Dez anos de retomadas quilombolas

  • 29 de Dezembro de 2017

No Espírito Santo, áreas usurpadas para o plantio do monocultivo de eucalipto foram retomadas por comunidades quilombolas, que trabalham para reconvertê-las à agroecologia

Em dezembro, comunidades e parceiros realizaram encontro em Conceiçao da Barra (ES) relembrando os 10 anos das retomadas

 

Começou em 2007 na comunidade quilombola de Linharinho, em Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo. As fileiras de eucalipto eram derrubadas para replantar a esperança. De lá para cá se passaram dez anos e hoje são dez também o número de retomadas quilombolas no norte do Espírito Santo, a mais recente realizada nesse ano de 2017.

“As retomadas quilombolas são áreas que estão em fase de transição, de reconversão. Algumas levavam mais de 40 anos de monocultivo de eucalipto, com muito uso de químicos e agrotóxicos. Hoje abrigam famílias produzindo alimento”, explica Joice Nascimento, que vive na retomada de Linharinho, em Conceição da Barra .

Integrante da ong Fase, Beto Loureiro, ex-sindicalista e ex-funcionário da antiga Aracruz Celulose (hoje Fibria), conta que a compra das áreas a partir dos anos 60 foi feita por meio de fraudes, usando laranjas da empresa, juizes comprados e se aproveitando da falta de escritura das terras pelas comunidades tradicionais que ali habitavam há séculos. “As comunidades foram perdendo terra ao longo das últimas décadas, agora queremos ganhar, mesmo que seja uma parte que não seja todo nosso território. Precisamos de um pouco de terra para ter dignidade e recomeçar uma vida roubada décadas atrás”, afirma João Batista Guimarães, do quilombo Angelim I.

Apesar dos avanços legais desde 2003 - agora travados pelo governo Temer-, no Espírito Santo, nenhuma comunidade quilombola teve suas terras tituladas até hoje.  Mas a luta continua não só pela titulação mas também pelas recuperação de terras. “A retomada é um fator histórico e de grande importância para as comunidades de nosso território, que vieram como marco da resistência dos quilombolas de Sapê do Norte”, enfatiza Joice. Sapê do Norte é como é chamado o território que engloba diversos quilombos entre os municípios de Conceição da Barra e São Mateus. Eles estimam que hoje haja pouco mais de mil famílias das 10 mil que habitavam a região antes da chegada dos mega-projetos vinculados ao eucalipto, petróleo e cana de açúcar.

Para João Batista, a produção das famílias hoje nas retomas prova que é possível sim recuperar espaços degradados e produzir alimento com diversidade e sem uso de veneno. “Hoje eu vejo a retoma como um horizonte futuro para os quilombolas. Um horizonte que aponta para produção de alimento, tirando as comunidades da marginalidade e miséria em que viviam, dependendo da produção de carvão de resíduos florestais da empresa e outras atividades”.


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