Do eucalipto à agroecologia: recuperando memória e território

  • 19 de Abril de 2016

Indígenas e quilombolas do Espírito Santo voltam a cultivar terras que haviam sido apropriadas por empresas transnacionais e foram retomadas por meio da mobilização social

 

Por Vitor Taveira*

 

“Enquanto houver fome, enquanto houver guerra, nós os quilombolas estamos lutando pela terra”, puxa Antonio Sapezeiro, como se o grito saísse da alma com a força de seus ancestrais. A frase ecoa junto a outras vozes solidárias ali presentes na aparentemente tranquila comunidade de Linharinho.

 

“Preservar é o que a gente faz, não estamos acabando com o mundo, com o solo, com a vida. A gente pensa na vida, quer ajudar a natureza e nosso mundo”, fala calmamente Werá Djekupé, também conhecido como Marcelo Guarani, ao pé de uma pequena nascente em território indígena que sobreviveu a décadas de monocultivo.

 

As consciências não se negociam, os valores não se vendem, as sabedorias ancestrais não desaparecem. Algo está passando no interior do Espírito Santo. Uma semente. ATENÇÃO: mais uma semente está sendo cultivada. E quase ninguém reparou. A grande mídia, por exemplo, parece mais amiga das máquinas que das sementes, dos engravatados que de camponesas e camponeses.

 

Retomando os territórios para a vida

 

Em 2005, depois de muita pressão numa luta unificada entre os povos tupiniquim e guarani do Espírito Santo, o Governo Federal demarcou 11 mil hectares de terra indígena no município de Aracruz, que haviam sido obtidas de forma ilegítima pela então Aracruz Celulose, hoje Fibria, empresa transancional.

 

Em 2007 comunidades quilombolas se organizaram para realizar retomadas de territórios na região de Linharinho, em Conceição da Barra, e outras localidades de ocupação tradicional tomada pelo monocultivo.

 

Cerca de uma década depois, ainda há dificuldades, falta suporte dos governos, mas as comunidades estão trabalhando duramente e contando com apoio de outros movimentos e coletivos para levar adiante a construção de melhores condições de vida, trabalho e meio-ambiente nesses territórios. “Nesta terra foi plantado eucalitpo por quase 40 anos. Agora precisamos trabalhar muito para recuperar a terra porque o solo está muito degradado”, diz Werá Djekupé, que coordena a construção de uma nova aldeia guarani, chamada de Kaagui Porã (Nova Esperança).

 

A comunidade e apoiadores têm realizado mutirões quinzenais para a construção de casas e plantio de mudas para reflorestamento do local. “Aqui é um lugar propício, tem rios, florestas e lugares que precisamos reflorestar porque é onde estão os refúgios dos animais. Queremos trabalhar o fortalecimento da nossa cultura, do jeito de ser guarani, cultivar nossa terra, plantar comida sem agrotóxico. Comer comida boa, sem agrotóxico, com adubo orgânico, construir viveiros, mudas, reflorestamento, isso é ajudar a natureza e a vida do povo”, explica o guarani.

 

Converter essas terras que estavam a serviço de um modelo de produção perverso com a natureza e o ser humano em territórios de vida e esperança é uma tarefa árdua, que vem sendo construída com determinação, baseado em conceitos como a agroecologia e agrofloresta.

 

“Nossa primeira ocupação foi em julho de 2007 e agora a gente retorna com a intenção de produzir agricultura familiar, de garantir a soberania alimentar e ter o direito de consumir alimentos de qualidade e sem agrotóxico”, afirma Joice Nascimento Cassiano, integrante da Comissão Quilombola do Sapê do Norte e da Coordenação Estadual Quilombola.

 

No último dia 8 de março, dia internacional das mulheres, as comunidades quilombolas, com apoio de integrantes de diversos coletivos e organizações sociais do Espírito Santo, realizaram um mutirão em Linharinho, preparando a construção de um centro de encontros e formação e também de um viveiro num terreno destinado ao processo das mulheres quilombolas. O projeto inclui a criação de um banco de sementes crioulas e também o reflorestamento das margens do córrego da região, que sofre com a seca.

A visita também mostrou o apoio e solidariedade da sociedade civil capixaba com as comunidades quilombolas que sofrem ameaças de grileiros. Apesar do avanço na legislação para reconhecimento e titulação de territórios quilombolas, nenhuma comunidade no Espírito Santo recebeu seu título de posse até hoje. “Estamos dentro de uma área de terra devoluta que justamente está dentro do território quilombola de Linharinho, que está em fase de contestação. Estamos num processo de contestação e na esperança de que essa terra venha ser logo titulada”, explica Joice Nascimento.

 

Werá Djukupé lembrou que o que já foi conquistado também está em ameça por conta do projeto da PEC 215, proposta pela bancada ruralista no Congresso Nacional, que mudaria o sistema de demarcação e poderia rever a posse de território indígenas e quilombolas já demarcados. “Querem violar nossos direitos, por isso pedimos para a população ter consciência e lutar junto com a gente”.

 

O território é o todo: a terra, a água, o ar, os humanos e outros animais. É o espaço onde se produz e reproduz a vida, as culturas, os saberes, os valores, o material e o imaterial.

 

Para indígenas, quilombolas, camponeses, defender os territórios é defender a vida.

Assim devia ser para toda a sociedade, no campo ou na cidade.

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*Vitor Taveira é jornalista, mestre em Estudos Latino-Americanos e integrante da RAiZ - Movimento Cidadanista no Espírito Santo.

 

 

 

Foto 1: Plantio de muda durante o mutirão na Nova Aldeia Guarani (Kaagui Porã) - Aracruz (ES). Crédito: Luciana GB

 

Foto 2:  Alguns dos participantes de mutirão na nova aldeia. Crédito: Nuno Pignaton Perim

 

Foto 3: Atividade de mulheres no 8 de março no viveiro em quilombo de Linharinho - Conceição da Barra (ES). Crédito: Flávia Bernardes

 

 

 


 


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