Desmitificando Boulos - Revista Cidadanista Nº1

  • 27 de Novembro de 2016

Revista Cidadanista - Edição Nº 1 - Novembro/16

Esta matéria é parte da  Revista Cidadanista, a revista da RAiZ Movimento Cidadanista. Para acessar a edição completa da mesma ou fazer o download do .PDF  acesse www.raiz.org.br/revistacidadanista

por Ivan Zumalde
de São Paulo

Guilherme mora no Campo Limpo, tem duas filhas, dá aulas em universidades e é conhecido por ajudar as pessoas a conquistar casas para morar, direito garantido em nossa Constituição. Guilherme também é conhecido por Boulos, militante do MTST que faz ocupações para colocar em prática o mesmo direito acima. Com qual imagem você prefere ficar? Nesta entrevista exclusiva à Cidadanista, Guilherme Boulos tira o rótulo que todos querem imputar, falando de um valor que, independente dos caminhos, todos almejam: a cidadania.

Existe muito preconceito em relação ao movimento? Acha que falta compreensão?

BOULOS: Esperamos e trabalhamos para que algum dia as pessoas possam compreender que a luta concreta – a luta por moradia, por saúde, educação, trabalho – está associada a uma luta anticapitalista, porque esse sistema não é capaz de garantir condições dignas de vida para a maioria do povo. Agora, a luta concreta imediata é uma luta reivindicativa por direitos muito determinados, por algo que afeta de uma maneira muito perceptível a vida das pessoas. Então é isso que torna o MTST capaz de colocar 20, 30 mil pessoas nas ruas em São Paulo e outras tantas pelo país afora. É o fato de o movimento conseguir dar expressão para uma demanda concreta de milhões de pessoas – que é a falta de moradia – e transformar isso em luta, mobilização, em cobrança de política pública do Estado e enfrentamento à especulação mobiliária, fazendo ocupações de terra. Isso dá a legitimidade do MTST e garante sua capacidade de mobilização.

 

Qual é a forma de atuação política que o movimento defende nas ruas?

BOULOS: A atuação do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) é uma atuação que parte de uma demanda muito específica – e na nossa opinião, muito fundamental – que é a luta por moradia. Então, o MTST não mobiliza a partir de uma pauta política genérica, abstrata; ele organiza sua atuação a partir de uma demanda definida que afeta milhões de pessoas que vivem nas periferias do Brasil. Os trabalhadores mais pobres, mais precarizados. Hoje nós temos 6 milhões de famílias sem moradia no Brasil, isso dá mais de 20 milhões de pessoas. Isso é só o chamado déficit quantitativo, que são famílias que têm custo excessivo de aluguel, famílias que estão em áreas de risco; coabitação, ou seja, mais de uma família morando na mesma casa. E dá o déficit qualitativo – que são mais de 15 milhões de famílias – que são aquelas que, embora tenham alguma casa, a infraestrutura e os serviços urbanos são precários. Então, o problema da moradia é um dos mais graves no país. 

 

E por isso a estratégia das ocupações urbanas, onde o MTST leva esse contingente de pessoas...

BOULOS: Essas ocupações são fundamentalmente famílias que não estão conseguindo mais pagar aluguel e que vão para a ocupação por falta de alternativa. Então, o gancho da nossa atuação é esse, e nós achamos às vezes que, por parte de uma certa esquerda universitária, existe uma falta de compreensão sobre como se dá o processo de mobilização popular, “ah, mas o MTST não fala de socialismo”, as pessoas, imediatamente, não se mobilizam por socialismo. 

 

E como você enxerga o futuro do movimento daqui a uma década diante dessa onda de conservadorismo e opressão que vivemos hoje?

