Além do capitalismo e do socialismo: o bem viver como alternativa

  • 03 de Novembro de 2016

Por Victoria Darling* | Le Monde Diplomatique Brasil

Eduardo Gudynas é analista e pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social em Montevidéu. Dedicado a questões de meio ambiente e desenvolvimento, suas ideias são debatidas hoje tanto nos círculos intelectuais internacionais, quanto nas universidades e movimentos sociais. A perspectiva ética biocêntrica, o nó da sua abordagem, percorre o mundo, posicionando o debate para além do capitalismo e do socialismo enquanto alternativas ao desenvolvimento.

Le Monde Diplomatique Brasil – Quais são os principais limites do modelo de desenvolvimento ou modelo de acumulação atual?

Eduardo Gudynas– O desenvolvimento tem muitas dificuldades e problemas para resolver em termos de modelo. O que temos são diferentes variedades de desenvolvimento que vão desde uma ampla gama que podem ser estratégias conservadoras, reclinadas no mercado, isto é, ajustadas para as corporações transnacionais ou, variedades de desenvolvimento com maior participação real do Estado. Essas estratégias têm sido chamadas de neodesenvolvimentismo, nacional populares ou socialismo do século XXI. Essa variedade de desenvolvimentos expressa diferentes estratégias, no entanto, todas mantêm elementos comuns. O desenvolvimento tem raízes que, profundamente entranhadas, são instrumentalizadas ideologicamente por correntes políticas de diferentes maneiras. A crítica que fazemos não se reduz ao detalhe dessas diferentes variedades ou instrumentalizações, mas às suas raízes culturais.

Em seus escritos o senhor refere-se à necessidade de uma ética biocêntrica. Em que consiste essa proposta?

A ideia moderna de política concebe que aqueles que fazem política são só os seres humanos porque eles são os únicos que podem articular preferências. Você pode ir para alguns lugares onde um grupo local diz numa audiência pública que a montanha é contra um determinado projeto de mineração. Para essas outras visões de mundo, cosmovisões ou ontologias, a montanha é um agente político e expressa emoções e interesses. Isso é impossível de entender para a política dos modernos. A política traduz a alegação que os seres humanos fazem sobre a montanha, ou seja, “bom, é uma crença religiosa, um conhecimento popular”, se a montanha é destruída haverá uma perda de valor econômico. Nesse sentido há uma discussão de novo tipo. As alternativas que recebem o nome genérico de “bom viver” são pós-capitalistas porque implicam uma ruptura com o capitalismo enquanto processo de acumulação e mercantilização. Mas o problema é que o socialismo, tal e como é definido em todas as variedades, é um projeto que adere à modernidade, é materialista em grande parte e, aliás, insiste em que o único capaz de ser e dar valor, e tem valor em si mesmo, é o ser humano.

No Brasil, vários movimentos sociais se expressam com firmeza contra o modelo extrativista. Entre eles o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) que faz parte da Via Campesina. Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) apresenta propostas para repensar a produção a partir de uma perspectiva agroecológica.

O que eu vejo em uma escala continental é que esse tipo de discussão de alternativas às ideias de desenvolvimento envolve uma ruptura ética, isto é, repensar a economia, o direito, a justiça. O bom viver tem uma grande discussão nos países andinos, em seguida, uma discussão moderada na Argentina, Uruguai, Chile e Colômbia. Os dois países que apresentam atrasos neste debate são efetivamente Paraguai e o Brasil. A relevância é medida por uma correlação entre tamanho do país e população. No caso da Bolívia, Equador e Peru, tivemos várias marchas nacionais em defesa da terra ou da água, contra a expansão extrativa. Se tivesse havido uma marcha proporcionalmente semelhante no Brasil que eventualmente teria mais de 1 milhão de pessoas marchando, as coisas na região seriam diferentes, mas isso não aconteceu. Em vários países, incluindo Uruguai, existem redes nacionais que têm algum poder para discutir alternativas ao extrativismo. No Brasil esses debates têm sido muito limitados, por exemplo, na discussão do código de mineração, ou do pré-sal. Não teve debates públicos num horizonte pós-extrativista, apenas foi discutido como os recursos da extração seriam distribuídos.

