“Bem Viver é quando todos se permitem compartilhar”- Entrevista com Apurinã Pupingary

  • 31 de Janeiro de 2016

Originária do povo Apurinã Pupingary que habitam há séculos na região do Médio Purus (Acre, Amazonas, Rondônia), mestre em Educação e Tecnologia, a indígena Kuáwá Apurinã, foi uma das convidadas do seminário realizado pela RAiZ -Movimento Cidadanista como atividade autogestionária dentro do Fórum Social Temático em Porto Alegre.

Ela debateu o tema do Teko Porã (ou Bem Viver), uma das sementes que servem de base para fazer brotar o pensamento e ação da RAiZ, reunindo a contribuição do saber e das práticas ancestrais indígenas para a preservação da Mãe Terra e como possível horizonte para construção de um planeta melhor.

- O que é o Bem Viver desde a cosmovisão do seu povo?

Na cultura indígena Apurinã, o Bem Viver provém da essência do homem. Porque quando o ser humano nasce em nenhum momento ele quer sofrer qualquer tipo de abuso ou violência. Então o modo em que nós vivemos é o Bem Viver. Porque vivemos em espírito de coletividade, de solidariedade, de fraternidade. Quando digo isso alguém pode dizer: “ah, mas ela está pensando na França”… Não, estamos pensando em nós indígenas, porque nosso modo de viver é um Bem Viver a partir da solidariedade, da fraternidade. Se sou solidário eu sou fraterno, e se eu sou fraterna nós somos iguais, mas essa igualdade não provém de caixas e formatações, ela provém da nossa diversidade, do respeito a sua cultura e você respeitar a minha cultura, e nós convivermos. Falo em empoderamento, falo em compartilhamento, vamos compartilhar, vamos dividir, mas dividir de modo que todos se alimentem, não que uns se alimentem e o outro passe fome. Isso não é bem viver. Bem Viver é quando todos são solidários, todos se permitem compartilhar. O modo de viver indígena Apurinã da região da Amazônia, nosso modo de pensar, provém da nossa essência, que é a mãe terra. O Bem viver é a mãe terra.

 

- Como essas mensagens e práticas podem contribuir para construir uma sociedade melhor no Brasil e no mundo?

Primeiramente, nós somos brasileiros. A terra era nossa mas compartilhamos com todos que vieram para cá também. A forma que nós podemos contribuir é que podemos compartilhar, podemos construir, mas não uma construção baseada no capital, em desigualdade, em políticas que não visem ao bem, políticas públicas que excluem mais do que incluem. Então a forma que nós podemos compartilhar é vivermos em paz e nós queremos paz, e queremos participação, não só aquela participação política, mas um reconhecimento de quem somos. Porque somos brasileiros, seres vivos, que vivemos de bem com a Mãe Terra.

- Em sua opinião, quais são os principais desafios para os movimentos indígenas hoje no Brasil?

A sobrevivência, a nossa briga contra a PEC 215, que chamamos de peste 215, PEC da Morte. Os desafios são muitos porque desde 1500 estamos passando por isso. Qual a importância de deter a aprovação dessa PEC? Ela visa transferir o poder do Executivo para o Congresso para demarcação das nossas terras, e para revisão das terras indígenas. E não só indígenas, começa pelos indígenas, vão vir os quilombolas e outros povos de tradição. E essa PEC vai pro Congresso. Eles teriam o poder e esse papel dizendo que podem fazer isso. No entanto, devemos pensar que eles não podem fazer isso, porque o Congresso hoje é um congresso ruralista que defende interesses do capital. E nós indígenas vamos perder nossas terras e nosso modo de viver. Então, quando falamos de PEC da Morte, PEC do Genocídio, a gente sabe o que ela vai nos trazer. E ela está ganhando força, mas nós também temos forças. Temos a força da nossa ancestralidade, a força das guerreiras, das mulheres e dos homens indígenas e a gente está lutando por isso. Mas essa PEC vai trazer a morte dos povos indígenas. Mais ainda, porque já se mata indígena no Brasil, muitos e muitos. Os Guarani-Kaiowá estão morrendo, morreu Vitor Kaingang, morreu Gaudino há muitos anos, morreu em outro parente em Belo Horizonte recentemente. Os pataxó tão brigando, os Mundurucu tão brigando, as hidrelétricas estão dentro das nossas terras, estão acabando conosco. Então temos que repensar esse modo de viver, porque quando se mexe com a natureza ela não é gestada, jamais a natureza pode ser gerenciada. E quando o ser humano começa a gestar/controlar capitalistamente a natureza ele está causando todo esse desequilíbrio que está acontecendo na terra.


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