América Latina: da cosmopolítica à tecnopolítica

  • 07 de Abril de 2016

Uma característica que distingue os novos movimentos sociais latino-americanos é seu sincretismo: a cultura do 15M/Occupy Wall Street se mistura com cosmovisões indígenas ancestrais.

 

Bernardo Gutiérrez González*

 

 

No dia 18 de setembro de 2013, os índios Munduruku da Amazônia brasileira enviaram uma nota de apoio aos “movimentos de lutas das manifestações nas ruas”. Desde as denominadas “jornadas de junho”, as revoltas massivas que viraram a política brasileira de cabeça pra baixo seguiam em ebulição. A luta do povo munduruku recebeu o apoio dos movimentos urbanos. E os Munduruku Ipêrugayu escreveram de volta uma carta de solidariedade. “Agradecemos a todos os movimentos que manifestaram suas indignações nas ruas, em todos os setores sociais e de todas as classes sociais existentes”. Enquanto os munduruku lutavam contra as hidrelétricas em seu território, as ruas do Rio de Janeiro eram uma explosão de símbolos sincréticos, um encontro de lutas urbanas e causas ancestrais. Um Batman ativista corria ao lado de um índio korubo nas manifestações. A Aldeia Maracanã, o antigo Museu do Índio, que o governo queria derrubar para construir o estacionamento do Maracanã, se converteu em um ícone de uma revolta em que conviviam jovens streamers e xamãs de várias tribos. A cosmopolítica, termo usado para definir a visão de mundo do líder yanomami Davi Kopenawa, se fazia urbana. E a tecnopolítica da era das redes digitais e das multidões empoderadas adotava no Brasil desvios não previstos, tingidos de cosmovisões ancestrais.

 

A pesquisa “Nuevas Dinámicas de Comunicación, Organización y Agregación Social. Reconfiguraciones tecnopolíticas", desenvolvida a partir de uma convocatória global da OXFAM, tinha o objetivo de entender melhor as “novas formas de participação cidadã” e “processos sociais sem centro” na América Latina. Apesar de que o estudo prestou especial atenção nas redes sociais digitais, uma de suas principais conclusões é que o DNA ancestral colaborativo latino-americano (mecanismos orientados ao bem comum como a minga kichua, o tequio náhuatl e o ayni aymara) e algumas cosmovisões como o Bem Viver convivem na região com as dinâmicas tecnopolíticas e o hacktivismo.

 

Cosmovisões, cosmopolítica

 

A cosmopolítica, esse olhar que interpreta o mundo à margem de lógicas ocidentais, é o esqueleto emocional de muitos movimentos latino-americano de “novo cunho”. E é inclusive a inspiração organizativa comunitária de muitos grupos e coletivos que baseiam sua ação em ferramentas e plataformas digitais. Na Colômbia, a Minga Indígena convocada pelos povos indígenas do Cauca em 2008 se converteu em grande referente político de muitos jovens urbanos. A Minga, uma alusão ao mecanismo coletivo kichua minga, se transformou em uma marcha que percorreu todo o país. Para muitos jovens foi “o acontecimento fundamental na transformação das formas de organização e ação social”. Durante a Greve Agrária de 2013, a convivência entre novos atores (Mesa Amplia Nacional Estudiantil – MANE, perfis de Anonymous) com os movimentos rurais clássicos, visibiliza parte dessas ressonâncias cosmopolíticas-tecnopolíticas, que se ensamblam na transmordernidade dos teóricos decoloniais, que vai além dos marcos clássicos do ocidente.

 

Por outro lado, o projeto Buen Conocer / FLOK Society no Equador gerou um amplo espaço de encontro de criptopunks, hackers globais, instituições e movimentos latino-americanos. O Bem Conhecer, emoldurado no paradigma do Bem Viver, lançava o desafio de conseguir “a segunda independência a partir das tecnologias livres” para o Equador e de uma “Pachamama digital do conhecimento comum e aberto”. O Bem Viver e a ética hacker se juntaram num projeto que aspirava superar a economia do extrativismo a partir do conhecimento livre, comum e aberto. A tecnopolítica se combina com práticas e cosmovisões ancestrais. O perspectivismo ameríndio de que fala o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, “começa com a afirmação duplamente inversa: o outro existe, logo pensa”. A afirmação poderia operar sobre a ética hacker ou a cultura de redes, autênticas cosmovisões e/ou sensibilidades de mundo de nossos tempos. Os devires simbólicos da mestiçagem do Bem Viver e da ética hacker, como o Bem Conhecer ou o Bem Resistir, se aproximam da transmodernidade formulada por Enrique Dussel: “um além transcendente à modernidade ocidental (...) Transmodernidade polifacética, híbrida, pós-colonial, pluralista, tolerante, mas além da democracia liberal e do Estado moderno europeu”.