BOULOS: É difícil dizer como será o Brasil daqui a uma década. Nós estamos em um processo de desmonte e de regressão aceleradíssimo. E junto a isso, um processo de construção de um Estado de exceção, de judicialização da política, de criminalização de lutas sociais, então eu não me arrisco a dizer. E acho que seria muita ousadia, de quem quer que seja, dizer como vai ser o Brasil daqui a 10 anos. Agora, ao mesmo tempo em que há uma tentativa de desmoralizar e calar o movimento social – do MTST, inclusive – a tentativa é complexa, porque ela não se dá apenas pelos padrões antigos de repressão: bota a polícia, joga bomba. É isso aliado a uma criminalização no âmbito judicial – prender por formação de quadrilha, esbulho possessório – e vai para um outro caminho que é a criminalização midiática, a desmoralização. Este tem sido utilizado com maior recorrência, quer dizer, se criou quase que um consenso na sociedade, uma banalização dizer que o movimento social existe porque quer boquinha, porque quer privilégio do Estado, porque não quer trabalhar, porque são pessoas que ganham dinheiro ou algum tipo de vantagem. Essa desmoralização é muito pesada no movimento social e tem sido feita de maneira contínua e eficaz pela mídia brasileira.

 

Qual caminho enxerga para o futuro da esquerda e a melhor estratégia para ela voltar a ter protagonismo político?

BOULOS: Eu acho que a esquerda precisa retomar uma aposta na mobilização de rua, na luta direta, como um elemento fundamental da sua estratégia. Se nós olharmos os últimos 20 anos ou mais, o campo da esquerda foi migrando de uma prática que era muito ligada a movimento, a rua e a trabalho de base, para uma completa institucionalização. É evidente que a disputa institucional é importante, mas você precisa ter respaldo na mobilização popular. Você obtém ganhos institucionais e ainda assim se deixa refém de fazer os acordos com quem sempre comandou as instituições brasileiras, o Estado brasileiro. Ou seja, o Estado brasileiro é iminentemente conservador, atrasado, oligárquico. Então, se não houver uma força viva de ampla mobilização popular, as mudanças não ocorrem, ou ficam muito limitadas. O último período deixa isso como lição, que é preciso ter mobilização do povo pra enfrentar um governo golpista, ilegítimo – como é o do Temer. Por que não resistimos ao golpe? Porque a massa trabalhadora, o povo das periferias não veio às ruas. A resistência foi de militância, setores progressistas. O grande protagonista da luta social no Brasil não entrou em cena, nem de um lado, nem de outro. Nem foi de verde e amarelo para a Paulista, nem foi conosco resistir ao golpe. Então, para que a gente possa obter vitória no enfrentamento ao governo Temer e ao ataque aos direitos, vai ser preciso reconstruir a capacidade de mobilizar as massas. Isso se faz com trabalho de base, com comprometimento com as pautas do povo. Com a luta por direitos. 

 

Acha que a mobilização popular se dará antes da representação política partidária?

BOULOS: Certamente. Se você pegar a experiência do próprio PT, por exemplo. O PT, para obter vitórias e espaços na instituição, se construiu na base do movimento sindical, das comunidades eclesiais de base, nos movimentos populares, de ocupações rurais e urbanas. A força social precede a força política. Senão a força política fica flutuante, e aí, volto a dizer, uma força política flutuante está sujeita – pra poder se sustentar e obter a tal da governabilidade – a fazer todo tipo de acordo promíscuo com a casa-grande. Então, eu não tenho dúvida de que a maior tarefa que está colocada hoje para a esquerda, para o movimento social, para o povo brasileiro, é a tarefa de ampla mobilização social; de reconstrução pela base nas ruas. Reitero: não há uma dicotomia, não há um antagonismo. A disputa institucional precisa ser travada: não vamos falar, agora vamos todos para a rua e abandonamos a disputa institucional. Não pode. A disputa institucional deve ser travada, mas não se pode ter uma ilusão de que ela é a solução dos problemas. Portanto, o investimento prioritário de forças não pode ser nela.

 

E nesse sentido de mobilização, como analisa a eleição do Doria como prefeito em São Paulo? A periferia também deu apoio e votou nele. 

BOULOS: O Doria se elegeu com apoio maciço de todas as regiões da cidade. Se você pegar o índice de votos dele na periferia, não o levaria a ganhar no primeiro turno.

 

Mas ainda sim ele ganhou na maioria dos colégios eleitorais da cidade...

BOULOS: Mas perdeu no Grajaú e em Parelheiros. Agora, os índices maiores do Doria, que o permitiram vencer no primeiro turno, foram, obviamente, nas regiões mais ricas da cidade. Agora, é verdade: a periferia votou no Doria também.

