Como Medellin usou a cultura para combater a violência

  • 28 de Dezembro de 2017

*Publicado originalmente na Cidadanista

 

Medellín viveu uma das ondas mais assustadoras de violência durante os anos 1990. Nos tempos de Pablo Escobar e dos cartéis, o município chegou ao incrível número de quase 400 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

Para se der ideia, hoje Caracas é a cidade considerada mais violenta do mundo com um índice de 130 assassinatos por 100 mil, segundo ranking da ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz, que elabora anualmente a lista das 50 cidades mais violentas do mundo.

Líder por muitos anos, desde 2015 Medellín não figura mais no ranking, tendo alcançado a taxa de 20 por 100 mil. Seu índice caiu ao longo dos anos 1990 e numa segunda onda nos anos 2000.

Um dos trunfos considerados por quem fez parte desse processo foi um investimento significativo em educação, cultura e participação popular, sobretudo nos bairros mais afetados pela violência. Os investimentos do Estado transformaram o espaço público e até os pontos turísticos da cidade, ajudando a superar os estigmas.

A Cidadanista conversou com Jorge Melguizo, hoje palestrante e consultor em políticas públicas. Ele foi secretário de Cultura e Cidadania e também de Desenvolvimento Social em duas gestões da prefeitura. “O contrário da insegurança não é a segurança, mas a convivência”, costuma dizer.

 

Como se deu a estratégia de uso da cultura para enfrentar violência no caso de Medellín?

De três maneiras. Uma delas é com projetos culturais, que fazem parte de projetos urbanos integrais mais amplos, em bairros de muitíssimo conflito. Não falo de bairros violentos, mas bairros violentados. Ou seja, esses bairros não são causadores, mas vítimas dessa violência. É como se a uma pessoa estuprada você chamasse de estuprador, o vitimam duplamente, o culpabilizam por algo que está sofrendo.

Nos bairros mais violentados de Medellín nós desenhamos projetos urbanos integrais, que são intervenções articuladas entre Estado e sociedade, com alianças público-privadas-comunitárias, com espaços comunitários, fortalecendo as organizações de base, potencializando o que já existe no bairro, gerando outro tipo de alternativas e trabalhando articuladamente com todos os níveis de governo e todas as entidades.

Isso eu chamo de uma orgia institucional. Não se trata de trabalhar juntos mas trabalhar misturados, todos. Não é construir o objetivo de cada secretaria para o bairro, mas traçar o objetivo da prefeitura para esse bairro. E aí ver como cada secretaria pode colaborar para alcançá-lo. Então a primeira parte é ter a cultura como parte de um projeto maior de cidade.

A segunda resposta é colocar a cultura como chave nesses projetos, como essência deles, a partir de um conceito que define cultura como apreciar a própria vida e aprender a viver com o outro.  Um projeto de cidade e de sociedade que tenha uma dimensão cultural, que considere a cultura como direito, como acesso, como possibilidade de pensar, de nos assumir, com uma possibilidade de construir um elemento comum de sociedade, uma cultura que nos construa como cidadãos, ou seja, que construa a cidadania.

Isso é um dos déficits que temos na América Latina. Possuímos baixíssima cultura política, de respeito ao outro, do entendimento da diferença. Temos cultura classista, somos uma sociedade classista, racista.

O terceiro elemento, no qual se baseia todo nosso projeto de Cultura Viva Comunitária em Medellín, se concentra em quatro palavras: conhecer, reconhecer, valorizar e potencializar. Ou seja, uma cultura para conhecer, reconhecer, valorizar e potencializar o que já existe nos bairros. Já existe sem o Estado, apesar do Estado ou contra o Estado. São pequenos laboratórios de paz e de convivência que já existem nos bairros e que precisam ser conhecidos, reconhecidos, valorizados e potencializados. Organizações de rappers e grafiteiros, grupos de teatro comunitário, projetos econômicos de inclusão cultural para construir outro tipo de sociedade, tudo isso já existe, mas que potencializados podem ter mais força.

E como o Estado pode apoiar esses projetos?