 

Inspiração global

 

Com a explosão das revoltas de 2011 – Primavera Árabe, 15M, Occupy... – os atores sociais e governos da América Latina abraçaram o negacionismo. A versão oficial: não existiam revoltas em rede na região porque os governos progressistas contavam com o apoio de seus povos. Além disso, entoavam um deja vú, alegando que as lutas históricas da América Latina serviram de inspiração para a onda de revoltas abertas pela Primavera Árabe. Certo: do zapatismo aos estudantes chilenos, a América Latina tem servido de faro social ao mundo. Entretanto, as conclusões do estudo Nuevas Dinámicas de Comunicación, Organización y Agregación Social. Reconfiguraciones Tecnopolíticas revelam que o 2011 global mudou – e muito- as dinâmicas sociais da América Latina. A nêmeses em rede do frenético 2011 planetário transformou a slut walk de Toronto na Marcha das Vadias ou das Putas em vários países, adaptou o 15M espanhol a Indignados Paraguai (entre muitas outras frentes), expandiu o imaginário do Occupy Wall Street ou fez com que os movimentos estudantis da região se impregnassem do imaginário, métodos ou ferramentas de Wikileaks, Anonymous ou Democracia Real Ya.

 

Por sua vez, a nova arquitetura de convocação e de protesto, o espaço híbrido (Internet e territórios) como interface de ação, o surgimento de novos atores e do pertencimento líquido e pontual a determinadas causas estão configurando um novo protótipo de participação, criação e imaginação política na América Latina. Um padrão habitual na região é o de uma mobilização intensa no tempo em torno de uma causa concreta, com fortes  rupturas simbólicas e a geração de novos espaços agregadores. Por outro lado, o feminismo (#NiUnaMenos na Argentina), as liberdades digitais (#Pyrawbes no Paraguai, lutas contra Internet.org) ou a defesa de bens comuns urbanos (como o #tomaelbypass no Peru ou o #OcupeEstelita no Brasil) são alguns dos eixos que continuam vivos. Ao mesmo tempo, alguns levantamentos como a Marcha de las Antorchas, que começou pedindo a renúncia do presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, propiciou o surgimento de um novo sujeito político, os Indignados de Honduras, com características como a autoconvocação a partir das redes sociais, a auto-organização ou o empoderamento emocional. Como também ocorreu nas revoltas #JusticiaYa na Guatemala, em Honduras a luta contra a corrupção deixou de estar nas mãos da direita neoliberal. As classes populares da América Central a reivindicam como sua, o que desperta o receio dos Estados Unidos.

 

O estudo da OXFAM destaca que por sua vez que as dicotomias políticas e o antagonismo narrativo construído pelos governos progressistas da América Latina, ainda que também pela oposição, se desenha como o principal limite da tecnopolítica na região. Na maioria dos casos, uma intervenção do estatismo desqualificando alguma revolta como “neoliberal” ou “direitista” pode provocar um esvaziamento das ruas ou uma inclinação das mobilizações para a direita, como provam os casos do Equador e do Brasil.

 

Do zapatismo a Ayotzinapa

 

Estudo gráfico do caso Ayotzinapa http://demos.outliers.es/tecnopolitica/Ayotzinapa/

Existe um fim de ciclo das esquerdas latino-americanas, como alerta o jornalista uruguaio Raúl Zibechi? Significará a chegada ao poder das direitas neoliberais? Como a sequência de revoltas em rede vai influenciar na região? A resposta não passa por mitificar o legado do bloco progressista como fazem alguns meios de esquerda europeus. Tampouco por criminalizar as políticas públicas do bloco. A mudança de pele latino-americana é mais sutil, complexa e poliédrica. Nem bolivariano nem exatamente o contrário. Apesar da crescente polarização da região, existe uma nova onda de sensibilidades e práticas políticas. Além das explosões ou movimentos já citados e das sinergias cosmo-tecnopolíticas, a região vive com intensidade o surgimento de um novo sujeito político que deixa as organizações sociais clássicas fora do jogo. Em alguns casos incorpora as ditas organizações a um novo imaginário.

 

A irrupção do movimento #YoSoy132 no México (2012), do #tomalacalle no Peru (2013), das revoltas do #VemPraRua no Brasil (2013) ou do #JusticiaYa da Guatemala (2015), confirmam um padrão de comunicação, ação e auto-organização que transborda as definições e estruturas sociais tradicionais. Na maioria dos casos, se tratam de movimentos rede que evoluem ao longo do tempo, que mudam de forma e inclusive mudam de nome. O estudo Tecnopolítica: la potencia de la multitud conectada define o fenômeno como uma “liderança temporária distribuída”, que explica muitas das mutações do 15M espanhol ou do #YoSoy132 mexicano, cuja “estrutura se transforma de maneira dinâmica”.