 

Voltando a questão da desmoralização feita pela mídia. Em teoria, as pessoas não têm as ferramentas da internet para confrontar essa situação?

BOULOS: Vejamos, a internet, embora seja crescente, ela ainda não é totalmente abrangente e não é exatamente democrática. A televisão continua sendo, de longe, o principal meio de comunicação de massa no Brasil. Eu gostaria muito de crer, mas não partilho da ideia de que a televisão está indo para a sua bancarrota. O rádio, incrivelmente, ainda continua sendo um mecanismo extremamente eficaz, e é concentrado, assim como a televisão. Quem parece estar numa crise brutal são jornais impressos, e a internet evidentemente cresce, só que também na internet existe uma atuação, a internet não é terra de ninguém, existe mobilização organizada na rede. Você pega o Facebook, pega as empresas que fazem intervenção em rede social, que são contratadas pra fazer linchamento ou defesa de um grupo ou de alguém; de uma ideia. Ou seja, existem técnicas pra intervir na internet. Nós vimos os movimentos de direta que foram às ruas em defesa do impeachment fazer isso de forma evidente, com muito dinheiro, inclusive.

 

Construindo uma narrativa...

BOULOS: Claro, uma narrativa, uma orientação de rede... e isso implica dinheiro. Então a internet não é exatamente democrática, quem tem dinheiro tem condições de ter muito mais espaço de rede nas redes sociais, nos sites, onde quer que seja. A internet, na minha opinião, embora abra mais janelas para um discurso contra hegemônico, ela não resolve nosso problema. Agora, eu dizia que, embora tenha toda essa criminalização e desmoralização, existe uma coisa que isso não contém: a necessidade. O avanço da necessidade e da demanda do povo. Veja, estamos em uma recessão brutal; as políticas desse governo só vão ampliar o peso dessa recessão nas costas do povo. O Brasil pode até voltar a ter, daqui a um tempo, crescimento econômico, mas esse crescimento vai ser totalmente apropriado pela casa-grande. A PEC 241, por exemplo, acaba com o investimento em moradia. Você tem políticas que levam à redução da massa salarial, à redução do salário mínimo, aumento do desemprego. Ou seja, isso vai levar a explosões nas cidades brasileiras, e o tema da moradia vai estar central aí, porque o cara hoje consegue pagar o aluguel, mas e se ele ficar desempregado amanhã? E se o salário dele arrochar amanhã? Hoje, ele ainda tem a esperança – porque existe uma política pública que oferece moradia – de poder ser atendido por essa política pública. E como vai ficar com o fim disso? Cada vez mais não resta outra alternativa para as pessoas que não seja se organizar e lutar. No caso da moradia, fazer ocupações. Então, ao mesmo tempo que você tem uma tendência duríssima contra os movimentos, de desmoralização e criminalização, você tem – por baixo – uma força social incontida, que tende a crescer. E, por isso, eu acredito que o futuro do MTST é um futuro de ampliação das lutas sociais e um futuro de crescimento.

 

Você enxerga o MTST se juntando com outros movimentos que tenham outras demandas sociais?

BOULOS: Olha, nós construímos uma iniciativa que é a Frente Povo Sem Medo, da qual o MTST faz parte; o IPDM faz parte; um conjunto de setores e de movimentos também ligados à moradia e à luta comunitária – o MLB, brigadas populares – também fazem parte; que é um espaço onde a gente tenta ir além da nossa reivindicação específica e entende como um espaço de unidade da esquerda dos movimentos sociais por pautas mais amplas. A Frente Povo Sem Medo foi uma das principais protagonistas da luta contra o golpe e depois pelo “Fora Temer”.

 

Então nós entendemos que esse é um espaço importante. E que de certa forma une as demandas sociais...

BOULOS: Isso. É importante aglutinar, unificar lutas, articular demandas diferentes, mas que, ao fim, se juntam num mesmo enfrentamento.

 

E o que você diria para a parte da população que tem outras demandas? O que diria para a parte da classe média que foi pedir o impeachment da presidente? Acredita que eles foram enganados?