Em Medellín, convertemos em política pública, em estratégia política e em orçamento público. Isso é o que os governos podem fazer. Eles os governos estão aí para escutar, para a partir disso potencializar, o que significa dar uma prioridade maior.

Na política há três palavras, que são a esperança, os feitos e os símbolos. Então a política tem que produzir esperança. Mas os feitos é que são a concretização política da esperança. Um governante dedica prioridade em sua gestão aos orçamentos e aos feitos que considere mais relevantes para essa sociedade. Podemos medir as prioridades de um governo ao medir a que está destinando o orçamento. Quando uma sociedade dedica, como em Medellín, 45% do orçamento para a educação e a cultura, entende-se para que tipo de sociedade está apontando.

No orçamento municipal nos últimos treze anos entre 30% e 40% foi para a educação e entre 3% e 5% para a cultura. Quando chegamos à prefeitura há 13 anos, o orçamento era 0,6% para a cultura e 12% para a educação.

O orçamento do governo colombiano para a cultura é 0,2% do orçamento nacional. Em dez anos, com dois governos diferentes, o Ministério da Defesa da Colômbia teve um orçamento equivalente a 2100 anos do orçamento do Ministério da Cultura. E numa segunda reflexão: o orçamento do Ministério da Cultura em 2017 equivale a dois dias do orçamento anual do Ministério de Defesa.

Qual a importância da revitalização do espaço público nesse processo?

Durante muitos anos o espaço público em Medellín foi o espaço do medo. Tivemos 21 ou 22 carros-bomba que explodiram durante dez anos nos espaços públicos da cidade.  Na saída da Praça de Touros depois de uma tourada, matou muita gente. Ou em frente a um bar numa zona de classe média alta de Medellín, matou seis pessoas e feriu 21. Ou num show de rock popular num parque no centro da cidade, matou 21 pessoas no meio do show, quando colocaram a bomba no buraco de uma escultura de Fernando Botero, que além do mais, era a escultura da pomba da paz.

Durante seis meses no ano de 1991 tivemos toque de recolher todos os dias às dez da noite. O ano de 1991 foi o pior ano, com 18,3 mortos diários, 6700 mortes violentas, 382 mortes por 100 mil habitantes. Hoje cidades com maior mortalidade do mundo, como Caracas e San Pedro Sula, em Honduras, tem cerca 130. Ou seja, há 25 anos Medellín teve 382, a média mundial é seis. Tivemos oitenta vezes mais do que a média mundial. É uma aberração.

Então, quando começamos a construir um projeto de transformação, pensamos que o espaço público tem que passar de espaço do medo para o do encontro cidadão.  E tem que ser um espaço público de qualidade, com intervenções muito fortes.

Precisa ser um espaço público integrado, que tenha poder de convocar as pessoas. Além disso, tem que ser um espaço público em que permanentemente aconteça algo, o que chamamos de animação urbana: projeto cultural, projeto esportivo, projeto recreativo. Hoje, nossas praças e nossos espaços públicos são onde as pessoas estão.

Há espaços que eram fechados, como o Jardim Botânico, que cobrava para entrar e desde 2008 é um parque aberto à cidadania, com catorze hectares. Ou inclusive os museus, o Parque Explora. Os grandes equipamentos culturais que fizemos na cidade nesses anos têm entrada livre, os museus tradicionais têm entrada livre para 80% da população, se converteram em espaços públicos, eram espaços negados para a maior parte das pessoas por falta de oportunidade econômica.

Parte de nosso projeto é que nos bairros mais duros os equipamentos culturais são simbólicos dentro desses projetos integrais. Falei na política da esperança, dos feitos e dos símbolos.

Em bairros como Moravia, antigo lixão da cidade, se construiu um grande centro cultural, que hoje é o símbolo do local. Nesse bairro de 40 mil habitantes se fizeram investimentos públicos de uns 100 milhões de dólares. Saneamento, aqueduto, vias e outros. Mas o investimento no edifício do centro cultural foi de 2,5 milhões de dólares. Ou seja, 2,5% do que se investiu. Entretanto, é o símbolo do bairro.

