A Arquitetura da Hierarquia e a cultura dos círculos

  • 22 de Setembro de 2016

 

Por Vitor Taveira*

Nos esperava uma grande noite, de compartilhar sonhos e esperanças. Era o lançamento oficial da RAiZ - Movimento Cidadanista, um novo sopro de utopia para construção de uma sociedade mais justa desde baixo e à esquerda.

O local escolhido era a Assembleia Legislativa do Rio Grande Sul, símbolo do poder político. Estávamos em meio à realização do Fórum Social Temático, em janeiro, na capital gaúcha, símbolo do poder social e cidadão. Mas não pude deixar de me assustar e incomodar com a situação arquitetônica em que nos encontrávamos.

Pela primeira vez, em tantas reuniões locais e nacionais da RAiZ, me enfrentava com a arquitetura da hierarquia. Quando nos encontramos com a estrutura de poder tradicional, ela nos foi implacável. A lógica circular em que conversávamos, discutíamos e até saudavelmente discordávamos, olho no olho, não era possível ali.

No salão parlamentar a hierarquia era clara: uma mesa principal reservada para as autoridades da seção, de frente para eles as cadeiras dos demais parlamentares e lá no fim, separado, as cadeiras para o resto da sociedade civil. O povo, lá atrás, é menos importante, é ouvinte, assiste mas não fala se não for convidado, não toma decisões nem controla o rumo dos debates ou votações.

Atrapalhados, nos movemos para formar um círculo para a mística de abertura. Logo, voltamos aos nossos lugares para nos moldar novamente à implacável arquitetura da hierarquia.

Uma das muitas coisas que me chamou a atenção na RAiZ - Movimento Cidadanista foi justamente a sua estrutura que busca horizontalidade, diálogo, consenso progressivo.

A proposta de construir o poder debaixo pra cima parte da organização dos círculos cidadanistas, que formam a base do partido-movimento, permitindo uma estrutura fluida, aberta, autônoma em suas decisões desde que respeitando os princípios básicos do movimento, construídos por consenso.

Círculos. Circularidade. Circulação. "O Círculo pressupõe a igualdade entre seus participantes e a quebra de qualquer hierarquia, e é a aplicação prática do princípio de democracia horizontal que a RAiZ busca concretizar", diz o Manual dos Círculos, um documento orientativo para quem queira começar a apoiar o brotar da RAiZ desde a base.

Porém, não se trata de uma novidade, muito pelo contrário. Vai no sentido de retomar formas organizativas tradicionais e tão presentes em nossa cultura. Roda de samba, de choro, capoeira, danças e rituais indígenas, roda de chimarrão. Sempre circular, sempre circulando as palavras, ideias e corporalidades de forma integradora e participativa. "Mais do que uma forma de se reunir, o Círculo representa uma nova práxis do ponto de vista de movimentos e do fazer político". É um desafio que estamos vivendo, não sem contradições.

Recentemente me encontrei novamente com a arquitetura da hierarquia num evento realizado justamente no espaço de conhecimento mais valorizado de nossa sociedade: a universidade. O que deveria ser uma roda focada na autoformação, com diversas pessoas expondo um tema e aprendendo outros, acabou sucumbindo à esse modelo do auditório construído para a hierarquia do saber: alguns ocuparam o lugar da frente e falaram para os outros, nas cadeiras reservadas para o "público assistente". Por mais que se queira enfrentar esse sistema, tornando a conversa amena e dialógica, sinto - e repito -que essa arquitetura em parece implacável.

Falo como leigo, sem conhecimentos de arquitetura e aceitando questionamentos. Mas acredito que ela seja reflexo da mesma sociedade em que vivemos, em que é importante marcar as hierarquias, em que o poder, se exerce a partir da reafirmação destas.

Fui pensar na universidade e me dei conta que o único espaço circular existente  na mesma é uma tenda, construída por estudantes no gramado central, de forma autônoma, não planejada pelo poder/administração central.

E lembrei também da experiência de construção de educação fora da lógica eurocêntrica, quando visitei a escola (fotos) construída, também de forma autônoma já que o governo não apoiou, pelo povo indígena misak no sul da Colômbia. Todas as salas, das crianças aos adolescentes, eram circulares. Ao centro, como na tenda da universidade, o espaço reservado para o fogo, onde geralmente as comunidades se reúnem ao redor para conversar, transmitir saberes, contar histórias e sonhos.

A professora parecia preocupa em deixar fluir os saberes e experiência de cada pequeno aluno, ao invés de controlá-los, algo muito mais fácil de fazer dentro da arquitetura da hierarquia, da vigilância, da ordem, fruto da sociedade industrial, como aponta o filme A Educação Proibida.

Não é que não exista poder, autoridade ou hierarquia em comunidades tradicionais. Porém, sempre que compartilhei com eles encontrei espaços de circularidade, mais fluidos, igualitários e muito acolhedores. Espaços de escuta, aprendizagem e harmonia. Sentindo-me por vezes sumamente ignorante diante da sabedoria de um ancião, mas sempre conversando de igual para igual.

Poder e autoridade sempre vão existir. Mas a arquitetura da hierarquia parece buscar reforçar o poder e autoridade por meio dessa coerção quase imperceptível, criando seus altares para os portadores de saber e poder. Aluno, não questione: aqui é entre quem ensina e quem aprende. Nada mais atrasado em plena sociedade da informação e das redes.

Boaventura de Sousa Santos nos deixa uma boa provocação: a universidade precisa de promover programas de extensão ao contrário: ao invés de ir às comunidades ensinar, ir à elas aprender, e promover uma ecologia de saberes, trazendo para dentro do espaço universitário os sábios que não passaram pelo crivo da cadeira acadêmicas, que guardam outros tipos de saberes que enriquecem nossa sociedade.

Nessa vida sempre teremos muito a aprender. Mas antes precisamos desaprender. Como subverter essa arquitetura e esse modelo de sociedade? O começo desse caminhar tão simples como complexo. Voltar à semente, aos saberes milenares, aos ciclos da terra, para partir daí recomeçar a construir. Perder a conexão com a terra, é perder o fio da meada. Ou talvez seja necessário até esquecer a meada, essa máquina industrial, e voltar a tecer o futuro com nossas próprias mãos.

Talvez seja necessário implodir sólidos edifícios concretos ou abstratos, das arquiteturas e dos conhecimentos intangíveis. Desmoronando essas construções coloniais poderemos finalmente construir algo mais profundo, com raízes.

Desconstruir essa arquitetura física e mental e criar novos espaços para o diálogo fluir não é um desafio menor para uma prática política que ousamos tentar construir.

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*Vitor Taveira é comunicador social, integrante do programa Soy Loco Por Ti e membro da RAiZ - Movimento Cidadanista no Espírito Santo.

** Fotos de Emmanuelle Messias e Ana Cristina Fagundes Souto


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Comentários

Rubens Salles

01 de Outubro de 2016

Excelente artigo Vitor, gostei muito!

Rubens Salles

01 de Outubro de 2016

Excelente artigo Vitor, gostei muito!

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