BOULOS: Venderam peixe podre para a classe média. Venderam para a classe média uma narrativa da corrupção, de que o PT era o partido mais corrupto da face da Terra, de que o PT inventou a corrupção e de que a solução seria tirar o PT do poder e os problemas estariam resolvidos. Só que não, porque o PT saiu do governo para entrar um grupo que é envolvido até a medula em qualquer esquema de corrupção no país desde o início da nova República, que é o PMDB. Figurinhas carimbadas, metade do ministério indiciado por corrupção, alçado ao poder por um Parlamento sem moral, sem legitimidade, e totalmente corrupto. Então, a parte da classe média – porque eu não acho que é toda que se ludibriou – mas a parte da classe média que foi ludibriada com esse processo tem toda a razão de entrar com ação por estelionato, contra o MBL, contra essa gente toda, e de se sentir enganada. Agora, precisa tirar uma lição disso. Não basta se sentir enganada e agora ficar assistindo ao que se desdobrou disso tudo. É preciso pegar aquela mesma energia que tiveram para vestir uma camisa amarela e para bater panela nas sacadas para se juntar às lutas e mobiliza- ções contra esse governo do Michel Temer.

 

Você acha que falta diálogo da esquerda com a classe média, por exemplo, e com outros setores da sociedade e da política?

BOULOS: Eu acho que uma esquerda que não queira dialogar com os mais amplos setores e que não esteja disposta a fazer o esforço de convencimento, seja por ressentimento ou por qualquer outra coisa, é uma esquerda que não está preparada pra assumir os desafios históricos. Agora, existe uma outra parte dessa classe média, que eu diria que é a classe média tradicional, nos grandes centros urbanos em especial.

 

O setor mais conservador...

BOULOS: Sim, que é um setor que, historicamente, pensa com a cabeça da casa-grande. É um setor que pensa na lógica dos privilégios, que, digamos, com algum grau de ascensão social que os mais pobres tiveram, particularmente no governo Lula e no governo Dilma, esse setor se sentiu incomodado. Não porque ele perdeu objetivamente, mas porque ele teve perdas relativas. Porque agora ele tem que pagar direito trabalhista para empregada doméstica; porque o aeroporto não é mais só dele; porque tem o constrangimento de ter preto estudando com o filho dele na universidade. Esse segmento mais rançoso, historicamente mais conservador da classe média, esse foi às ruas por convicção, não por estar enganado; esse, hoje, deve estar se sentindo feliz com a retomada dos seus velhos privilégios relativos. Esse setor deve se sentir aliviado e com a missão cumprida.

 

E para onde você acha que foi aquele eleitor que sempre votou na esquerda, que votou no PT e agora está desiludido.

BOULOS: Eu acho que ele se dividiu em três vertentes: a primeira é ter ficado no PT, uma parte dessas pessoas continuaram votando no PT; digamos, um voto de opinião, progressista. A segunda foi com o PSOL; o PSOL canalizou uma parte desses votos, cresceu. A candidatura da Luiza Erundina, que embora no final tenha sido muito desidratada pelo voto útil, mas o Freixo, no Rio de Janeiro; o Edimilson, em Belém; você teve tanto em Florianópolis como em Cuiabá o PSOL com mais de 20% dos votos; em Porto Alegre com mais de 10%; tendo vereadores mais votados em várias capitais, em especial vereadoras, mulheres. Então, uma parte desse voto – ainda insuficiente, na minha opinião, para dizer que o PSOL tomou o lugar do PT, não tomou – mas uma parte desses votos foi para o PSOL. E uma terceira vertente, uma parte desses votos foi para o não, para o “ninguém”; foi para o voto nulo, abstenção; para a desilusão política, que continua crescente. Não foi um fenômeno que surgiu nessa eleição, já vinha numa escalada, mas nessa eleição assumiu em alguns lugares níveis recorde. No Rio de Janeiro, 41%; em Belo Horizonte, 42%. O eleitorado simplesmente não votou, ou votou nulo e branco. Em São Paulo foi 30 e tantos por cento. Em um país onde o voto é obrigatório, essa cifra é considerável.

 

E qual é a consequência que você vê dessa aversão à política para a democracia brasileira?

