de disseminação das ideias e ideais ecossocialistas entre a população em geral e entre a intelectualidade e @s ativistas em particular.

4. A administração do PT, em que pese toda a sua passada tradição de luta e reflexão ecológica, abraçou o desenvolvimentismo de maneira quase absoluta. Uma das causas desse desenvolvimentismo se deveu em parte, a meu ver, por sua opção estratégica de um presidencialismo de coalizão com parcelas importantes das elites brasileiras que alijou o movimento ambientalista dos centros de tomada de decisão em nome da governabilidade.

5. Mas a crítica do Ecossocialismo não se dirige apenas ao desenvolvimentismo da esquerda, dirige-se principalmente àqueles que defendem que é possível tornar o capitalismo um sistema verde, integrando ao atual de regime de produção de mercadorias um limite (o limite do “capital natural”) que, ao mesmo tempo, dê sustentabilidade à expansão da produção. Mas não quero falar sobre esse ponto no momento – vou considerar um consenso de que capitalismo é intrinsecamente destruidor da natureza!

6. Minha ideia aqui é fazer ponderações em torno de uma forma de política ecossocialista que eu vou chamar aqui de “sindicalista” ou reivindicativa. Esta forma se expressa claramente no modo de atuação predominante dos ativistas do PT e do PSOL. Ao mesmo tempo gostaria de elaborar algo em torno do Ecossocialismo no projeto da RAiZ.

O Ecossocialismo sindicalista ou reivindicativo

7. Claro está que o Ecossocialismo reivindicativo surgiu de uma confluência de idéias e de práticas. A principal delas  é a crítica marxista do modo de produção capitalista que carrega todo um arcabouço teórico e descritivo de como se estrutura a produção mercantil, de como essa estrutura condiciona o desenvolvimento das outras esferas da sociedade e de como essa produção acaba por gerar os mecanismos de sua própria superação dialética (as contradições na própria produção e na relação entre as classes). A crítica marxista acabou por derivar uma diversidade muito grande de teorias e práticas - e, durante certo tempo, a maioria delas era francamente desenvolvimentista, produtivista e sem qualquer interesse em uma abordagem mais ecológica da planificação econômica e da intervenção politica. Hoje, anos depois do início da decadência do stalinismo, passando pela queda dos regimes autoritários do leste europeu e o fim da URSS, o marxismo retomou o vigor crítico dos seus fundadores e ampliou o arco de sua reflexão. Foi justamente nessa ampliação que começou-se a descobrir uma outra interpretação possível dos escritos de Marx que continham contribuições valiosas para a crítica ambientalista e ecológica do capitalismo.

8. Boa parte do esforço do Ecossocialismo reivindicativo é atualizar a crítica ao capitalismo com as diversas outras vertentes que se desenvolveram à margem do marxismo ou em uma visão totalmente diferente. Os manifestos ecossocialistas desse vertente contém um apaixonado discurso anti-capitalista que engloba, em sua crítica, os mais diversos aspectos da dominação capitalista e suas consequências para o meio ambiente e para a civilização contemporânea. Incorpora não apenas uma crítica à produção generalizada de mercadorias e à necessidade da reprodução ampliada de capital, mas também uma crítica da técnica, da tecnologia, do consumismo e do desperdício. E não somente isso, são posturas que sempre apontam para a necessidade de superação do capitalismo e da ordem vigente para pôr um fim à essa crise de múltiplas dimensões - levantando pistas acerca da sociedade necessária, dos arranjos produtivos e institucionais necessários, da necessária radicalização da democracia, enfim, pondo na ordem do dia a utopia do “outro mundo é possível”   como possibilidade real. Desse ponto de vista essa vertente ecossocialista é fortemente propositiva.

9. Sua propositividade reside no encontro prático entre as lutas de classes mais ou menos convencionais e a luta ambientalista:

“Assim, o Ecossocialismo é uma estratégia de convergência das lutas sociais e ambientais, das lutas de classe e das lutas ecológicas contra o inimigo comum que são as políticas neoliberais, a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o imperialismo americano, o capitalismo global” (Löwy, Michael. (2013). Crise ecologica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecossocialista. Caderno CRH, 26(67), 79-86. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792013000100006).