 

A eclosão do #YoSoy132 no México foi especialmente relevante para a região, pois simboliza com perfeição a continuidade e ruptura simultâneos que os novos movimentos provocam. #YoSoy132, que bebe simbólica e organizacionalmente do zapatismo sem linearidade, mas que rompe com ele, não foi uma explosão pontual. Teceu um novo ecossistema social que evoluiu ao longo do tempo. Alguns dos nós de uma determinada ação (inícios do #YoSoy132) serviram de ponte para novos espaços (o #PosMeSalto, por exemplo, contra o aumento das tarifas). Nesse ecossistema, quem lidera temporalmente uma ação pode não haver participado no passado.

 

Quando os 43 estudantes da Escuela Normal Rural de Ayotzinapa despareceram na noite de 26 de setembro de 2014, poucos suspeitavam que um ano e meio depois as redes mexicanas e globais seguiriam reivindicando justiça. Tampouco que dito processo provocaria a interação de ecossistemas sociais tão díspares como o do zapatismo, o da greve de estudantes de 1999 e o do #YoSoy132. O caso Ayotzinapa foi o ponto de chegada de muitas causas mexicanas, de movimentos sociais da América Latina e do mundo. O estudo de dados específico sobre o processo de Ayotzinapa, que analisou dezenas de hastags no Twitter, prova a tese da pesquisadora Guiomar Rovira: os estouros funcionam mais através de “sincronizações” que de férreos pertencimentos ideológicos. E #YoSoy132, ainda que isso pese a quem afirmava que o movimento havia morrido, foi chave nessa conexão de ecossistemas sociais tão díspares.

 

Transnacionalismo, transmodernidade

 

Durante a indignação de Ayotzinapa, os diferentes ecossistemas mexicanos interatuaram com as redes das revoltas globais, como o #15M espanhol, os protestos do Brasil ou Occupy Wall Street, em hastags como #Caravana43 (Estados Unidos), #EuroCaravana (Europa) ou #caravana43sudamérica. Por sua vez, Ayotzinapa conectou lutas globais e simbologias heterogêneas surgidas em diferentes momentos históricos, como os apoios de Noam Chomsky e da Democracia Real Ya da Espanha visibilizam. Resulta interessante a identificação mútua entre Ayotzinapa e #BlackLivesMatter (protestos contra o assassinato de negros estadunidenses). Além disso, o caso Ayotzinapa deixou uma marca profunda na América Latina, produzindo uma conexão efêmera de diferentes movimentos estudantis. Despertou apoio de movimentos tão variados como dos Yasunidos (Equador), das Madres de Mayo (Argentina), ou da torcida do time The Strongest (Bolívia). Entretanto, apesar da empatia emocional provocada pelo caso de Ayotzinapa e das novas conexões ocorridas a partir de diferentes processos, ainda é cedo para saber se influirá na macropolítica regional ou se desembocará num novo movimento ou paradigma político pan-americano. O mesmo poderíamos dizer de explosões como o #VemPraRua do Brasil em 2013 e outras revoltas.

 

A sequência de lutas globais aberta pela Primavera Árabe começou a apagar as simbologias, marcos e ficções do ocidente. Ao eclodir na América Latina e conviver com as epistemologias do sul, também interferiram em algumas narrativas dicotômicas construídas pelos governos locais. A conexão transnacional destas revoltas está tecendo um novo sentido de mundo que vai além do neoliberalismo global e do estatismo desenvolvimentista que tem o Estado moderno como epicentro. Este conhecimento fronteiriço e transmoderno conecta o sul global com o precariado e outros sujeitos políticos do norte, configurando uma nova geopolítica do comum. Como um golpe de sorte, o legado progressista latino-americano tem uma nova rota de fuga no municipalismo espanhol, que conquistou as principais prefeituras do país. As Juntas de Bom Governo zapatistas, o Bem Viver ou a Cultura Viva latino-americana são linhas de ação política em diferentes níveis em cidades como Madri ou Barcelona. O pós-capitalismo global pode emergir da recombinação e sincronização de cosmovisões, sensibilidades e práticas latino-americanas e sul-europeias, cosmopolíticas e tecnopolíticas.

 

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* Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa no Twitter) é um jornalista, escritor e pesquisador hispano-brasileiro residente em São Paulo. Escreve sobre política, sociedade e cultura brasileira (e latino-americana), movimentos sociais, processos tecnopolíticos e redes. Dirigiu o estudo "Novas Dinâmicas de Comunicação, Organização e Agregação Social. Reconfigurações tecnopolíticas". As visualizações de redes foram desenvolvidas em colaboração com Outliers.es. Estudo completo en Academia.edu, Archive o Issuu.

 

** Tradução: Vitor Taveira (Coletivo Chasqui)

 


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