BOULOS: Eu acho que antes de pensar o que isso significa para a democracia, é interessante a gente fazer a pergunta inversa e entender como esse modelo de democracia levou a isso. A democracia no Brasil sempre foi muito frágil, o sistema político definido pela nova República foi um sistema de arranjo, que, embora tenha introduzido o voto popular direto, ele manteve algumas travas decisivas à participação popular, como o modo de eleição do Congresso Nacional, que favorece as oligarquias locais. Nunca houve uma maioria progressista no Congresso Nacional. Essa coisa de ser totalmente permeável ao interesse econômico pela forma de financiamento de campanha e fechado aos mecanismos de baixo; de participa- ção popular; plebiscitários; de acompanhamento direto das gestões pelo povo; conselhos... enfim, essa democracia está totalmente descredibilizada, ela chegou a um esgotamento. Então, é compreensível que as pessoas rejeitem a política, há uma razão concreta para isso; esse modelo político não apresenta alternativa para a vida das pessoas. Não oferece sonhos, perspectivas. Não oferece solu- ções. Esse modelo político está carcomido, esgotado, falido. Então, é legítimo que as pessoas rejeitem essa forma de fazer política e associem isso à política de forma geral, porque é a forma que está dada e que eles conhecem. Agora, evidentemente, o efeito disso é perigoso, porque a negação da política em si e a negação de saídas políticas levam a alternativas sempre perigosas e preocupantes. Pode levar à ideia do gestor: eu substituo o político pelo técnico, pelo gestor – João Doria, em São Paulo; Donald Trump, nos Estados Unidos; de algum modo, Berlusconi, na Itália; – e pode levar a saídas messiânicas, proto-fascistas: a política não presta, tem que vir alguém acima da política, com o tacão na mão, salvador. Não é à toa que nas últimas pesquisas – não sei se foi o Datafolha que fez – saiu uma agora, esse ano, de que nunca foi tão baixa a aposta na democracia como melhor forma de governo, e aí as pessoas começam a ter uma simpatia genérica por governos ditatoriais. Então, essa perspectiva de negação da política é extremamente preocupante, a esquerda não pode ir nessa onda. Mas, ao mesmo tempo, a esquerda tem que ser capaz de compreender os motivos legítimos que fazem as pessoas negar a política, e isso implica se apresentar como algo diferente do “mais do mesmo”. E implica em ter abertura pra dialogar com esse sentimento antipolítico. Não para legitimá-lo, mas para oferecer alternativas que sejam políticas, porém contra essa forma de se fazer política. Claramente contra esse sistema político.

 

Acredita em um outro caminho, um caminho de organização de resistência?

BOULOS: Eu não acho que esse caminho seja diferente. Acho que quando se fala de política, isso é política também. O MTST, por exemplo, é um movimento eminentemente político, embora não dispute eleições. A política não deve se reduzir à disputa institucional. A resistência de rua é uma forma de fazer política. E qual é sua aposta?

 

Acha que as pessoas vão se sensibilizar mais para o ativismo por meio de organizações ou pelo sistema partidário e institucional?

BOULOS: A instituição está mais desgastada hoje. Então surgem novas formas de ativismo como resultado disso, mas essas formas não podem negar a política. Essa é a encalacrada em que nós estamos. Nós precisamos apresentar um projeto político para um enfrentamento disso, mas ao mesmo tempo, esse projeto político tem que ter uma demarcação clara contra este modelo e este sistema político. Esse é o desafio de narrativa e de prática que está posto para a esquerda hoje.

 

Internacionalmente vemos o nascimento de projetos alternativos como o Podemos e o Syriza? Acha possível isso acontecer aqui?

BOULOS: Eu sou muito simpático à experiência do Podemos, gosto muito. Tive a oportunidade de ir lá conhecer um pouco mais de perto, e acho que a experiência do Podemos é uma experiência equilibrada e que tem conseguido demarcar. Claro, para o contexto espanhol. O tipo de movimento popular que se faz na Espanha é diferente do tipo que se faz no Brasil. A composição social é bem diferente. Agora, o Podemos vem de um caldo de mobilização de rua, que foi o 15M, movimento dos indignados, em 2011. O Podemos não surgiu imediatamente daí, ele só vai surgir em 2013 -2014, mas ele vem desta construção, deste caldo social de negação. A crise de representatividade. Então, o Podemos nasce daí, mantém uma vinculação forte com essa base articulada a movimentos organizados. Mas por exemplo, a Plataforma dos Afetados por Hipoteca, que veio a eleger a prefeita de Barcelona, foi um movimento forte que participou dos indignados e que tinha uma pauta muito concreta – da moradia também, contra os despejos por conta da crise financeira, porque os bancos estavam tomando as casas das pessoas. Então essa plataforma teve um papel importantíssimo na formação do Podemos. Vários dos quadros atuais do Podemos são originários da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca. Tem uma vinculação com movimento social. O Podemos mudou, em dois anos, o bipartidarismo secular espanhol e se tornou o terceiro maior partido, colado no Psoe e PP.