10. Todo esse elogio a essa vertente tem como objetivo explicitar seus méritos, sua grandeza de pensamento, seu esforço teórico, suas estratégias políticas e os confrontos com os quais se deparou na luta política e que conseguiu mudar o pensamento de muita gente no planeta. E eu me incluo entre esses que foram transformados pela militância ecossocialista - se não fosse por eles, talvez hoje não estivesse escrevendo o que hoje escrevo.

11. Dito isto, começo agora a apontar seus limites.

12. Em que pese tudo o que foi escrito acima, principalmente no que diz respeito à atualização crítica (do marxismo principalmente), a atuação política desse movimento ecossocialista em particular não sofreu a mesma auto-crítica e nem o mesmo esforço de atualização do modus operandi dos seus atores principais. O que aconteceu com bastante frequência é que à luta social reivindicativa (de direitos, econômica, sindical etc) foi acrescido uma outra “luta” , a “luta” ambiental, uma lista própria de reivindicações específicas e variadas (referentes à poluição, recursos naturais, matrizes energéticas, áreas protegidas, agricultura orgânica etc). Não estou desconfiando das intenções da imensa maioria dos ativistas dessa vertente (implicando que ‘usam’ o ambientalismo de maneira oportunista - isso é mais comum nas correntes mais à direita do espectro), apenas quero evidenciar uma fraqueza desse movimento.

13. Os principais limites dessa corrente política residem, a meu ver, em dois aspectos:

  • no discurso da terceira pessoa;

  • no foco exclusivo (ou quase) no Estado.

O Discurso da Terceira Pessoa

14. Uma coisa que salta aos olhos em qualquer texto dessa vertente é a ênfase na polaridade nós/ele(s). Eles (o capitalismo, a OMC, o FMI, o Estado capitalista, as elites econômicas, o os proprietários, a indústria, o Capital) em oposição a Nós (trabalhadores, oprimidos, explorados, camponeses sem terra, a classe média, despossuídos etc). Chamo esse discurso de discurso da terceira pessoa por que é um discurso que nos exime (a nós) de qualquer responsabilidade, de qualquer participação, de qualquer conivência, de qualquer tolerância com a crise ecológica e civilizacional que assola a humanidade. Somos apenas meros objetos. Somos meras vítimas.

15. Praticamente não existe um Tu no discurso ecossocialista reivindicativo. Não se faz aqui uma política de diálogo com a sociedade. O discurso se dirige a um Tu, ou a uma segunda pessoa do plural (vocês), que estão implícitos - é um discurso unidirecional. Nós (os autores) denunciamos Eles (o capitalismo) pra Vocês (@s trabalhadores(as)). O Tu é apenas ouvinte da denúncia, é o que sofre a opressão, o que sofre as consequências da crise. Esta é sua única participação. Não existe chamado, não existe crítica, não existe denúncia, não existe convite, dirigidos ao Tu. Não existe diálogo por que o tu não participa do cerne da crise diretamente - é apenas objeto da crise. Como disse anteriormente, ao partido cabe dizer “a crise cai sobre nós, nós sabemos que ela cai sobre nós e dizemos isso a vocês que não sabem”. Um discurso ou um diálogo Eu-Tu talvez dissesse: “companheiro, você precisa consumir menos, seu nível de consumo vai acabar com o nosso planeta”, ou mesmo centrado no Nós:  “Companheiro, precisamos consumir menos, nosso nível de consumo vai acabar com o planeta”.

16. Obviamente que isso faz parte do modo de ser de um partido de esquerda tradicional. O partido (a vanguarda) detém a consciência do momento histórico e sua missão é elevar a consciência dos que estão fora das fronteiras do partido. É claro que isso tem uma pitada de verdade, de efetividade. Mas não é a verdade em toda a sua inteireza. O outro problema que se soma a essa visão de partido é a de que o partido visa a tomada do poder do Estado - teoria que foi elaborada em detalhes por Lênin e, com algumas diferenças, por Trotski e Rosa Luxemburg. Da mesma forma que o partido transforma a consciência dos que estão fora dele, o Estado deve ser tomado para transformar a sociedade. Apenas com a tomada do Estado , primeiro momento da Revolução, é que se pode passar ao segundo momento que é a transformação da sociedade, das relações de produção e das estruturas culturais e sociais que sobre ela se ergueram.

