Agroecologia e as perspectivas indígenas: uma alternativa em busca da soberania alimentar

  • 04 de Setembro de 2016

Por Cristine Takuá*

Publicado originalmente em Revista Língua de Trapo

Ao longo da história, os povos da floresta modificaram seu modo de viver. Muitos passando de uma vida nômade para uma vida sedentária. Nesse processo, técnicas de agricultura foram se desenvolvendo em busca de subsistência. A agroecologia, desde as suas origens, é essencialmente camponesa, e parte de uma relação harmoniosa com o meio ambiente, contemplando os recursos naturais a partir de uma visão sistêmica, com base na análise dos agro-ecossistemas e suas inter-relações, usando a natureza e a preservando para produzir alimentos.

Isto está totalmente relacionado ao conceito de soberania alimentar, o direito dos povos de definir suas próprias políticas e estratégias sustentáveis para produzir, distribuir e consumir alimentos, e garantir o direito à alimentação para toda a população, com base na pequena e média produção, respeitando suas próprias culturas de produção e de gestão dos espaços rurais, configurando-se como um impulso comum a diversas culturas, lutas e economias.

Todos sabemos que a economia mundial está enfrentando uma crise financeira global. O modelo de acumulação de capital mostra sinais de esgotamento. Isto resultou no aumento dos preços dos alimentos de forma assustadora. A alimentação é um direito humano fundamental, mas precisamos buscar alternativas para eliminar a sombra da fome e da desnutrição, que invade algumas comunidades nos dias atuais.

A agricultura convencional está comprometida com a ilusão da Revolução Verde para aumentar a produção de alimentos no mundo, entupindo a terra com transgênicos e pesticidas. Com as adversidades enfrentadas elo modelo neoliberal, o agravamento da crise alimentar e a mudança climática – consequência da forma errada com que os homens ao longo de sua caminhada “estupraram” a Terra -, faz-se necessário promover um modelo de agricultura realmente sustentável, que permita a autonomia dos camponeses e indígenas.

Dessa forma, a agroecologia se mostra como uma alternativa aos agricultores, aos povos indígenas e suas comunidades, para lidar com resiliência frente à modernidade globalizante que quer exterminá-los e desaparecer com seus saberes, suas técnicas milenares de cultivo e sobrevivência.

No entanto, mesmo assim, os povos da floresta resistem com seus sistemas agrícolas autônomos e  demonstram ao longo dos anos o importante papel das práticas utilizadas no manejo e conservação da diversidade inter e intra-específica de recursos fitogenéticos,  bem como nas interações do manejo agrícola com os processos de conservação e de geração de variabilidade genética de plantas cultivadas no interior de áreas de roça.

Longe de ser praticada em larga escala, a agricultura indígena subsiste, pura e simplesmente, por estar imbricada na esfera mais íntima de sua cultura: a religiosidade. E através dela permanece há séculos com suas sementes nativas, conservando culturas preciosas, como a do milho criolo, da mandioca, da abóbora, da batata-doce, da melancia, do amendoim, entre outros.

De um modo geral, temos um desafio pela frente:  tornar a agroecologia uma estratégia de sustentabilidade para os povos indígenas! E para isso temos que fazer propostas de políticas públicas que possibilitem o empoderamento e autonomia para os diversos povos serem os próprios sujeitos capazes de realizarem a utopia da agricultura sustentável, utilizando os métodos e estratégias da ciência da agroecologia, que nada mais é que a combinação do conhecimento indígena e científico, tornando a agricultura mais harmoniosa com o meio ambiente e possibilitando um retorno ao equilíbrio com a grande Teia e com os princípios básicos do Bem Viver que permeiam a vida de todos os Povos da Floresta.

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*Cristine Takuá é filósofa, educadora indígena, artesã e militante das causas dos povos indígenas. Vice-presidente do Instituto Guarani da Mata Atlântica (IGUAMA), vive na Terra Indígena Ribeirão Silveira, que fica no litoral de São Paulo. É integrante da RAiZ - Movimento Cidadanista. 


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