 

E qual deveria ser o papel da esquerda brasileira no campo institucional?

BOULOS: Eu acho que o papel da esquerda é fazer a disputa em todos os campos em que ela esteja, agora, é preciso ter em mente que o modelo, por exemplo, adotado pelo PT a partir dos anos 90 – que foi foco na disputa institucional e despotencialização da mobilização de massa – esse modelo esgotou e deu no que deu, na absorção e adoção das mesmas práticas políticas, que historicamente marcaram o Estado brasileiro. Não houve a oxigenação por fora e não houve nenhuma preocupação em tê-la, ao contrário, houve até um direcionamento pra engessar e desmobilizar.

 

Você acha que o PT vai ter capacidade de se conectar com essa base social novamente?

BOULOS: Eu acho que se encerra um ciclo na esquerda brasileira. O PT bateu no limite. Mas eu acho que ainda não surgiu aquilo que possa vir a tomar esse lugar. Nós temos, nesse momento, um vácuo; o PT não tem mais condições de ser o guarda-chuva que foi unificando o conjunto da esquerda, mas não surgiu um instrumento, uma organização, que ocupe este lugar. Ainda. O PSOL cresceu, é expressivo, merece o reconhecimento e respeito. Nós do MTST temos uma relação muito próxima e de aliança com o PSOL, mas ele não ocupa ainda esse lugar.

 

Acredita que deva surgir algo novo em breve?

BOULOS: Vai surgir algo novo no país. Existe espa- ço para que surja algo novo, existe todo um setor da sociedade que está órfão e que clama por alguma alternativa dessa natureza. O que vai ser esse algo novo ainda não está claro, mas eu acho que cabe às forças políticas preocupadas com o futuro da esquerda e engajadas na esquerda brasileira, pensar e se envolver na constru- ção desse processo.

 

Você acha que virá pelas questões do trabalho e da classe operária tendo em vista que atualmente os sindicatos estão, de alguma forma, menos mobilizados do que na época do PT?

BOULOS: Acho que o movimento sindical tem papel chave. Não dá para pensar a transformação social num país como o nosso sem a participação dos trabalhadores organizados, mas surgem outros tipos de movimento. Surgem movimentos organizados pelo território, movimentos organizados em torno de, digamos, causas que, historicamente, na esquerda foram chamadas de direitos humanos: causa específica de gênero, a luta das mulheres; luta LGBT; movimento negro. Então, surge algo dinâmico. Surgem novos movimentos de juventude, expressos principalmente na luta dos secundaristas no último período. Estamos nesse momento com 500 escolas ocupadas (o número passava de 1000 até o fechamento desta edição). Isso não pode ser desprezado, tem forças vivas da sociedade se articulando. A luta pelo direito à cidade e um conjunto de outros movimentos que não se organizam diretamente pelo espaço do trabalho... Então, eu acho que o novo na esquerda brasileira tem que surgir da conexão entre essas várias frentes.

 

E olhando para o aspecto mais local da vida do cidadão nas cidades, como conseguir fazer as pessoas despertarem para mobilização?

BOULOS: Eu acho que nós temos que fazer o esforço contínuo de enfrentar essa muralha que é o monopólio dos meios de comunicação. Isso faz com que as pessoas tenham uma visão passiva e apassivadora da realidade. Mas eu acho que, fundamentalmente, as pessoas se movimentam pelas suas demandas mais concretas, suas necessidades. Eu acho que quando a necessidade bate à porta é que as pessoas são mais impelidas a se mobilizar e a pensar em alternativas de luta e em novas alternativas políticas.

 

Acredita que a mudança virá pela campo da realidade e menos pelo conscientização?