17. Temporalmente, a vanguarda revolucionária tradicional pensa o ciclo revolucionário da seguinte maneira: sociedade => partido/vanguarda=>Estado=> sociedade. (Da sociedade emerge a vanguarda, a sociedade conduz a vanguarda ao Estado, uma vez no Estado, a a vanguarda pode, enfim, realizar suas “tarefas históricas” e transformar a sociedade. Claro que isso aqui é uma simplificação, um tipo-ideal. Na realidade, existem aquelas correntes que se aproximam mais e outras menos dessa visão.

18. O que quero enfatizar nesse ponto, retomando, é que a ênfase dessa vertente é a denúncia do capitalismo, a denúncia das políticas públicas dos governos, a proposição de políticas públicas alternativas (factíveis ou não nos quadros do capitalismo), a reivindicação de direitos relativos ao meio-ambiente, o apoio aos movimentos e atores sociais  envolvidos com o assunto. O Ecossocialismo só sai do discurso pra pensar políticas públicas estatais. Muito dessa ênfase é natural, óbvia, dado o peso do Estado na nossa vida. O único problema é sua unilateralidade.

19. De um modo geral, inexiste o momento da disputa cultural com as pessoas, com os grupos e com seus próprio militantes. Eles só existem como apoio ou suporte. Para ser ecossocialista, nesta  visão, basta um ato declaratório e o apoio à lista de reivindicações apresentadas como ecossocialistas. É claro que isso é muito importante, prncipalmente quando tratamos das disputas sociais em torno das politicas públicas estatais. Mas me pergunto se isso é suficiente para construir uma cultura diferente, mais ecológica, masi integrada com a natureza.

20. A atividade privada dos indivíduos não é abarcada por esse discurso político. Privadamente tod@s podem manter seu padrão de consumo inalterado, suas atitudes de depredação dos recursos naturais, o desperdício, o ganhar dinheiro com atividades danosas ao meio ambiente, a dependência do carro individual etc. Isso se reflete também nos materiais usados para fazer as atividades politicas gerais - sejam campanhas eleitorais, festas, reuniões, usos da sede partidária etc.

21. Tenho plena consciência que essa vertente colabora com a mudança de comportamento das pessoas, o que quero enfatizar é que isto  não é o seu foco, é um efeito colateral.

Foco Exclusivo (ou quase) no Estado

19. Do ponto de vista da prática política do dia-a-dia, um dos  reflexos imediatos de uma visão desse tipo é a atividade política focada no Estado, na institucionalidade. Como sua perspectiva é basicamente reinvidicativa, a energia desse movimento se volta para o escrutínio das políticas governamentais e à sua crítica - especialmente os grandes contratos, os projetos que envolvem recursos naturais, o conflito com o agrobusiness, as intervenções de mobilidade, as intervenções de produção de energia, de resíduos sólidos e muitas outras que não precisam ser descritas aqui.

20. O foco no Estado, na institucionalidade, no contexto de um partido convencional, tem uma consequencia muito perversa. À medida em que o partido cresce e começa a ocupar postos no interior do Estado, seja no executivo ou legislativo, este começa a ser  tensionado pela dinâmica própria do Estado e das instituições e, por conseguinte, pelo seu calendário e pelas suas prioridades históricas..

21. O que vemos hoje, é que todos os partidos de esquerda convencionais que têm alguma influência social significativa estão aprisionados no interior desse círculo de fogo que é a dinâmica do Estado, gastando a maior parte de suas energias militantes durante as eleições e hibernando fora dos períodos eleitorais. Não apenas suas energias militantes, a maior parte do recurso financeiro desses partidos é investido nas eleições, atté o ponto em que partido e máquina eleitoral praticamente coincidem.