Será que a experiência e os valores do bom viver podem ser replicados em outras sociedades diferentes às sociedades andinas ligadas às tradições indígenas?

O bom viver é um conceito guarda-chuva. No interior, há bom viveres específicos, por exemplo, há um bom viver específico para o aymara e quéchua que claramente não vai se replicar no Brasil, mas o próprio Brasil pode construir os seus próprios bons viveres, diferentes de acordo com cada região ecológica e cultural. A busca de alternativas ao progresso implica um reencontro com a natureza. Natureza não significa intocado, mas a apropriação de recursos sem destruição, o que implica um estilo mais austero de vida ao atual, outros tipos de integração entre países vizinhos, outra valoração dos conhecimentos locais. Implica, aliás, a incorporação de visão crítica eco-feminista.

Em um congresso na Noruega, em setembro, o senhor criticou a ênfase excessiva que os acadêmicos dão ao extrativismo em relação aos rendimentos das exportações na América Latina.

Claro, o comércio exterior da América Latina baseia-se principalmente sobre os recursos naturais, especialmente no caso dos países andinos, em que representam até 80%. No entanto, a participação da América Latina no comércio global é apenas de 3%. É um mito que os setores industriais se baseiam na nossa oferta de recursos naturais. E a esse mito, adiciona-se outro, o de que as economias da América do Sul dependem essencialmente da exportação de recursos naturais e que a renda dessa exportação é a principal fonte de recursos para manter programas de assistência aos mais pobres. A verdade é que um exame rigoroso dos dados mostra que isso é falso. Em quase todos os países, a principal fonte de renda dos Estados são os impostos internos. Enquanto isso, os gastos do Estado para programas de assistência social condicionada são muito pequenos em comparação com o orçamento nacional. E uma revisão do orçamento permite descobrir que é o próprio Estado quem subsidia o extrativismo direta ou indiretamente.

Os governos colaboram no financiamento da prática extrativa realizada por empresas privadas?

Sim. A Bolívia, por exemplo, aprovou um pacote de subsídios à indústria de exploração de petróleo e em paralelo reformou o sistema de avaliação de impacto ambiental liberando o acesso das companhias petrolíferas às áreas protegidas e territórios indígenas. Em alguns casos, aliás, os próprios sindicatos defendem o extrativismo uma vez o investimento no sistema de pensões depende da prática da extração. Há governos e sindicatos mais interessados na rentabilidade do petróleo ou da mineração, mesmo à custa da poluição ou violação dos direitos humanos.

A mudança, então, é cultural?

Em São Paulo, recentemente, muitas pessoas me disseram que viver na cidade é insuportável, que o estilo de vida urbano com tráfego e poluição não é vida. E isso não acontece só no Brasil. No Uruguai houve um grupo que era contra um enorme projeto de mineração no governo de Mujica, dentro do qual havia mulheres. Elas fizeram um vídeo com depoimentos. Se você presta atenção, os argumentos relativos à terra, à natureza, à água, em vinculação com a história e a tradição são quase idênticos aos argumentos usados no Equador por Gualinga, a moça que defende o Parque Yasuni. Existem em diferentes partes uma mesma sensibilidade, ela mostra que é possível também nos nossos países esta mudança para ver e pensar alternativas. No exercício de pensar futuros possíveis deve-se pensar também nas vias de alcançá-lo. Na medida em que você vê novas vias, você se atreve a ver cada vez mais, futuros possíveis.

A nova fase, se de fato existe uma fase pós-capitalista, seria... como poderíamos chamá-la?

Bom viver.

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*Victoria Darling é doutora em Ciências Políticas e Sociais pela Universidad Nacional Autónoma de México e professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).


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