E esses projetos, como os parques-bibliotecas, têm com marca construções arquitetônicas bem ousadas e impactantes…

Sim, eu estive a cargo dos parques-bibliotecas, e são equipamentos assim como os colégios públicos, de qualidade. Em nossos bairros, o principal edifício era o templo. O maior, o mais simbólico, o mais visitado. E todas as igrejas são negócios privados. Independente da sua crença ou sua fé, tem que reconhecer que as igrejas são negócios privados, não são um assunto público.

Os templos eram os principais edifícios nos bairros e os cartões-postais de Medellín eram edifícios privados, como das indústrias têxteis. Há doze anos os cartões-postais de Medellín e os edifícios mais simbólicos e mais visitados são os edifícios públicos, culturais e educativos. É a construção do símbolo.

Medellín hoje tem nove parques-bibliotecas aos quais vão 110 mil pessoas por semana. Isso significa encher nosso estádio de futebol 2,5 vezes, sem a publicidade, os meios de comunicação que tem o futebol, sem que todos os dias jornalistas nos mostrem a menina que entrou no parque-biblioteca pegou um livro e está lendo, como mostram Messi ou Neymar diariamente.

E qual a relação dessas comunidades com esses grandes equipamentos culturais?

É motivo de orgulho, de autoestima. Tem a ver com o que se dizia sobre a cultura como elemento de construção de cidadania. Um projeto cultural impulsiona a participação cidadã. Ou seja, participar é um assunto cultural, não participar também. Quando você consegue que as pessoas participem nos assuntos públicos, quando converte o público em desafio coletivo, isso é um triunfo cultural.

O que aconteceu em Medellín tem muito disso, não foi tarefa de um líder iluminado ou de um grupinho de valentes. É um processo coletivo de 25 anos, em que participam a comunidade, organizações sociais, Ongs, igrejas, universidades, dirigentes públicos etc. E esse desafio coletivo se converte em outra maneira de assumir a participação, que é a apropriação, isto é, nos apropriamos do público, defendemos o público, construímos o público, que, portanto, também é meu. Então esse equipamento cultural é meu, é motivo de orgulho, mas também de cuidado.

Essa visão de que nos bairros mais pobres não se cuida do patrimônio público parte de um preconceito de que as classes média e alta cuidam das coisas e a classe baixa não. Também parte de um processo de educação cidadã permanente. Os projetos públicos não podem ser meteoritos que caiam sobre a população.

Nenhum desses parques-bibliotecas, centros culturais ou projetos públicos de qualidade  que fizemos caíram como um meteorito sobre o bairro. O projeto precisa ser construído também conjuntamente com a comunidade. Mas há um terceiro elemento: quando o público é de excelente qualidade gera um círculo virtuoso, as pessoas cuidam das coisas públicas ao ver que os benefícios são para eles.

Você costuma falar da importância de conhecer o território e a geografia social para aplicar as políticas públicas. Como isso deve se dar na área da cultura?

Quando você escuta as organizações de bairro de todo tipo, têm muito a oferecer. Na Colômbia, temos um ditado que diz que quando um pobre estende a mão para cumprimentar, lhe dão esmola. Acham que está pedindo. Eu pego esse ditado e inverto: quando a organização estende a mão é para lhe oferecer. E o que uma organização de bairro oferece a um governo, ao Estado? Oferece o conhecimento da geografia do território. Conhece cada beco, cada centímetro do seu território. Conhece a geografia social, os coletivos, agrupações, lideranças, conhece a geografia humana. Sabe quem engravidou a noite passada (risos). Saber quem engravidou na última noite é válido para um bairro porque vão saber que em nove meses vai nascer uma criatura que deve ser atendida e que durante esses nove meses deve ser acompanhada no pré-parto.

Além disso, essas organizações de bairro, culturais ou não, têm conceitos, metodologias, processos, produtos e resultados. Tudo isso é o que oferece. Dizem: “Olha governo, façamos as coisas juntos, ponha um pouco de dinheiro e eu coloco tudo isso que eu conheço”. Isso vale um montão. Um governante ou um funcionário público demoraria anos para conhecer isso. Então é importante aproveitar essa sinergia, essa construção coletiva, o público como construção coletiva.


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