BOULOS: Claro que é também uma disputa de consciência, de narrativa, uma disputa simbólica. Isso, evidentemente, está em jogo cada vez mais na nossa sociedade. Isso é fortíssimo e fundamental, mas acho que os grandes momentos de mobilização popular e ascenso de lutas na história estão marcados à luta por diretos sociais e à luta por direitos muito concretos, que estão relacionadas à condição de vida das pessoas, a deterioração dessas condições de vida. Você pega o ciclo que gerou e impulsionou o Partido dos Trabalhadores; ele foi, antes de tudo, impulsionado por grandes greves por conta de arrocho de salário, condições de vida reais de milhares de metalúrgicos. Isso gerou as greves do ABC, que foi um movimento capaz de se propagar e ter uma força política que gerou um partido, um presidente da República e todo um processo político. Isso veio de um movimento concreto e real, isso não veio simplesmente de ideias. Claro que isso se juntou, se amalgamou com gente que estava pensando no Brasil, com outros tipos de movimento, com setores da Igreja, progressistas... mas o sopro foi um sopro de luta por necessidade. Então, por incrível que pareça, esse processo de destruição que eles estão protagonizando no Brasil nesse momento, destruição dos direitos sociais, é um processo que vai deixar também um rastro de resistência e de reação que pode impulsionar grandes lutas.

Qual sua expectativa para as eleições de 2018?

BOULOS: Acho muito difícil dizer o que vai acontecer em 2018 pela gravidade do que tende a acontecer em 2017. Em 2017, em um ano, essa gente pode tentar destruir uma rede de proteção social de 30 anos – 30 anos nós estamos falando em rela- ção à Constituição. Agora, em relação a direitos trabalhistas: a CLT é da década de 40, nem a ditadura militar ousou mexer na CLT. Essa gente, em um ano e meio, dois, quer destruir a CLT. A gravidade do que está acontecendo, o risco de regressão no país é tremendo. Então, é difícil dizer o que isso pode movimentar ou o que isso pode gerar e como vai estar a percepção do povo sobre esse processo em 2018, entende? Você pode ter os efeitos desse processo ainda não materializados na população e você ter uma eleição de um segmento de direita, ainda nesse clima de direita conservadora, ou o povo pode ter começado a perceber e acordar em relação a esse projeto de terra arrasada. A perceber que o golpe foi contra ele – contra milhões de pessoas no país – e aí, se perceber, isso abre espaço para outras alternativas. Seja o Lula, se não inviabilizarem a candidatura dele, pois há uma tendência fortíssima de querer destruir o Lula. E quem ataca o Lula hoje não ataca pelos seus erros, ataca pelo o que ele representa, ou seja, por representar o ponto de vista popular. Muitos ainda o percebem como representação da esquerda, embora os seus governos não tenham sido propriamente de esquerda. Não sei como o Lula vai chegar a 2018, não sei como a esquerda, como a nossa capacidade de resistência e reação vai estar em 2018, depende de todos esses fatores.

 

Guilherme, e sobre você? Onde você mora?

BOULOS: Na periferia de São Paulo, no bairro do Campo Limpo.

 

Você tem filhos? Como é seu dia a dia?

BOULOS: Tenho duas filhas, trabalho e dou aula. É a forma como é minha rotina e minha vida. Mas dedico uma parte importante do meu tempo para a militância que eu optei fazer: no MTST; na construção da Frente Povo Sem Medo; no debate das alternativas para a esquerda brasileira– isso consome uma parte expressiva do meu tempo – presente nas ocupações; assembleias; atividades junto à militância do movimento; atividades junto a outros movimentos sociais; ajudando a construir o movimento pelo país, com atividades em várias cidades.

 

Suas filhas têm que idade?

BOULOS: Uma de quatro e outra de seis anos.

 

E que futuro que você acha que elas vão ter? Elas vivenciam a sua rotina?

BOULOS: Claro. Às vezes vão comigo para ocupa- ções, minha companheira também é militante do movimento, então não há fuga. Mas a gente conversa muito sobre isso, está presente na formação delas, e eu acho que vão ser pessoas que, onde estiverem, com as opções que fizerem, vão estar lutando. Espero isso e tento formá-las para isso.

 

 

 


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