E quando será o dia da descolonização espírito-santense?

  • 23 de Maio de 2016

Por Vitor Taveira*, com contribuição de Juliana Novaes**, do Círculo Cidadanista do Espírito Santo

23 de maio de 1535. A caravela Glória, comandada pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, desembarcava na Prainha, atual município de Vila Velha. Por isso, na data de hoje se celebra o Dia da Colonização do Solo Espírito Santense. Começava a colonização. Começava aí também a tomada forçada das terras e o encobrimento do outro.

Nesses tempos, Pindorama era o nome que os tupi guarani davam a esse território que veio a ser chamado de Brasil. Vitória, a capital do Espírito Santo, era Guaananira, a “ilha do mel”. Capixaba até então era como os povos originários chamavam as abundantes roças de milho dessa região.

O donatário Coutinho, fidalgo de “baixa patente”, recebera a doação da Coroa Portuguesa de uma das “Capitanias Hereditárias”, concedendo o direito de explorar um território que ia do litoral capixaba até o limite terrestre definido pelo Tratado de Tordesilhas, que criara uma linha imaginária e autoritária que separava os territórios que Portugal e Espanha julgavam ser donos a partir de então. Os que viviam ali, habitantes originários, obviamente, não foram consultados sobre os novos "vizinhos", que dizem que não tiveram lá "boas vindas".

O dia de colonização do solo espírito-santense é o dia de lembrar a história dos vencedores. Perguntamos quando será que vamos lembrar da história dos “derrotados”, dos encobertos, dos silenciados? Desses que até hoje encontram dificuldades em ser vistos e ouvidos nessa burra unanimidade em que vivemos nesse estado, onde impera uma forte aliança dos de cima: grande mídia, empresariado e governo.

O prefeito de Vitória, Luciano Rezende, lembrou também nessa semana que o Forte São João, sede do clube de remo Saldanha da Gama, que se encontra em estado de semi-abandono, será restaurado em parceria entre a prefeitura de Vitória e o Sistema Fecomércio-Sesc. Importante fortificação de valor histórico na defesa do Espírito Santo contra ataques holandeses, local será justamente sede do Museu da Memória da Colonização e Imigração do Espírito Santo. Resta saber se nessas memórias entrarão os que já estavam e os que migraram forçosamente na condição de escravos para plantar ou construir fortificações como essas.

É no mínimo curioso como se constroi a história dos vencedores: os holandeses, ingleses, piratas e bucaneros, por fim expulso pelos colonizadores, entraram para a história como invasores. Os portugueses, não. Sua suposta legitimidade sobre o território reside menos pelo título de papel inventado pela Coroa e mais na posse da pena ou da caneta que permitiu escrever a história como vencedores.

Agora, falando em memória, essa muito mais recente, os projetos Organon e Associação dos Amigos Culturais do Araribóia, promoveram em 2013 um evento curioso, que de certa forma influenciou na escrita desse artigo. Realizado na Ufes, foi nomeado provocativamente como “Dia da Descolonização do Solo Espírito-Santense. “A ideia é produzir ações que representem as resistências, os conflitos e as lutas que ocorreram no processo colonizador local e que persistem em formas diversas de dominação. Serão reações ao modo hegemônico e linear como os governos locais têm apresentado a história do estado”, dizia a chamada do evento.

“Conflitos” e “persistem”, são de fato duas palavras chave desse texto. De fato, refletir hoje sobre o colonialismo no Espírito Santo é pensar no passado, presente e futuro.

Que memórias queremos guardar? Queremos continuar escondendo as violências de um processo colonial que dizimou povos originários, que escravizou seres humanos cruelmente traficados de outro continente? Vamos celebrar Vasco Fernandes Coutinho, caminhar os passos Anchieta e esquecer dos povos originário e dos negros escravizados resistentes como Chico Prego e Zacimba Gaba?

Falar do hoje, é lembrar que o Espírito Santo vive numa democracia de baixíssima intensidade. O diálogo entre governo e sociedade é mínimo, simbólico, praticamente uma farsa. O racismo ambiental persiste nos dias de hoje. As plantações de eucalipto seguem sufocando e secando as comunidades indígenas e quilombolas e outras população vulneradas. O litoral já está previamente loteado para inúmeros portos privados e para o avanço petroleiro às custas da morte da agricultura e da pesca artesanal e tradicional, ao custo do extermínio de culturas e modos de vida. O já combalido Rio Doce foi assassinado pela megamineração, deixando milhares de órfãos praticamente desamparados e totalmente silenciados pelo acordo de compadres: Estado e grande indústria.

No tempo presente, para que possamos transcender colonialismos que persistem, se faz necessário lutar pelo direito à enunciação de nossa verdadeira história de todas as mulheres e homens que foram cruelmente silenciados, que lutaram de forma incansável contra a dominação hegemônica e contra os que hoje são lembrados como heróis em uma história dita oficial por meio de datas ou eternizados em monumentos, nomes de avenidas entre outras formas de dominação simbólica ainda existentes, a fim de nos lembrar num falso determinismo, ou destino que nos foi atribuído quais papéis sociais que nos fizeram acreditar estar predestinado a nós, mulheres e homens desse estado.

A insurgência se faz presente tanto como foi feita no passado, mesmo numa tentativa atual de ocultar a resistência latente de nosso povo, afinal um povo sem história e sem pertencimento continua vulnerável aos mecanismos de dominação que ainda persistem em nosso estado, em colonizações coexistentes na atualidade.

Então, falar de futuro é falar em romper o silêncio e os conchavos dos de cima, cortar a linha que une Vasco Fernandes Coutinho a Paulo Hartung. Da capitania à democracia, do donatário do Rei português ao governador eleito com apoio do poder econômico, os de cima continuam a exercer seus podres poderes de violentar e silenciar.

Queremos a descolonização não só do solo, mas da política, dos corpos, espíritos e mentes desse território kapi´xawa.

Mas então, quando será o dia da descolonização espírito-santense? Tem que ser todo dia, junto ao povo, de baixo pra cima.

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*Vitor Taveira é jornalista, mestre em Estudos Latino-Americanos e integrante do Soy Loco Por Ti.

** Juliana Novaes é licenciada em Pedagogia, estudante de Especialização em Educação em Diretos Humanos. Integrante do coletivo feminista interseccional Viva las Fridas.

 

 


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