22. O foco exclusivo no Estado também tem um resultado curioso quando esses partidos, os quais postulam essa vertente ecossocialista, conseguem crescer a ponto de chegar ao executivo (municipal, estadual ou, no caso do PT, nacional). Conceptualmente eles continuam a se considerar ecossocialistas, no entanto, do ponto de vista das prioridades administrativas, ou melhor, na elaboração de suas próprias políticas públicas. O Ecossocialismo deixa de ser, então, um “projeto civilizatório”, uma “mudança de vida”, “ uma mudança global” e é rebaixado a um item em uma pauta administrativa de políticas públicas. A sua multidimensionalidade é interrompida.

23. O que quero chamar atenção aqui é que essa ‘quebra’ ocorre justamente pela ausência de uma cultura anterior que seja predominantemente ecossocialista no próprio partido. Ecossocialismo é bonito, lindo, poético, quando faz parte do discurso reivindicativo, contestatório. Quando faz  parte da política pública ele se torna caro, difícil, complicado, com resultados lentos, inexequível, obstáculo etc. Na hora da tomada de decisão o componente ‘eco’ perde peso, e quando se faz necessário barganhar, desaparece.

24. Dessa forma o Ecossocialismo reivindicativo se torna extremamente indulgente consigo mesmo e com seus militantes e os militantes se tornam indulgentes consigo mesmos e com os outros. A prática social do partido e dos militantes/simpatizantes/cidadãos não interessa, interessa apenas que a reivindicação que eles fazem é justa. Não é exigido d@s militantes o mesmo nível de exigência que se lança contra o Estado - óbvio, são escalas enormemente diferentes - mas não é exigido dos indivíduos nem um nível de engajamento que seja proporcional a eles.

25. Um outro fenômeno que também acontece, já que o Ecossocialismo foi absorvido por diferentes atores políticos da esquerda, é considerar o Ecossocialismo, não um movimento, mas um sistema político que é o objetivo final da luta social. Antes havia o Socialismo como objetivo, como meta, mas depois de todas as críticas que sofreu, esse projeto de sistema foi atualizado e se transformou em Ecossocialismo, socialismo ecológico. Não é uma regra, mas é visível a presença dessa visão de que tudo o que se reivinidica em nome de uma sociedade sustentável, ecologica e socialmente justa só será posssível nesse sistema.

O Ecossocialismo Como Elemento de um Triskel: a RAiZ Ecossocialista

25. A RAiZ - Movimento Cidadanista é, na minha opinião, a primeira corrente política que pode resolver esse impasse. Na verdade, ela poderá ser a grande chance de inovação no campo da política ecossocialista. e uma primeira razão para isso é pelo seu caráter ambíguo, dual, anfíbio, de ser ao mesmo tempo um partido e um movimento, sendo mais que um partido e sendo mais que um movimento.simbolo-raiz.jpg

26. Como partido a sua relação estará entrelaçada preponderantemente com o Estado e será pressionada, condicionada, envolvida, arrastada pela dinâmica institucional do Estado. Como movimento a sua relação estará preponderantemente imersa na sociedade, entre seus redemoinhos sociais, enlinhada com seus movimentos sociais, emaranhada com os ativistas, artistas, intelectuais, cidadãos. É a tensão entre essas dimensões que pode ser explorada criativamente, criando rumos, críticas, soluções, alternativas…

27. O Estado tensiona para fortalecer o elemento sólido, o elemento máquina da RAiZ. A sociedade tensiona para fortalecer o elemento fluido, a RAiZ-movimento, RAiZ-processo.

28. Essa percepção é importante para enxergar a função do Triskel como símbolo da RAiZ e também para entender o Ecossocialismo como elemento dessa tríade: Teko Porã/Ubuntu/Ecossocialismo.Se entendermos cada um de maneira separada, fizemos apenas justapôr três coisas distintas que não estão relacionadas. Se entendermos a coisa como um Triskel giratório, que de tanto girar forma um círculo perfeito, poderemos ter a pista que faz a potência desses elementos quando juntos.

