Dos sonhos à ressaca política: inventário de uma derrota e a semeadura necessária

  • 16 de Julho de 2017

*Por Marcelo Soares

As recentes derrotas políticas e retrocessos sociais no Brasil trazem a mim lembranças do final dos anos 70. Aquela foi uma época de efervescência, carregada de expectativas de mudança. Sentíamos que as mudanças estavam ao nosso alcance: bastava militar que elas viriam.

E militar era tudo o que fazíamos naqueles anos, seja nas reuniões da nossa tendência no movimento secundarista, a Avançar a Luta (AVALU), seja na organização revolucionária à qual pertencíamos, a Fração Operária Bolchevique, um racha da Organização Socialista Internacionalista.

Tentávamos construir grêmios estudantis livres, enfrentando a ira das direções das escolas e a oposição de entidades estudantis pelegas. Líamos e debatíamos toda a literatura marxista (principalmente trotskista) disponível. Participávamos de passeatas contra a Ditadura, reprimidas com doloridos golpes de cassetete.

Debatíamos principalmente as condições objetivas para a revolução e como construir o instrumento necessário para levá-la adiante: o partido revolucionário. Sabíamos que o PT não poderia cumprir esse papel, mas acreditávamos que esse seria um partido de massas necessário para a conscientização e a luta dos trabalhadores.

Lembro das reuniões de organização do PT, na Igreja da Pompéia, em que íamos fantasiados de operários, com calças de tergal, camisas “volta ao mundo” e sapatos Vulcabrás. O PT gaúcho era constituído basicamente por sindicalistas bancários, o pessoal das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, servidores públicos e estudantes.

Ter um operário dentro de uma organização era um diferencial político relevante. Tínhamos o nosso na Organização, uma importante liderança dos trabalhadores da construção civil, categoria que se constituía em importante vanguarda nas lutas sociais do período, em que diversos movimentos se uniam pela redemocratização, mas principalmente pela construção de um outro projeto de país, um governo dos trabalhadores, o que implicava necessariamente a chegada do PT ao poder.

Não quero analisar aqui a rica história de construção e fortalecimento do PT nos movimentos sociais do campo e da cidade, nem suas primeiras vitórias eleitorais em algumas capitais e nos estados. Tampouco pretendo lembrar como a vitória de Lula em 2002, com base em um projeto de conciliação de classes consubstanciado na Carta aos Brasileiros, significava a completa abdicação do projeto inicial de um governo dos trabalhadores.

O espírito de outra época, em que predominava a esperança e colhiam-se avanços na luta dos trabalhadores, parece agora frustrado em uma conjuntura de derrotas e retrocessos políticos e sociais. Busca-se compreender o que distanciou os movimentos de esquerda da grande massa de trabalhadores, levando à ausência de um projeto que unifique as lutas de organizações e ativistas empenhados na construção de um outro Brasil e um outro mundo - ainda possíveis!

A composição dos trabalhadores brasileiros certamente mudou, com a diminuição do peso da classe operária e o crescimento da massa de trabalhadores precarizados no setor de serviços. Além disso, a crescente urbanização e a mecanização da agricultura expulsaram os trabalhadores do campo para as cidades. Se isso não significou o fim dos conflitos pela terra e da necessidade de uma reforma agrária, certamente redefiniu o enfrentamento no campo político, o que pode ser notado na aliança que o PT fez com o agronegócio em seus governos.

O desgaste do PT e das centrais sindicais indica a necessidade de construção de novos instrumentos de luta, que superem a visão tradicional de cidadania baseada na representação política. Ganha importância, neste momento, a necessidade de promoção do cidadanismo, ou seja, do protagonismo direto dos indivíduos por meio de novas formas de ação política que se baseiem no debate e nas deliberações de forma horizontal, com a adoção, sempre que possível, de mecanismos de busca do consenso progressivo.

A diversidade de pautas identitárias, como a luta ecológica e dos povos originários, das mulheres e LGBTs, impõe a construção de um projeto mais amplo do que aquele que deu origem ao PT. Impõe-se a necessidade de repensar a visão predatória de desenvolvimento que esteve na base dos governos petistas, assim como de avançar pautas negligenciadas por esses governos, como a da legalização do aborto, do combate à homofobia e de uma nova política de drogas.

Os retrocessos nos direitos sociais impostos pelo atual governo golpista devem ser compreendidos, portanto, a partir das nossas próprias fraquezas e da dificuldade para formular um projeto mais generoso de país, que possibilite novas formas de ação e participação em uma sociedade cada vez mais desconfiada e mesmo afastada da atividade política.

Seguir atribuindo o golpe às mobilizações de junho de 2013, e a continuidade do governo golpista a um corpo mole do PT e da CUT, não ajuda em nada e escamoteia a verdadeira razão das nossas derrotas atuais: a ausência de um projeto transformador, como aquele que nos mobilizava no final dos anos 70 e fazia-nos militar de manhã até à noite com o sentimento de que estávamos fazendo história.

A indignação com as recentes derrotas não deveria levar, portanto, à busca de soluções fáceis e imediatas, mas no reconhecimento de que estamos em um tempo de cultivo de novos princípios e formas de ação política, que precisam de tempo para germinar e ramificar na sociedade. Nossa tarefa, como jardineiros, é seguir semeando.

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* Marcelo Soares é sociólogo e Coordenador de Comunicação da Esfera Nacional da RAiZ – Movimento Cidadanista

Foto: Dario da Rocha Bandeira

 


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