Afinal, o que são confluências?

  • 14 de Fevereiro de 2016

Por Max Arcano

As confluências são uma tática eleitoral criada na Espanha por volta de 2013 apartir da rede de movimentos dos Indignados - 15M, tendo por principal fomentador o livro "La apuesta municipalista" da Traficantes de Sueños, uma influente cooperativa editorial e livraria de Madrid, que espalhou as sementes desta idéia através de cursos chamados "Asaltar los cielos".

A proposta consiste em ultrapassar o que eles chama de "movimentismo", promovendo um "assalto as instituições" municipais, para construir uma verdadeira democracia a partir dos movimento sociais e da cidadania.

Ao contrário do que é muito divulgado (com intuito desinformativo) pela mídia brasileira, Podemos não é o responsável nem um suposto "dono" ou "líder" das confluências, é somente mais um integrante em algumas localidades, e nem todas as localidades contam com sua participação. Muito menos se trata de uma "frente de esquerda" ou "frente popular", pois vai muito além das tradicionais frentes partidárias.

"Confluência: algo muito diferente de uma coligação ou aliança político-partidária. Algo mais que uma frente cidadã. Algo mais que uma candidatura de unidade popular. Algo novo, inexistente até um ano atrás.." (Bem-vindos à era dos pós-partidos políticos, de Bernardo Gutiérrez)

Exemplos práticos de Confluências são Ahora Madrid e Barcelona en Comú. São exemplos de partidos que impulsionaram as confluências o próprio Podemos, Equo, Partido X, Esquerda Unida, Confederação Pirata da Espanha, entre diversos outros partidos, agrupações políticas e principalmente, movimentos sociais.

CONFLUÊNCIAS NO BRASIL
No Brasil o modelo das confluências vem sendo adaptado e gestado sob o nome das Frentes Cidadãs e das plataformas Cidade Que Queremos (Cidade Que Queremos RJ, Cidade Que Queremos BH). Tem como seus principais entusiastas a Raiz Partido Movimento Cidadanista, os Círculos de Cidadania, entre outros.

O QUE CARACTERIZA UMA CONFLUÊNCIA? O QUE DIFERENCIA DE UMA FRENTE PARTIDÁRIA TRADICIONAL?
Segundo o texto "El ‘método Ganemos’ o aprendiendo a hacer política en común" de Montserrat Galcerán "Ahora Madrid assim como Barcelona en Comú ou outras tantas semelhantes, são candidaturas cidadãs, surgidas do encontro entre uma grande quantidade de coletivos, pessoas independentes e movimentos sociais. Dentro delas existem membros de partidos políticos, como IU, Equo e do Partido Por um Mundo Mais Justo, porém estas organizações não figuram como entidades próprias. Também participam a título individual membros dos círculos de Podemos".

Outra característica é que as confluências são totalmente horizontais, sem dirigentes, se organizando através de círculos territoriais ou temáticos, e através de mecanismos de democracia direta digital, como o Appgree ou Loomio. Segundo o texto citado logo acima "A retroalimentação entre os 3 espaços, o territorial assembleário, o midiático e o virtual, é uma das chaves de nossa forma de atuar".

Também é característico a forma como tentam engajar os cidadãos comuns na gestão pública, com um tratamento respeitoso as pessoas que não podem se dedicar a uma militância política focada, pois entende que a maioria tem uma dificuldade de dedicar uma grande quantia de seu tempo a isto. O esforço então passa a ser oferecer a cada um a possibilidade uma maior participação nos assuntos públicos, pois "o que decidem as instituições políticas são questões que afetam diariamente nossas vidas".

Em resumo, são características das confluências cidadãs:
- Uma confluência é uma candidatura cidadã;
- Uma confluência é uma frente de coletivos populares, indivíduos independentes e movimentos sociais;
- Partidos Políticos participam, mas sem reinvidicar o processo, sendo que os seus filiados participam somente como indivíduos;
- Organização através de meios totalmente horizontais, sem dirigentes, se organizando através de círculos territoriais ou temáticos, e através de mecanismos de democracia direta digital;
- A retroalimentação entre os 3 espaços, o territorial assembleário, o midiático e o virtual;
- O respeito ao cidadão comum não engajado politicamente, focando no esforço para oferecer a cada um a possibilidade uma maior participação nos assuntos públicos.
- Pregam o "mandar obedecendo" zapatista.

OS CINCO PRINCÍPIOS DA CONFLUÊNCIA GANEMOS
Segundo o texto "Bienvenidos a la era de los post-partidos políticos" de Bernardo Gutiérrez, a plataforma Ganemos funcionaram de forma a adaptar as 4 liberdade do Software Livre, um breve marco ético a partir da qual construir processos compartilhando códigos e práticas. São elas:
1. Princípio de confluência = Não pretender gerar uma nova estrutura, mas sim fortalecer a coordenação das já existentes;
2. Princípio de promoção = Favorecer o surgimento de ferramentas e espaços de cooperação no território, naqueles lugares que estes não existam;
3. Princípio de sustentabilidade = Pensar os mecanismos de participação de tal maneira que sejam sustentáveis não somente para ativistas, mas também para a cidadania no geral;
4. Princípio de inclusão = Que as iniciativas que sejam lançadas busquem sempre a cidadania no geral e sua participação e não somente a composição interna de movimento;
5. Princípio de co-organização = Não entender a cidadania como um espaço de consulta ou de validação mas sim buscar favorecer as ferramentas para que quem desejar possa organizar, participar e tomar decisões que sejam vinculantes.

TRANSBORDAMENTO
O princípio mais importante das confluências está no que se chama de "transbordo" (desborde/ overflow), ou seja, buscar a capacidade do que Mayo Fuster descreveu como  "perder o controle do processo e operar com liberdade no processo de mobilização" ou conforme Felipe Gil e Francisco Jurado, "deixar ser invadido e confiar em uma construção coletiva e descontrolada". Isso gera o que Humberto Maturana e Francisco Varela intitulam como "autopoese"', caracterizado pelos mesmos como "'o mecanismo que favorece um sistema vivo a se replicar a si mesmo de forma auto-organizada"!".
Conforme discurso de Célio Turino durante o lançamento da Raiz: "Não devemos ter medo de perder o controle do processo).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da grave crise da esquerda brasileira, creio piamente que as experiências das confluências devem ser adaptadas a nossa realidade, dando vazão as demandas dos movimentos sociais totalmente autônomos não somente nas ruas, mas nas instituições oficialescas também.

A grande pergunta porém é: será que vamos conseguir superar as grandes brigas de ego, os extremos personalismos e a "futebolização" das siglas (comportando-se como se fossem fá clubes mais preocupados com sua sigla do que com as idéias defendidas) da realidade política da esquerda brasileira, e ceder o lugar e a vez de forma humilde a um projeto de poder construído diretamente pelos cidadãos comuns sem participação política corriqueira? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

*Este texto estará na edição de relançamento da Revista Livre Zona, a se lançar brevemente

 

 


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