29. O Ecossocialismo da RAiZ precisa ter Ubuntu, precisa ter Teko Porã

30. Precisa ter Ubuntu, precisa ser Ubuntu. Ubuntu é uma palavra africana com vários sentidos mas que enfatizam a nossa interdependência. Eu sou por que você é. Você é por que nós somos. Um lindo ensinamento. Africano, asiático, universal. Parte de nossas raízes. É a nossa expressão contra o individualismo, o identitarismo, o sectarismo, que joga cada um de nós num quadrado e depois contrói um muro de vidro em torno dele.

31. Precisa ter Teko Porã, precisa ser Teko Porã. Teko Porã é da nossa terra, palavra guarani, direto da nossa ancestralidade indígena. Teko quer dizer “vida”, Porã quer dizer “bem”, “bom”, “bonito”. É um estilo de vida, uma maneira de encarar e viver a vida que nos traz de volta à natureza e traz a natureza de volta a nós. O mundo em que vivemos nos acostumou a ver a natureza apenas como recurso, como meio para nossos fins egoistas, e essa visão é um elemento fundante da crise geral de nossa civilização, não apenas da crise ecológica. A volta à natureza nos devolve também às possibilidades de uma vida coletiva, colaborativa, solidária, comunitária, harmoniosa. O capitalismo verde quer transfromar beija-flores e abelhas em trabalhadores assalariados, ganhando por seu serviço ambiental. Nós, por outro lado, queremos viver lado a lado com os bichos, as plantas e os minerais. Nossa vida não depende do “serviço” deles, nossa vida faz parte da vida deles e a vida deles faz parte da nossa.

32. Se não tiver Ubuntu e nem Teko Porã, vai apenas ser mais um partido ecossocialista como outros que se autodenominam assim, não vai agregar a sua energia própria. Esses dois são os temperos da RAiZ e temperam não apenas a RAiZ mas também o Ecossocialismo. Aqui o Ecossocialismo é reivindicação mas com uma pitada de experiência, é um projeto de futuro mas com profundas raízes no agora. É um projeto, uma luta, mas também é cultivo. É um eco-ubuntu-tekoporã-socialismo.

33. A RAiZ se apossa da herança socialista e da experiência dos ecossocialistas pra agregar e construir sua contribuição original, no solo comum onde as forças políticas se encontram, não pra dividir forças. Muita coisa é comum neste campo, muito já foi pensado, testado e tentado, não precisamos reiventar a roda.

34. E muita coisa também já foi pensada e testada e que não carregou o rótulo de Ecossocialismo mas que contribuiu e contribui pro avanço da consciência ambiental.

35. Por ter e ser Ubuntu e Teko Porã, a RAiZ se dá ao direito de dialogar com outros movimentos que não se reivindicam do Ecossocialismo - como os partidários da teoria do decrescimento econômico e da ecologia profunda - para enriquecer seu próprio debate. Por ser movimento e não só partido, pode se dar ao luxo da horizontalidade panárquica e quebrar com o se convencionava chamar de substitucionismo: @ filiad@ substitui @ cidadã/o, @ delegad@ substitui @ filiad@ e a direção substitui @ delegad@, até que alguém se impõe sobre todo mundo.

36. Da mesma forma, o Ubuntu e o Teko Porã também devem conter Ecossocialismo de forma a completar o círculo que se forma com o giro do Triskel

37. O Ecossocialismo da RAiZ  é uma construção, experimento, experiência que se faz antes do Estado, fora do Estado e dentro do Estado. É um projeto que começa na própria RAiZ, como prática diária, política, doméstica, artística, comunitária, científica, produtiva, individual, coletiva. É um compromisso com uma prática e não só com uma ideia. É um experimento coletivo, uma teia de experimentos, uma teia de teias. Teia viva, revolucionária.

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*Samuel Cavalcante é sociólogo e integrante do círculo cidadanista da RAiZ no Distrito Federal


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Comentários

Marly Cuesta

24 de Março de 2017

Nossa, quanta riqueza,Samuel! Parabéns por tanta lucidez e socializar com tod@s! Com certeza um baita material de estudo para tod@s raizeir@s! Grata e luz,

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